Quando a música instrumental é mais bela, por Aquiles Rique Reis

A coluna de hoje apresenta o trompetista Guilherme Dias Gomes e seu último lançamento instrumental, Trips

Capa do CD de Guilherme Dias Gomes
Quando a música instrumental é mais bela
por *Aquiles Rique Reis

O trompetista Guilherme Dias Gomes lançou um ótimo disco instrumental, Trips (Tratore). Viagens que, seja lá como for, marcaram o músico de alguma forma. Assim, todos os temas remetem a lugares ou sensações que trouxeram alguma fonte de inspiração para o músico. E ele não negou inspiração, conduzindo-a com sabedoria entre harmonias, melodias e ritmos.

Aqui, Guilherme lidera um sexteto que, além dele próprio, conta com Idriss Boudrioua (saxes tenor e alto), David Feldman (piano), André Vasconcelos (contrabaixo), Rafael Barata (batera) e Firmino (percussão). Todas as oito composições gravadas são de sua autoria, bem como os arranjos.

E não deu outra, o sétimo álbum de Guilherme, muito bem gravado e mixado no Rio de Janeiro por Guido Pera, masterizado em Nova Iorque por Fred Kevorkian e com produção musical de David Feldman, é supimpa.

(Para gravar com tal excelência, alguns instrumentistas têm de fazer como o jogador de futebol que bate o escanteio e corre pra cabecear, que ao final do jogo recolhe as camisas do time e as leva pra lavar, e que dá tratos à bola para traçar o plano de treinos da semana… Dureza!)

A tampa abre com “Amstel Bossa Nova”. A intro tem um tema tocado pelo duo de trompete e sax tenor. Logo o trompete assume o solo. O tema, ainda mais suingado, volta reforçado pelo piano e sustentado pelo contrabaixo, enquanto trompete e sax seguem cativando. Logo o protagonismo volta para o trompete. Não tarda e o sax volta ao duo com ele. A seguir, o sax improvisa, tendo ainda um ótimo apoio de contrabaixo e piano. O piano sola, enquanto batera e percussão seguram as pontas. Volta o tema inicial, com trompete e sax. Logo o trompete volta a protagonizar, enquanto leva ao final. Coisa fina!

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Outra ótima composição de Guilherme Dias Gomes é “Maracatu Lacraia”. A batera e a percussão levam a levada do maracatu no braço. O trompete sola, enquanto o sax tenor contraponteia. Piano e contrabaixo sustentam a pegada. O improviso volta ao trompete, enquanto batera, percussão e contrabaixo buscam o melhor jeito para alimentar o improviso. Logo o duo volta a brilhar, enquanto o final se achega. Meu Deus!

“Clair” é um tema composto por Guilherme em homenagem a Janete Clair, sua mãe. O tema traz a sensibilidade à flor da pele. Piano, contrabaixo e batera iniciam o tema. O trompete surge soprando imagens sonoras. Logo o sax alto assume o solo e o trompete responde. O piano, amparado pela batera e pelo contrabaixo, brilha. Logo o trompete chama para si o sagrado direito de ter saudade… Belo!

Trips é uma velha e boa jam session de samba jazz. Os seis instrumentistas se deliciam tocando músicas criadas por alguém que é como eles. Alguém em quem confiam, alguém de quem interpretarão arranjos cuja qualidade é, para eles, incontestável. E quando a música instrumental atinge esse grau de cumplicidade, o encanto salta aos ouvidos de quem a ouve.

E é quando a música instrumental fica mais bela.

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*Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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