O Rei da Malandragem

Na relação cinco maiores sambistas da história, não pode faltar Wilson Batista. Dentre todos, nenhum foi tão eclético e com estilo tão pessoal. Apesar das características pessoais de cada compositor, suas linhas harmônicas e melódicas eram previsíveis. Um acompanhante médio de violão saberá intuir o caminho da maioria das composições de Ataulfo (influenciado pela toada mineira), de Geraldo Pereira, Roberto Martins, Noel. Haverá mais dificuldades com as sofisticações harmônicas de Cartola, menos com as de Nelson Cavaquinho.

Mas Wilson Batista compôs alguns clássicos em que as seqüências não tinham o equilíbrio da música convencional. É como se fosse um vôo desconjuntado, em que faltavam acordes, ou aparentemente se demorava demais para mudar o acorde, para a harmonia se definir. Apenas no final da linha se percebia a beleza estranha, o nível de criatividade, o padrão estético diferenciado. O clássico “Meus Vinte Anos” é um exemplo típico. “Nega Luzia” é outro, assim como “Chico Brito” (com Alberto Teixeira), gravado em 1950 por Dircinha Batista, e “Mãe Solteira” (com J.Castro).

O ecletismo de Wilson Batista ia muito além. Compôs obras-primas do samba convencional como “Emilia” (com Haroldo Lobo, “eu quero uma mulher / que saiba lavar e cozinhar”), e “Volta pra casa Emília” (com Antonio Almeida, “ai, ai / quando visto um terno amarrotado, meu Deus / tenho que me lembrar / da Emília que era tão cuidadosa mulher”), um dos meus clássicos prediletos, “Morro de Zinco” (com Nássara, “aquele morro de zinco que é Mangueira”). Ajudou a dar forma ao samba de breque, com “Etelvina, acertei no milhar” (em que Geraldo Pereira aparece na parceria, mas, pelo que se sabe, a música é apenas de Wilson). E fez marchinhas de muito sucesso, como “Balzaqueana” (com Nássara).

Anos atrás, ouvi um samba de breque típico, parceria de Wilson Batista e Sinhô nos anos 20. Não consegui encontrar o CD. É até possível que tenha havido um erro de informação, pois não consta parceria entre ambos no levantamento da obra de Wilson Batista por Ricardo Cravo Albim.

Wilson Batista nasceu em 1913, em Campos. O pai era guarda municipal. Aos 15 anos mudou-se para o Rio e trabalhou como acendedor de lampião. Para não ter que pegar no batente, largou a família e foi morar em uma pensão da Lapa.

Em 1933 envolveu-se em uma polêmica célebre com Noel Rosa. Wilson tinha apenas 20 anos, Noel 23. A polêmica teve duas partes. Na primeira, Noel Rosa, já consagrado, lançou “Rapaz Folgado”, para provocar Wilson Batista, que fizera a apologia da malandragem em “Lenço no Pescoço”. Wilson respondeu com “Mocinho da Vila” e Noel deu xeque-mate com “Palpite Infeliz”.

A segunda rodada foi quando estourou o “Feitiço da Vila”, de Noel, e Wilson devolveu a provocação com “Conversa Fiada”, com algumas boas passagens, mas longe da qualidade da música de Noel, que rebateu com “João Ninguém”. Wilson apelou com “Frankestein da Vila”, que acabou deixando-o antipatizado com o público.

Na verdade, embora ambos fossem precoces, com 20 anos Noel já era um compositor maduro. Já a curva de maturidade de Wilson Batista atinge a plenitude apenas em 1940, quando tinha 27 anos. Seus sucessos, de verdade, começaram nos anos 40, com “Oh!, Seu Oscar” (com Ataulfo Alves), “Acertei no Milhar” (com Geraldo Pereira), “Emília”, “Bonde São Januário”, o clássico “Meus Vinte Anos”, de 1942, “Louco”, de 1947, “Mundo de Zinco”, “Nega Luzia”, “Deus no Céu, Ela na Terra”.

Teve alguns grandes intérpretes, como Ciro Monteiro e Jorge Veiga. Nos anos 50, já decadente, e com poucos sucessos, encontrou seu maior intérprete, Roberto Silva.

Nos anos 60, Wilson Batista já era um fiapo de homem, consumido pela boemia e pela bebida. Morreu em 1968, aos 55 anos, sem forças sequer para dar o último depoimento do Museu de Imagem e Som, de Cravo Albim.

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