O “Vale dos Tambores”, pelo autor

Enviado por: Carlos Henrique Mach

Nassif

Recebi ontem a crônica Cantigas de Roda – Menininhas do Meu coração. Não poderia deixar de comentar, o que, na realidade, moveu todo o trabalho Vale dos Tambores.

É exatamente nessa sua brilhante síntese que você narra de forma tão singela nesta crônica, que todo o nosso trabalho foi calcado. Não entendia porque o choro mexia tanto comigo, por que mudava completamente o meu estado de espírito? O que tinha nessa música que me causava tanto bem-estar? Passei a fazer um retrospecto para chegar no ponto inicial. Rapidamente me recordei da primeira vez que ouvi aquela beleza do “Choros Imortais” com Altamiro Carrilho. Duas músicas me encantaram mais que as outras, Naquele Tempo, de Pixinguinha e Doce de Côco de Jacob. Me recordei do ambiente onde eu estava, conseguia ver tudo com muita nitidez, mas a pergunta continuou… por que, então, eu gostava tanto desses choros que eu nem sabia que eram choros? O que habitava neles que me encantava tanto? Sua estrutura melódica? Claro, mas por quê? Ela e tantas outras como Pedacinho do Céu, Sons de Carrilhões, Gente Humilde, Luar do Sertão, Lamentos, Cinco Companheiros, Chorei e mais uma infinidade de músicas que carregam essa aura. É só isso?

Perguntava pra mim mesmo, e, aos poucos, as coisas iam se descortinando.

A música “Catira” que você destacou no trabalho, tive uma certa dificuldade para explicar para as pessoas, por isso, me espantei como de imediato você decifrou o que existia ali.

Estava ainda no começo do trabalho, chamei a Aressa, a nossa menininha, e disse a ela… olha só o som da viola! Que tinha achado sem querer no bandolim. Brinquei com aqueles primeiros acordes que dão início à música. Rimos muito e fiquei eu brincando com aquele som gostoso, ela foi tomando uma fluência própria. Continuei a brincadeira sem a menor pretensão e todos os dias quando sentava para tocar e compor as outras músicas do CD, a Catira vinha aos meus dedos e sem querer ela ia caminhando sozinha a seu gosto. Foi andando, mesmo tendo a certeza absoluta de que ela não iria fazer parte do CD, brincava com ela diariamente e não terminava, ia se enfiando por dentro do bandolim a seu modo, até que fiz a pergunta… quando é que isso vai acabar? Pois ela continuou e só terminou quando quis. Tive então, a ilusão de que quem me impulsionou a fazer uma música daquele tamanho que vai passando por tantos caminhos, foi o meu subconsciente “consciente”.

Todas as entrevistas que eu dava sobre o trabalho, apresentava a Catira como a música tese e explicava o que eu acreditava ser manipulado pelo meu subconsciente consciente e justificava. O tempo foi passando, até que um dia, há pouco mais de três meses, com a morte do meu tio Marino, é que pude entender tudo. Fui sozinho prestar a ele a minha última homenagem, já não havia mais ninguém lá. O estranho é que eu não sentia tristeza alguma. Voltei ao volante do carro e vim lembrando do meu tio alegre, do casarão antigo onde moravam meus avós em Getulândia. Meus primos, tios, pai e mãe, todos reunidos na cozinha e meu tio Marino iniciava um sapateado e estalava os dedos, meu pai se munia de uma caixa de fósforos onde batia na mesa e na mão, uma forma de bater caixa de fósforos que eu nunca vi ninguém bater. Lá iam os dois brincando para alegrar a molecada. Quando de repente me deu um estalo, aquilo que o meu tio dançava e o meu pai tocava, era catira. Aqueles pés batidos no chão e o estalar dos dedos era catira purinha e como é que não tinha percebido isso antes? E aí percebi nitidamente que aquela composição nada mais era que a remontagem de um quadro com uma força emocional que eu não tinha idéia.

Acabava a farra da catira no casarão, vinham as histórias de assombração típicas da roça e logo o medo batia em toda a meninada. Naquele casarão imenso com muitos quartos e sem luz, minha mãe reunia os filhos e ia cantando as suas cantigas, entre tantas, Lua Branca e Malandrinha.

Aos meus quinze anos, quando estive pela primeira vez com um cavaquinho nas mãos, imediatamente tentei imitar o solo suave de Mané do Cavaco na gravação com Martinho da Vila, sem associar que aquela música era a da cantiga que minha mãe cantava, Malandrinha. Quanto ao Mané, todas as vezes que vou solar uma valsa, é naquele timbre, naquela suavidade que vou buscar a minha interpretação, a interpretação de Mané do Cavaco, num pequenino trecho da Malandrinha.

Tico Tico no Fubá, como você bem falou, uma das músicas do século, com aquela sapequice, não consegue disfarçar, quando tocada lentamente, guarda a mesma aura melódica das cantigas que nossas mães cantavam pra gente. E Altamiro Carrilho? Bom, quando estive em seu programa, Altamiro fez revelações fantásticas. Ele, que é de Santo Antônio de Pádua, RJ, após terminar a música “Do Barro à Madeira” onde eu introduzi uma oração de Luizinho, mestre de Folia de Reis, Altamiro inicia um canto e diz pra Marina, filha dele, disso você não sabia… quando eu era garoto fazia parte dos cortejos de Folia de Reis. Mais à frente, ouvindo a música também do CD, “Viva São Benedito”, Altamiro disse… sou devoto dele desde garotinho e pra terminar, depois de ouvirmos “Baile de Cabana”, música que compus em sua homenagem, baseada nos bailes de calango, Altamiro deu uma grande gargalhada e disse… é verdade Carlos Henrique, no fundo, Nazareth era um grande calagueiro.

Essa sua brilhante conclusão de que é neste fio invisível que habita toda a nossa identidade, a identidade da família brasileira é, sem dúvida, a mensagem que o Vale dos Tambores quis passar.

Quanto à nossa “menininha”, a Aressa, se formou em História da Arte na UERJ e, mesmo depois de quatro anos ouvindo predominantemente a história das artes europeías, sua monografia de conclusão, foi “O Misticismo do Palhaço de Folia de Reis: Encanto, Origem e Tradição”, ou seja, Nassif, você tem toda razão, as cantigas das famílias brasileiras vão continuar por muitas e muitas gerações.

Parabéns e obrigado mais uma vez.

Um grande abraço.

Comentário

Você me mata, Carlos. Assistia catira em São Sebastião da Grama, terra da minha mãe. “Malandrinha” era uma de suas canções favoritas. Quando moleque, participava dos ensaios dos Congos de São Benedito. Cheguei até a compor congadas. A única diferença entre nós é o tamanho imenso do seu talento, e a qualidade da sua pesquisa.

Alguém comentou no Blog que você é um dos maiores compositores contemporâneos. Tenha certeza que é. Obrigado por essa obra maravilhoa.

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