O Vale dos Tambores

Enviado por Celeste Silveira.

Ola Nassif

Antes de qualquer coisa, gostaríamos, eu, Carlos Henrique e os músicos que participam do projeto, de agradecer o carinho de suas palavras com o trabalho. Tomamos um susto, pois várias pessoas nos enviaram e-mails dizendo que você havia postado uma matéria sobre o Vale dos Tambores. Corremos imediatamente para ver. Lemos e constatamos, pelo que falou, que você não recebeu o livro que compõe o trabalho. Este livro narra, através de textos e fotos, a importância que a bacia do rio Paraíba teve na construção da música brasileira, principalmente, do samba e do choro. A influência que a música rural teve ao que se concebeu mais tarde como música urbana. O que queríamos mostrar na realidade é que a matriz do choro provém da cultura rural.

Vamos enviar-lhe o livro. Ali dentro existem fatos interessantes que pesquisamos do ciclo do café, pré Antônio Callado. Fugindo do bairrismo, o trabalho trata da música da bacia que abrange as regiões mineira, paulista e fluminense, de onde saíram tantos ícones, Patápio, Altamiro, Rosinha, Dilermando, Clementina, Bonfíglio, Tânia Maria, Ari Barroso, Baden, Mano Elói, Natal da Portela e muito mais gente. Foi isso que motivou este trabalho. Na verdade, o que queríamos mostrar é que o choro vinha sendo construído no país inteiro, em várias regiões e o Vale, como foi o último reduto econômico no período pré-republicano, guardava a soma de várias culturas que iam migrando a cada ciclo, o da cana-de-açúcar, o do ouro e depois, o do café. Enquanto isso amplia-se aqui essa mistura, dos bantos recém-chegados da África com outros escravos já brasileiros vindos do nordeste e ciclo do ouro, caboclos e portugueses, formando o último reduto antes da grande migração para as capitais, principalmente, o Rio de Janeiro.

A pesquisa é interessante, pois mostra que o choro foi se desenvolvendo de várias formas recebendo influências, de todas as raças, da música de terreiro até a música técnica ensinada aos escravos por maestros europeus.

O comentário que você fez sobre a catira, é uma percepção interessante porque bate exatamente naquilo que trabalhamos. Partimos do ponto que o violão de Dilermando, que é de Guaratinguetá, guardava muito da viola caipira, muito da catira, pois ele mesmo gravou Cateretê Mineiro. Queríamos saber o porquê. O interessante disso tudo é que a geografia cultural tem caminhos próprios. Fomos observar que em Paraty, os cirandeiros, ciranda portuguesa, guardam muito da música ibérica. O pandeiro ainda é tocado como um adufe mouro, friccionado e não batido. O legal de tudo isso é que há uma ligação fortíssima dos catireiros com a música que é tocada na festa do Divino. E o mais interessante ainda é o trânsito que liga Paraty, Cunha a Guaratingueta, terra de Dilermando. E Nazareth, quando, por exemplo, compõe Brejeiro e Matuto, vai buscar, não só o nome acaboclado, mas a estrutura melódica e os timbres da viola. Por isso, casou tão bem o bandolim do Jacob e o Época de Ouro na execução do Brejeiro. Parece que ali há uma remontagem refinada da aura das violas.

Foi muito fazer este trabalho. Vimos o quanto o choro é determinante para a música brasileira.
Estaremos lhe enviando o livro hoje. Tem fotos lindas disso tudo.

Obrigada.

Um grande abraço.
Celeste Silveira.

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