O maestro da Tropicália

Os da minha idade sabem o que foi a influência de Rogério Duprat e seus amigos maestros, mais os poetas concretistas, na juventude daquele final dos anos 60. Influenciaram os baianos Caetano e Gil e implodiram com as escolas de música popular, como alguns anos antes haviam implodido com o formalismo da música erudita.

Por tudo isso, quando o Gutenberg Guarabyra, o Gut, me convidou, em janeiro do ano passado, para visitarmos o maestro, concordei na hora. Cheguei um pouco atrasado no pequeno apartamento, perto do Aeroporto de Congonhas, onde o maestro ficava quando vinha a São Paulo, e deixava seu exílio em Itapecerica da Serra.

Duprat estava com 73 anos e vivia seus últimos momentos de lucidez. Estava praticamente surdo, misturava histórias recentes, mas na conversa lembrava-se de sua vida musical com uma lucidez impressionante.

Contou de seus tempos da casa na rua Rodrigues Alves, na Vila Mariana, vizinho da família Gandra Martins, quando ele e seu irmão Régis saiam com seus instrumentos para tocar na rua.

Começou a estudar violão aos 14 anos. Teve dois mestres fundamentais: o maestro Olivier Toni – que foi meu professor no meu primeiro ano na ECA – e o compositor Cláudio Santoro, um ex-discípulo do grande Koelreutter – o homem que trouxe a música atonal para o Brasil.

Rogério aprendeu violoncelo e, durante bom tempo, trabalhou na Orquestra Municipal de São Paulo e na da TV Tupi. Foi naquele período que o grupo de amigos -ele, Damiano Cozella, Júlio Medaglia, Willy Correa de Oliveira, Gilberto Mendes—começou a bagunçar o coreto da música erudita, para desgosto de Camargo Guarnieri. Na mesma época, no Rio, o maestro Eleazar de Carvalho conduzia revolução similar, ampliando o repertório das orquestras brasileiras.

Um pouco antes, uma geração um pouco mais velha -composta por Santoro e Guerra Peixe—já começara a inovar, disseminando os conjuntos de câmera, acabando com o exclusivismo das grandes formações orquestrais nas apresentações.

Em 1962, com a ajuda da Secretaria da Cultura de São Paulo, Rogério conseguiu assistir um curso de verão na Alemanha, do maestro Karlheinz Stockhausen, um jovem maestro nascido em 1928,e que se tornara o maior nome da vanguarda alemã.

Graças a Duprat, Stockhausen, o norte-americano John Cage, o francês Oliver Messien, caíram na boca da juventude estudantil da época. Dessacralizava-se a música, usava-se o bom humor – como a famosa peça de Cage, um concerto para máquina de escrever.

A bem da verdade, com raríssimas exceções, era uma música que, de minha parte, achava muito chata. Pegava o ônibus na Vila Maria, encontrava com meu amigo e parceiro João Cleber, que vinha do Ipiranga, e esperávamos na fila para assistir música concreta cacetíssima.

Mas quando os maestros da Tropicália trouxeram a irreverência para a música popular, a história dos arranjos populares brasileiros passou por uma revolução comparável às de Pixinguinha e Radamés, décadas antes.

Parte daquele bom humor foi influência direta do LP “Sargent Pepper”, dos Beatles. Naquele fim dos anos 60, achei na rodoviária de São João da Boa Vista um LP de um grupo vocal norte-americano, o “Harpers Bizarre”, que, tenho certeza, influenciou os maestros da Tropicália. Rogério lembrava-se vagamente do nome do conjunto.

Seu grande momento foi nos LPs de Caetano e da Tropicália na época. Mas, na conversa, dizia não perdoar Caetano, por ter criticado uma liberdade poética do maestro em uma das faixas: um sonoro pum. Não apenas o arranjo, como a interpretação do pum foram do maestro.

Cozella foi e deve continuar sendo um arranjador primoroso; Medaglia era outro de primeiro time. Mas os arranjos de Duprat tinham um toque que fazia a diferença.

O maestro agoniza em uma UTI em São Paulo. Me dizem que seu estado é irreversível. Em São Paulo, a música popular não é um valor cultural como no Rio de Janeiro. Por isso, o maestro agoniza sem alarde, completando a grande aventura do som que começou ali mesmo na Rodrigues Alves e terminou integrando a história da música brasileira do século 20.

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