O som brasileiro do século 20

Minha filha veio me perguntar qual a música mais bonita que já ouvi na vida. Digo que é a “Ária” (Cantilena) da Bachiana Número 5, de Villa-Lobos. Pergunta outra. Digo que é “Melodia Sentimental”, de Villa-Lobos. Uma terceira: digo que é o Choro Número 1, de Villa-Lobos. Uma quarta? “Tocata”, ou “Trenzinho Caipira”, de Villa-Lobos.

Na minha coleção tem a “Ária” com Bidu Sayão, Kiri Te Kanawa, Kathleen Battle, Barbara Hendricks, Renée Fleming. Em LP tenho com Maria Lúcia Godoy, mas não tenho mais o vitrolão para copiar para o computador.

Quando vim para São Paulo, no início de 1970, Villa Lobo era uma lenda meio questionada nos meios musicais paulistanos. Alguns colegas, filhos de pais musicólogos, afirmavam que Camargo Guarnieri era formalmente mais preciso. De alguns grupos, ouvia-se que a única parte relevante de Villa eram as composições para violão. Outros sustentavam que era a obra pianística. Outros ressalvavam as obras para trios e quartetos. Muitos menosprezavam seus concertos. Ou suas canções infantis.

Falta-me conhecimento mais profundo da música erudita para ousar comparações. Mas, Villa-Lobos é imenso demais para não figurar na relação dos maiores compositores do século 20.

Meses atrás reli o livro magistral de Vasco Mariz “História da Música no Brasil”. O capítulo dedicado a Villa informa que sua formação começou em Cataguazes, Minas Gerais, para onde seu pai se mudou depois de ter escrito uma série de artigos contra Floriano Peixoto no começo do século. Lá, Villa entrou em contato com a música sertaneja. Aliás, Cataguazes merece um estudo mais profundo sobre a maneira como conseguiu criar um ambiente cultural dos mais prolíficos, nas primeiras décadas do século.

Villa começou a aparecer no ambiente musical carioca em 1915, investindo contra os cânones da época. O grande nome da crítica musical da época, e da própria imprensa, era Oscar Guanabarino, que o combateria até a morte em 1936.

Villa não tinha limites. Inovou na composição, mesmo sem conhecer os revolucionários da época, Schoenberg e Stravinsky. Seu “Choro No. 1” é de 1920. Conviveu com os músicos populares e com os maiores músicos eruditos.

Foram seus fãs incondicionais o maior pianista do século, Arthur Rubinstein, e o maior violonista, Andrés Segovia. Rubinstein estava se apresentando em Buenos Aires e veio ao Rio só para conhecer o músico, de quem amigos lhe falaram. Ficou tão impressionado com as obras de Villa que tornar-se-ia seu propagandista por toda a vida. O encontro de Segóvia com Villa faz parte das lendas do violão do século.

Não foi apenas o maior compositor das Américas, mas um estimulador incessante da brasilidade. Participou da Semana de 22, onde, pela primeira vez, o internacionalismo rastaquera e afrancesado da elite paulista encarou de frente uma nova estética, revolucionária e moderna.

Em 1923, rumou com a primeira esposa para a Europa. Um ano depois, organizou seu primeiro concerto em Paris, ajudado pelo editor Max Eschig. Retornou ao Brasil por falta de dinheiro. Voltou a Paris em 1927, graças à ajuda de Carlos Guinle, que lhe emprestou o apartamento na cidade, o mesmo Guinle, aliás, que bancou a tourné de Pixinguinha e dos Oito Batutas a Paris.

Naquela temporada, Villa conquistou a Europa. Mas a falta de dinheiro o obrigou de novo a voltar ao Brasil em 1930, agora, de forma definitiva. Em uma excursão a São Paulo, patrocinado por Olívia Penteado -a grande mecenas da época—conheceu o interventor João Alberto, ele próprio um bom pianista. Da conversa entre ambos saiu o projeto de Villa, de levar a música brasileira a todo o país. Primeiro, uma excursão, liderando um grupo que tinha Guiomar Novaes, Souza Lima, Antonieta Rudge e a cantora Nair Duarte Nunes. Dois anos depois assumiu a Superintendência de Educação Musical e Artística, responsável por grandes eventos de canto orfeônico. Já consagrado em Paris, no final dos anos 40 foi descoberto pelos Estados Unidos.

Villa foi peça fundamental no grande projeto nacional do século, de criar uma identidade cultural nacional, que ajudaria a abrir caminho para o grande processo de desenvolvimento iniciado em 1930 e que se perdeu em um momento qualquer dos anos 80.

Gravações

Tenho algumas gravações clássicas da Bachiana no. 5, mas quase todas com mais do que os 5 MB exigidos pelo Podcast do iG. De qualquer modo, fica aí aí uma belíssima gravação em piano por Egberto Gismonti (clique aqui).

No Youtube

Villa-Lobos interpreta Villa-Lobos, Prelúdio no. 2.

Xuefei Yang, da novíssima escola chinesa de violão, interpreta os Estudos no. 11 e 12.

Barbosa Lima interpreta a Mazurca Choro da Suíte Popular Brasileira.

Prelúdio no. 1 por Daniel Magli.

John Williams intepreta Prelúdio no. 5 com seu estilo rápido.

Estudo no. 12 por um virtuose, que não consegui identificar.

O grande Julien Brean toca o Choro número 1.

O mestre uruguaio Abel Carvelaro interpreta Estudo no. 10.

Nelson Freire interpreta o belíssimo Choro no. 5

Gino e Bianca em um dos inúmeros vídeos caseiros interpretando a Cantilena da Bachiana no. 5.

Marília Vargas interpreta a Cantilena com acompanhamento de Câmera.

E a Cantilena com Jorge Aragão, emocionante.

Andres Segovia, o maior violonista do século 20, interpreta o Estudo no. 1, do maior compositor para violão do século 20.

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