Um CD universalmente rico, por Aquiles Rique Reis

Um CD universalmente rico, por Aquiles Rique Reis

O compositor e cantor Fred Martins mudou-se para a região espanhola da Galícia. Passados cinco anos da migração, mesclando sentimentos e musicalidades, ele lança Para Além do Muro do Meu Quintal (Sete Sóis). Gravado em Portugal, com produção musical do pianista e arranjador açoriano Paulo Borges, o CD reúne músicas que tatuaram sua obra.

Das onze faixas, cinco são de Fred com Marcelo Diniz e cada uma das outras tem parceiros diferentes: Roberto Bozzetti, Alexandre Lemos, Alberto Caieiro, Fred Girauta, Manoel Gomes e Francisco Bosco. Todos letristas, cujos versos arrematam as melodias, harmonias e levadas virtuosas de Fred Martins.

Chama atenção “Terras do Sem-Fim”, dele e de Roberto Buzzetti, poeta que se inspirou em “Cobra Norato”, poema modernista de Raul Bopp. Outro destaque é “Noite de São João”, poema de Alberto Caieiro – um dos heterônimos de Fernando Pessoa –, musicado por Fred, cujo segundo verso titula o disco. Esses dois poemas, cada um à sua maneira, refletem o cerne de Fred Martins.

Como um Cobra Norato, a solidão, talvez mesmo num sub-reptício sentimento de desamparo em terra estrangeira, lhe dói n’alma. E, como Fernando Pessoa, tem a saudade de um São João distante, a sensação de não ser parte, e, portanto, de inexistir. Se por um lado Fred Martins se mantém um compositor criativo, sem preconceitos harmônicos nem melódicos, além de um cantor cuja voz é completada quando passeia pelas notas médias da escala, por outro um quê de nostalgia paira no ar – essência de seu novo disco.

“Terras do Sem-Fim” inicia o CD, com o canto e o violão de Fred. Ouve-se a voz de Renato Braz. Flautas e percussões comboiam o canto. As percussões de Marcio Bahia e Paulo Borges o valorizam. O violoncelo (Sergio Menem), instrumento presente em quase todas as faixas, encorpa o suingue da levada. Fred e Renato cantam em duo… Meu Deus!

“Noite de São João” tem introdução suave e triste tocada por um acordeom diatônico (Pedro Pascual). Chega o violão de Fred e com ele o canto. O acordeom segue. Volta o cello, sempre ele, a suprir compassos com graves certeiros – logo o solo é dele. O canto volta e juntos finalizam. Bonito!

Apenas com voz e violão, Fred arrasa cantando “Meu Silêncio”, dele e de Fred Girauta. Linda canção, cuja letra expressa a dor de uma ausência.

A bossa nova “O Samba Me Diz” (Fred e Marcelo Diniz) tem participação da cantora cabo-verdiana Nancy Vieira. Afinada, ela inicia o canto. Fred vai com ela (só que o tom está grave para ele…).

“Tempo Afora” (FM e Marcelo Diniz), uma das primeiras composições de Fred, se destaca pela introdução de cello e violão. Logo vem a levada, sua marca registrada.

 “Depressa a Vida Passa” (FM e Marcelo Diniz), canção afetuosa, que tem nas flautas (Marcelo Martins), teclados (Paulo Borges) e violões (FM) o seu abrigo, fecha o álbum. Seus versos pedem reflexão: (…) A cada ruga tudo é mais ausente/ O tempo foge e sempre leva a gente (…).

Enfim, um lindo disco.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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