Segovia, o gênio que tinha inveja, por Luis Nassif

E, de certo modo, ambos foram fundamentais para a carreira do outro, Segovia divulgando Villa, a obra de Villa; a obra de Villa abrindo um novo espaço imenso para as interpretações de Segovia.

Alguém me disse que o pior tipo de inveja é a intelectual, a inveja do talento alheio. É sentimento que não poupa nenhuma classe social, e atravessa dos desprovidos de talento ao talentosos. Ao longo da minha carreira profissional conheci bilionários invejosos do talento que o dinheiro não compra; e talentosos invejosos dos bens que o talento não compra.

Um dos casos clássicos de inveja de talento vem de um personagem absolutamente improvável, Andrés Segovia, considerado por muitos o maior violonista da história, o instrumentista que trouxe os clássicos de outros instrumentos para o violão e transformou o violão em instrumento de concerto.

Contam os velhos chorões do Rio de Janeiro que a primeira manifestação de inveja de Segovia foi em relação a Agustin Barrios, o violonista paraguaio, filósofo, que adotou o nome índio de Mangoré e influenciou o violão latino-americano. Começou pelo Brasil, nos anos 20, bebeu do choro e influenciou o choro. Depois foi para a Venezuela, onde influenciou outro grande compositor, Antonio Lauro. Continuou subindo o continente, foi parar na América Central, onde faleceu.

Segundo me contava o grande Rafael Rabello, Barrios tentou carreira na Europa, mas foi impedido por Segovia, que já era a grande referência de opinião na área do violão, Provavelmente invocou o lado folclórico de Barrios – que se apresentava vestido de índio – para desacreditá-lo,.

Outros alvo da sua inveja foi, paradoxalmente, Villa Lobos. Digo paradoxalmente porque, com suas composições, Villa revolucionou a interpretação de violão no século. E seu grande intérprete foi justamente Segovia.

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Mas o gênio de Villa incomodava o espanhol desde o primeiro encontro entre ambos, em um evento social em Paris. Lá, o jovem e estouvado Villa pediu o violão emprestado e tocou para Segovia, que ouviu contrafeito com a falta de modos do selvagem brasileiro.

O encontro foi reconstituído por Paulo Renato Guérios em um estudo sobre o início de Villas em Paris.

Ele chegou a Paris em julho de 1923, ainda desconhecido dos círculos artísticos. Seu primeiro grande concerto no Brasil foi cinco anos antes. E sua ida a Paris foi no rastro de um grupo de escritores e pintores modernistas braseiros, que ele conheceu na Semana de Arte Moderna de 1922.

Logo após sua chegada, Villa foi convidado para um almoço no estúdio da pintora Tarsila do Amaral, presentes os brasileiros Sérgio Milliet, o pianista João de Souza Lima, o escritor Oswald de Andrade e, entre os parisienses, o poeta Blaise Cendrars, o músico Erik Satie e o poeta e pintor Jean Cocteau – que tratou de desqualificar os improvisos de Villa no evento.

Anos atrás, descobriram correspondência de Segovia com um missivista latino-americano no qual mencionava Villa de modo depreciativo, criticando os problemas formais de sua obra e os ritmos selvagens – usando o adjetivo de modo depreciativo.

E, de certo modo, ambos foram fundamentais para a carreira do outro, Segovia divulgando Villa, a obra de Villa; a obra de Villa abrindo um novo espaço imenso para as interpretações de Segovia.

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6 comentários

  1. Os dois foram gênios absolutos, cada um no seu campo de atuação. Porém, Segovia era um porre de mau humor e arrogância.

    Comentários dos violonistas no ótimo Violão.Org – https://violao.org/topic/7578-segovia-e-villa-lobos/

    (Fábio Zanon) Segovia tocou os estudos 1, 7 e 8 a partir de 1947, e depois os prelúdios 1 e 3. Nos anos 20 ele incluiu o Choros no 1 em alguns programas, mas não manteve. Ele não tinha gosto nem simpatia pela música de Villa-Lobos. Tocou só o que cabia na sua preferência estética e ignorou o resto. O Turíbio conta que tocou o Estudo no 11 para o Segovia e o velho não demonstrou muito interesse.

    Parece que quando o Villa conheceu Segovia, perguntaram pro Segovia o que ele achava das músicas de Villa, e ele criticou muito, disse que não gostava, e que tinha uma valsa dele que usa até o dedo mínimo pra tocar (não conheço, corrijam-me se estiver errado). Nisso levanta-se Villa, que não havia até então sido apresentado, e disse “Se você não quer usar seu dedo mínimo corte-o fora, eu vou continuar usando o meu” ou algo parecido, e voltou p. da vida para o hotel. Mais tarde Segovia foi ao hotel de Villa para se desculpar e foi até esnobado por Villa; Segovia queria tocar com ele, mas Villa disse que ia sair para jantar com a esposa e que ele voltasse no outro dia. No outro dia ele voltou lá, eles conversaram…

    Parece que depois dessa história do Villa ter “esnobado” Segovia, ele voltou no dia seguinte conversou com o Villa e encomendou os estudos. Parece que Villa reclamava que não teria recebido 1 centavo pelas obras.

    (Fábio Zanon) Ele gravou os que ele tocava. Os outros (estudos), não teve interesse em tocar, simples assim. O Turíbio (Santos) contou que tocou o (Estudo) no.11 pra ele e ele nem quis ouvir. “Não é porque alguém me dedica uma música que não gosto que vou me sentir na obrigação de tocar”

    Em carta datada no dia 20 de Setembro de 1948 em Genebra-Suíça, Segovia escreveu:
    “Prezado Heitor: por intermédio de nossa querida Olga (Praguer Coelho?) recebi os estudos que você mandou, que se somam aos outros que eu já tinha, você me enviou do Rio a Montevidéu o nº 1 – 5 – 8 e 9.
    Eu toquei no mundo todo, o 8 e o 1 juntos, estou preparando o nº 5, e, entretanto, me dedicarei com vivo prazer, a trabalhar o 2 – 3 – 10 e 11. Eles são muito belos como música e muito interessantes do ponto de vista instrumental.
    Olga me transmitiu teu desejo de saber quais são a meu ver os estudos mais violonísticos, a fim de empregar fórmulas técnicas semelhantes no concerto que tens a intenção de escrever para violão e orquestra. Os estudos que melhor se adaptam ao violão são, sobretudo o nº 1.
    Essa fórmula de arpejo tem sido um achado feliz, embora simples, as harmonias pelas quais transita, são formosas e expressivas. Depois dele o nº 9 é igualmente belo em música e em técnica. Pode-se dizer que amo ambos pela espontaneidade e sua fineza melódica e harmônica.
    Os primeiros que começarei a trabalhar serão os nº 11 e 10.”

  2. Ouvi dizer que certa feita o Segovia reclamou surpreso por uma composição do Vila Lobos exigir o uso do dedo mínimo da mão direita (“não se usa”, de acordo com a técnica convencional). Pra completar, ele ouviu em resposta (daquele jeito famoso do “Vila”): “então, corta o dedo fora!”

  3. Os proprietários de caminhões que resumem perfeitamente o que é a inveja, escrevendo uma frase simples no para-choque:
    “A inveja é uma merda”

    • Falar em inveja e motoristas, adorei um adesivo colado no vidro traseiro de uma verdadeira e mal cuidada furreca, caindo aos pedaços: NÃO ME INVEJE. TRABALHE!!!

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