Um CD irresistível, por Aquiles Rique Reis

Um CD irresistível

por Aquiles Rique Reis

Quebranto (Biscoito Fino) reúne dois dos nossos melhores violonistas. Sem dúvida esse CD do gaúcho Yamandu Costa e do paulista Alessandro Penezzi estará presente nas listas de melhores CDs instrumentais do ano.

A magia contida no título do álbum (na cultura cigana, quebranto é um feitiço usado para seduzir) se espraia pelas treze composições do CD: cinco da dupla, três de Penezzi, três de Yamandu, uma de autoria de Sérgio Belluco – valsa escolhida por Penezzi para homenagear o autor – e outra de Yamandu em parceria com seu professor Lucio Yanel.

A audição do CD é uma jornada extremamente prazerosa. Consagradas em pleno ato de se mostrarem raras, as músicas que interpretam têm incomparáveis nuances. E assim eles se esbaldam.

Para os violões restarem plenos de suingue e beleza, só mesmo esmerando-se em horas de ensaios, buscando unir suas qualidades individuais até chegarem à sonoridade que lhes agradasse. Demonstrando terem suado as camisas para tocar tão bem juntos quanto tocam individualmente, os arranjos comprovam o quanto eles trabalharam para não apenas gravar um bonito disco de dois grandes violonistas, mas registrar um duo próximo da perfeição.

Coisa de gênios – joalheiros polindo preciosidades; pedreiros transformando pedras em castelos, marceneiros convertendo tábuas secas em madeiras de lei.

“Capitão do Mato” (Yamandu Costa e Alessandro Penezzi), que, segundo Penezzi, Yamandu diria ser uma “baionga” (mistura de baião com milonga), abre o álbum. O violão de Penezzi arpeja, enquanto o de Yamandu sola a melodia. Música vigorosa, tanto por sua pegada rítmica quanto pela melodia e harmonia, que começa em tom menor. Quando o tema passa a ser em tom maior, acentua-se o poder envolvente dos violões em duo. Intervenções com desenhos que, sobrepostos, preenchem de formosura os ouvidos de quem os escuta.

A seguir dois choros. O primeiro, “Chico Balanceado” (Penezzi e Yamandu), com três partes, tradição do gênero. O início está a cargo do violão de Yamandu e as repetições com o violão de Penezzi. Na terceira parte os dois improvisam. Quanta inspiração, quanto virtuosismo… caramba!

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No segundo, “É Chorando Que Se Aprende” (Alessandro Penezzi), talvez a mais bela faixa dentre todas presentes no disco, cabe a Penezzi solar a melodia. Yamandu o acompanha com seu violão numa afinação diferente da usual. Nessa faixa, ao contrario de outras, os dois não improvisam – mas não se sente falta desse recurso.

Outro momento admirável é “Bolero Negro” (Yamandu Costa). O solo de todo o tema está nas mãos mágicas de Yamandu. Melodia linda. Penezzi o acompanha. Interpretação tão robusta quanto delicada. E assim Quebranto se aproxima do final.

Completamente seduzido, me vem à cachola agradecer à enorme riqueza musical que eles nos trazem. Ouvi-los é fundamental.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

PS. Dica do Penezzi: nos aparelhos estéreo, o violão de Yamandu está à esquerda e o dele à direita.

PS. Lá se foi outro bamba. Descanse em paz Jorginho do Pandeiro.

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