“Resposta ao Tempo” – Aldir Blanc, Cristovão Bastos e Nana Caymmi, por Laura Macedo

“Resposta ao Tempo” – Aldir Blanc, Cristovão Bastos e Nana Caymmi

por Laura Macedo

Como o resto do mundo, o Brasil não ficou imune à invasão do bolero, que nasceu em Cuba, no início do século XX, e, a partir dos anos 1940, se espalhou pela América Latina, tendo grande influência no samba-canção, até o surgimento da Bossa Nova, quando começou a perder espaço como ‘cafona’.

João Bosco / Aldir Blanc / Nana Cymmi

Mas o ‘dois pra lá, dois pra cá’ de João Bosco e Aldir Blanc sempre tem vez na MPB, como ‘Resposta ao Tempo’, lançado em 1998 por Nana Caymmi no álbum do mesmo nome, que virou um fenômeno de execução nas rádios brasileiras.

 

Escolhida para ser o tema de abertura da minissérie ‘Hilda Furacão’, a gravação também se transformou no maior sucesso popular de Nana, uma diva até então restrita a um público mais sofisticado.

 

Aldir Blanc e Cristovão Bastos

Aldir Blanc já tivera algumas boas experiências com o gênero em suas parcerias com João Bosco, geralmente exercendo o seu habitual humor, mas no bolero com o pianista e arranjador carioca Cristovão Bastos [1947] preferiu explorar um lirismo profundo em forma de um diálogo com o tempo.

Resposta ao Tempo” (Aldir Blanc/Cristovão Bastos) # Nana Caymmi.

Resposta ao Tempo

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito, calado
Ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar

E eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que eu perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
E eu desperto
E o tempo se rói com inveja
De mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

Roberto Drummond e Aldir Blanc

A música, a letra e a interpretação apaixonada de Nana fizeram de ‘Resposta ao tempo’ a canção ideal para a minissérie baseada no romance do escritor mineiro Roberto Drummond. A letra de Aldir não faz menção alguma ao enredo ou a personagem – a história de uma jovem da sociedade que troca um casamento seguro pela prostituição na Belo Horizonte dos anos 1950 -, mas, em suas reflexões sobre o tempo e a existência, são muitos os pontos de contato com a história.

 

Cristovão Bastos / Chico Buarque / Paulo César Pinheiro / Paulinho da Viola / Abel Silva / Elton Medeiros

Essas impressões e sensações são reforçadas pela melodia e pelo belíssimo arranjo de Cristovão Bastos, que, como compositor, tem parcerias também com Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Abel Silva e Elton Medeiros.

Lançado com a insuperável gravação de Nana ‘Resposta ao tempo’ virou um clássico que não parou de atrair outras grandes vozes, como Milton Nascimento, Leila Pinheiro, Simone e Fafá de Belém.

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Fontes:

– 101 canções que tocaram do Brasil / Nelson Motta: Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2016 [Texto de Nelson Motta].

– Fotomontagem: Laura Macedo.

– Site YouTube / Canal: “linhasalltorelli”.

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Laura Macedo

10 Comentários

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  1. Ah! Nana…………..

    Minha querida Laura trouxe hoje uma das nossas maravilhosas intérpretes. Ha alguns dias numa festa de aniversario ouço na vitrola a voz para mim inconfundivel da Divina Elizeth cantando e chega Alzirinha, mulher de um compositor francês (ele traduziu partes de Guimarães Rosa para a musica francesa), e pergunta quem esta cantando naquele tom de “de quem é essa voz”. Que vozes são essas… que encantam tantas gerações ! Lembro que apesar de bem pequena de ver pela primeira vez minha mãe triste dizendo para mim quase num susurro, como se naquele momento eu soubesse de quem se tratava, pois todos sabiam, “Elis morreu…” Essa mulheres que cantaram todas as dores e alegrias deste mundo  Os boleros e as valsas da vida. Um viva a todas elas, de todas as épocas, de todos os continentes!

    1. Nana Caymmi é insuperável!

      Querida amiga Maria Luisa,

      Ganhei de presente do meu irmão Ademir o livro: “101 Canções que tocaram o Brasil”, do Nelson Motta. Foi desse livro que tirei a ideia de socializar o texto do autor.

      “Resposta ao Tempo” é uma composição que me fisgou desde a primeira vez que ouvir! Até hoje ela me emociona MUITO! Letra e música de arrepiar….

      Deixo para você: “Não se esqueça de mim” (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) # Nana Caymmi.

      Beijos Saudosos!!

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=2Bnv7Q8gpOg%5D

       

  2. *

    Queria dizer que esta musica é reflexiva, e que nos leva a meditar sem direção, mas que na verdade eu fico mesmo é prostrado, inerte, imovel, imobilizado de tanta beleza. A voz de Nana Caymmi, e somente a voz, sem querer politizar muito o post, vai no mesmo binario, como diria o italiano. Um post  oportuno para o momento atual. Felicidades, Laura.

    O vídeo abaixo, com o autor.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=OeixgQlLeBI align:center]

     

     

    1. Aldir Blanc e Cristovão Bastos!

      alfeu,

      “Resposta ao Tempo” é de arrepiar!! Não acredito que uma pessoa ouça a referida composição sem ser tocada de alguma forma… Não sei explicar; o que sei é que ela me toca no fundo da nossa alma…

      Deixo para o amigo:

      “Eu não existe sem você” (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) # Nana Caymmi.

      Grande abraço!

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=RKLp_SPmU24%5D

       

  3. Quando você me disse que o

    Quando você me disse que o post trazia uma única canção, protestei. Como assim, se o bacana de seus posts é justamente a diversidade de canções?! Agora entendi. E o motivo foi desde logo captado pela Anna: “Essa canção é tão única…”. Que coisa bonita, ainda mais na voz única da Nana!  

    Como qualificar Aldir Blanc? Genial? É por aí. Poesia-crônica, impagável. “Vida Noturna”, “Dry”, “Dois bombons e uma rosa” (essa, então, demais). Aldir Blanc merece todos os aplausos.

    Beijos bolerísticos.

     

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