O Tom Jobim sessentão

Daniel Piza, além de bom ensaísta, escreve uma coluna dominical bastante agradável e variada do “Estadão”, e consegue fazer jornalismo cultural provocativo sem ser truculento. Na coluna de hoje , ele lamenta o fato dos nossos gênios sessentões – como Chico e Caetano –, depois dos sessenta perderem o ímpeto renovador. E menciona Tom Jobim como caso único, não só na música, como na literatura e nas artes brasileiras, de quem manteve esse ímpeto renovador mesmo após a fase da maturidade, com “Matita Perê”.

Tom teve uma fase pré-bossa nova esplendorosa, assim como a fase pós-bossa nova. Em todas as fases, se reinventou.

Há dois detalhes que comprometem o raciocínio de Piza. Tom Jobim gravou “Matita Perê” em 1973, com 46 anos. Com essa idade, Chico Buarque e Edu Lobo compuseram sua maior obra prima, “O Grande Circo Místico”. Chico compôs ainda o “Brejo da Cruz”, um clássico que nada tem a ver com sua produção anterior; “Vai Passar”, o grande hino de abertura; “Choro Bandido”, com Edu. Depois dessa idade, compôs as “Minhas Meninas”, de matar; “Estação Derradeira”, “Frevo Diabo” (com Edu), “Todo o Sentimento” (com Cristóvão Bastos), “Valsa Brasileira” (com Edu).

Também tenho dúvidas em relação a outros artistas. O gênio de Pedro Nava brotou aos 70 anos, Evaldo Cabral de Mello e José Murilo de Carvalho continuaram produtivos e criativos após os 60 anos, o próprio Villa-Lobos produziu copiosamente até perto da sua morte, Cartola compôs “As Rosas Não Falam” com mais de 70, além de Lúcio Costa e Niemayer na arquitetura.

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Do leitor Luiz Eduardo, no comentário que postou:

Nassif,

permita-me o “vale tudo” que é arte, para desabonar a tese do Piza (estendeu-a a todas?). Nosso grande gravador, Marcelo Grassman, está com 81 anos e fez uma exposição deslumbrante este ano. Renina Katz tem a mesma idade, está a todo vapor. Maria Bonomi, 70, então nem falar: viu o mega painel da estação da Luz? No Rio, Eduardo Sued, mais de 80, de vento em popa, renovando sua pintura e fazendo quadros deslumbrantes de mais de 20m2 (não imagina a energia que isso requer). Ana Letycia anda a mil, também inovando. Se precisar de mais exemplos, mando. Acho que não é preciso falar do Gilberto Mendes, um dos nossos maiores compositores eruditos vivos, não?

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