O grande músico, por Lúcio Verçoza

Eu o observava admirado. No final da entrevista, Chico ainda cantou uma bela composição inédita sobre Santana do Mundaú.

O grande músico

por Lúcio Verçoza

Para F. K.

Não sei o porquê e nem como fui parar ali. Dentro de um sofisticado estúdio-bar, Chico Buarque de Hollanda falava com repórteres. Contou brevemente sobre uma viagem que fizera a Santana do Mundaú em 1965: a ausência de sinal de rádio na pequena cidade, a dureza daquele ano, o presságio e sua enigmática mania de buscar em todas as cidades a sintonia da estação 196.6. Ele revelava com simplicidade uma história complexa e escondida, talvez tão escondida por se tratar de um caso de intuição. Eu o observava admirado. No final da entrevista, Chico ainda cantou uma bela composição inédita sobre Santana do Mundaú.

A entrevista acabou, Chico Buarque de modo simpático cumprimentou todos e me deu um forte abraço como se me conhecesse. Disse que logo mais regressaria para me ouvir tocar. Sem compreender nada, apenas retribui o abraço e o sorriso. Achei que fosse algum engano, mas em seguida um desconhecido me disse que estava tudo certo para o meu show de logo mais e, inclusive, o percussionista que me acompanharia havia acabado de chegar. Pedi para ser levado até o percussionista, e descobri que era alguém que eu nunca vira antes, mas agia como se me conhecesse.

Diante da improvável oportunidade de me apresentar para Chico Buarque e para um público de jornalistas e artistas, sugeri ao percussionista que aproveitássemos as poucas horas que restavam antes do espetáculo para ensaiar. Mas ele era um sujeito seguro, disse que já estava tudo certo e eu poderia confiar no que havíamos ensaiado. No entanto, eu não me recordava de ter ensaiado com ele, e muito menos de qual seria o repertório do show. Sem confessar o real motivo de minha preocupação, insisti que diante da importância da ocasião, deveríamos fazer um último ensaio. Isso o irritou profundamente, como se eu estivesse ferido sua ética profissional. Então, ele me perguntou onde estava o meu microfone; eu lembrei que não tinha e nem nunca tive um, e ele disse: “Como alguém que não tem sequer um microfone pode exigir algo. Vá pedir para o seu papai comprar”.

Aquele deboche me envergonhou, mas o tempo estava passando e o que eu queria mesmo era me preparar para o show. Insisti que não precisaríamos de microfone para ensaiar, pois poderíamos ensaiar em qualquer lugar e, no meio do desespero, acabei confessando que não sabia como havia surgido essa oportunidade de tocar naquele estúdio-bar. Ele disse com desdém que só fui convidado por causa da minha amizade com Chico, que sem ela muito provavelmente o compositor carioca não teria vindo até aquele pequeno estúdio-bar em Maceió, e que o dono do bar ficou tão agradecido que decidiu me convidar para fazer o show. 

Nesse exato instante, lembrei que eu não sabia tocar sequer um mísero acorde no violão e tampouco cantar, mas se eu pudesse ensaiar nas poucas horas restantes, quem sabe os artistas presentes não se encantassem com o meu talento, talvez os jornalistas fizessem uma crítica elogiosa, quem sabe o Chico não se tornasse de fato meu amigo… Sem o ensaio, só me sobrou partir para o improviso. 

 

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