O Tiro de Guerra e os dobrados brasileiros, por Luis Nassif

Desta vez vou perder o encontro anual dos atiradores de Poços de Caldas. São 49 anos da turma de 50. Ano que vem, cinquentenário. Na última rodada vieram os antigos sargentos, hoje coronéis da reserva, os que permaneceram na carreira.

É curioso esse espírito de tropa.

Fiz o Tiro em 1969, logo após o AI-5. Fui eleito presidente do Grêmio. O sargento Tigrão (falecido) queria que o grêmio fizesse seu jornalzinho. Contava pontos na cúpula. Mas como fazer um jornalzinho para as Forças Armadas em pleno AI-5?

Boicotei como pude, e o jornal não saiu.

Houve momentos de companheirismo e alguns momentos de sedição. Como o dia em que o Tigrão, no campo de treinamento, nos fez arrastar na terra sem a roupa do Tiro.

Saímos de lá e fomos direto ao Tenente Hélio, maior autoridade militar da cidade, mas que, ainda assim, não tinha ascendência sobre o Tiro.

Fomos vilmente dedados pelo Avestruz, um negro forte, homossexual, lutador de boxe, que vivia de vender salgadinhos para os atiradores. No dia seguinte, mal começa o Tiro, o Tigrão me convoca, na condição de presidente do Grêmio – e, pensava ele, seu representante perante os atiradores.

– Seu Nassif, ouvi uma coisa muito feia, uma insubordinação dos atiradores, indo se queixar ao Tenente Helio. O senhor soube disso.

– Soube sim senhor, sargento.

– Poderia me dizer quem estava lá?

– Sargento, a única pessoa que eu tenho certeza que estava lá era eu.

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– Seu Nassif!, vociferou o Tigrão.

Mas não houve punições. O tosco Tigrão tinha noção clara sobre lealdades e deduragens.

O melhor exemplo do companheirismo no Tiro eu tive no final do ano. Naquele ano, fazia o Tiro em Poços e ia estudar em São João da Boa Vista. Lá, montamos grupos de música e de teatro. E uma das peças que montamos foi Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Flavio Rangel.

Havia um aluno de direito da cidade, estudante do São Francisco e integrante do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). O serviço de informações do Exército foi até São João para pesquisar sobre a agitação daquele grupo perigoso, estudantes de 15 aos 22 anos. A diretora da escola, espertamente, tirou o corpo dos estudantes são joanenses e me apontou como o responsável. A razão era simples: como era de Poços, outro estado, estava fora do alcance do Segundo Exército.

A denúncia percorreu outros caminhos e chegou a Poços por duas vias. Uma, o Tenente Hélio; outra, o delegado Honório, ambos amigos de meu pai.

O Tiro de Guerra já havia terminado. Os sargentos, então, passaram a mandar recados por todos os atiradores que ainda apareciam por lá. Uns três ou quatro me encontraram na rua e passaram a seguinte mensagem:

– O sargento mandou dizer para você não aparecer em São João da Boa Vista, porque estão armando uma armadilha para você.

Em plena tempestade do AI-5 e da repressão, aqueles exemplos inesperados de solidariedade me fizeram entender o que é a solidariedade no ambiente militar.

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Voltando à cena política, que os militares de hoje se espelhem nos seus antepassados da Guerra do Paraguai, em vez dos antepassados recentes da repressão.

Para vocês, o mais fundamental dos ritmos brasileiros, o que forneceu a base para toda a polifonia do choro e dos regionais: os dobrados. E, dentre eles, os dois mais lindos: A Canção do Exército (nós somos da pátria a guarda….) e o Cisne Branco, a canção da Marinha.

E outras mais, que vocês poderão colocar nos comentárioss.

No pé, o Dobrado das Raças do Brasil, de minha autoria, gravada pela Banda da Polícia Militar de São Paulo.

 

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11 comentários

  1. “…que os militares de hoje
    “…que os militares de hoje se espelhem nos seus antepassados da Guerra do Paraguai, em vez dos antepassados recentes da repressão.”

    Dobrado é o que o povo vai cortar na mao desse pessoal.

    A memoria e o entendimento nao alcançam sequer a segunda guerra.

    O Brasil mandou tropas pra lá, pra combater o nazifascismo, mas pra esses cabecinhas Direitos Humanos são “coisa de comunista”…

    A tocada está mais pra marcha funebre, Nassif.

  2. Barbas de Molho
    Os mais

    Barbas de Molho

    Os mais afoitos aquí do GGN poderiam ir colocando

    as barbas de molho, como se diz por aí. O Mourão

    já disse a que veio. É bom ir aprendendo a solfejar estas

    marchas e dobrados porque quando o bicho pegar terão,

    pelo menos, a simpatia dos músicos verde-oliva.

    O perigo é ter que cantar – madrugada a dentro – sob a

    batuta de um maestro de maus bofes que adora solfejos

    em ré menor.

     

  3. Afaste de mim esse calice

    A Canção do Exército me levou ao tempo de escola, primeiro grau, anos do fim da ditadura militar e um sabor estranho na boca. Que loucura estarmos em fins de 2018 dobrando os sinos com essas recordações que têm sua nostalgia em um tempo de muito sofrimento para muita gente e alienação para tantas outras. Sera que isso vamos ter novamente ? Se for, a historia não se repetira como farsa. 

  4. fato  ..essa turma, pela

    fato  ..essa turma, pela história, guarda em si traços de COVARDIA e de desprezo

    COVARDIA por se valerem – em bando – da impunidade da pena, ao ameaçarem recorrentente, ARMADOS ou pela força bruta, a sociedade civil acuada e ultrajada ..e desprezo, por todo aquele que pensa diferente deles

    é uma MERDA  ..gente que acredita que o ser humano, ao contrário da prova e do argumento, do esclarecimento, só seria capaz de assimilar na base do prêmio e da porrada  ..qual seja, medem os outros como se a si mesmos lhes parecem (GORILAS, no sentido de bruta montes, e não de seres primatas)

     

  5. Homenagem à República
    Depois da noite de 5 para 6 de setembro de 1969 em um calabouço da Redentora, lembrando o primeiro barateamento da bandeira nacional 22 anos antes:

    PATRIOTISMO
    …aquele arrepio
    que a gente sentia
    quando na escola
    pela haste esguia
    a bandeira subia
    num dia
    de feriado nacional…

  6. bom, eu fui poupado de ter que perder um ano de vida,

    convivendo com um bando de fdp. com 18 anos formado técnico e com emprego garantido. a única coisa que me separava do sonho, era o comprovante de dispensa. lembro de entrar na sala para o exame médico, julho minuano cortando, e a sala com todas as janelas abertas, só faltou ligarem o ventilador. provavelmente não ligaram porque poderia diminuir a entrada de vento da rua.

    tive a sorte, que muitos colegas não tiveram. e ficaram um ano para trás.

  7. Caracas
    E eu me emocionando porque me veio as lembranças de eu menino, perfilado, cantando os hinos numa felicidade só. Em tempo, antes do golpe.

  8. Melhores dobrados e marchas

    Os melhores dobrados e marchas podem ser encontrados na página da Internet de meu amigo Sebastião da Cruz, sub-oficial músico aposentado dos Fuzileiros Navais, maestro da banda de concerto de Santo Amaro da Imperatriz, professor, etc, que tem milhares de músicas e vídeos de bandas, muitos gravados e editados por ele, e a maioria de músicas brasileiras.

  9. Nassif, seu dobrado é bom e

    Nassif, seu dobrado é bom e tem uma letra muito, muito interessante, com toques de modernidade que não descaracterizam o imprescindível tradicionalismo dos dobrados. Aconselho a você que faça um arranjo bem enxuto e brilhante de três minutos e meio, e vamos ver se ele bomba por aí nos milhares de coretos deste Brasil.

  10. + comentários

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