Um dia em que (quase) enganei o João

Do Blog de Alberto Manuel Ruschell Filho no Portal Luís Nassif

A pedido do Fernando Faro, e o aceite final do João Gilberto (amigo de juventude de meu pai), eu estava dirigindo um “Especial” do João na Bandeirantes.

Por escolha dele, fomos gravar na Catedral da Sé.

– A acústica, Beto! Vai ficar lindo!

Marcamos a gravação na madrugada de uma quarta-feira quieta. Fomos em poucos técnicos, todos escolhidos a dedo.

E naquele ambiente sacral escolhi o lugar pro João sentar-se no imenso altar.

Mais aqui, mais ali, no silêncio da madrugada paulista, arruma luz, troca microfone, localiza as cameras, escolhe repertório, pede silêncio, o João com seu violão começou “Ave Maria no Morro”. Não seria preciso microfone, tanto era o silêncio que fazíamos na Catedral, Lá fora, os carros pareciam passar em marcha lenta respeitando o momento de música que iria rolar.

O João atacou, naquele que tom que parece que sempre está baixo demais.

Fez uma, duas versões, e a fita continuava rolando direto.

– Acho que fica melhor, Beto. Que tu achas?

– Faz mais uma João… – eu mentia, certo de que não ficaria melhor.

Mas o João, é o João…

Ficavam diferentes, sim. Uma por uma delas, era um “original” mais rica de detalhes.

Ora o João dividia as frases da letra de um jeito, ora de outro. Atrasava a divisão, adiantava.

Ora, nas notas mais baixas sua voz ficava mais rascante, ora bem mais limpa. Pra mim, ficou claro que o João estava curtindo, brincando com a acústica da Catedral e as possibilidades sonoras do lugar.

Feito criança com brinquedo novo, ele fez mais de dez versões diferentes. Aos ouvidos sonolentos dos técnicos que lá estavam, apesar de diferentes entre si, eram todas iguais. O sono vencera a turma que chegara cedo pra trabalhar e não ganhava hora extra.

Na décima-quarta versão (e é verdade, era a décima quarta mesmo!) o João deu-se por satisfeito. Sei bem, porque na décima terceira, havia ocorrido um acidente.

O técnico de gravação, com sono, de repente, havia cambaleado em cima do gravador. Ao fechar-se, a tampa de plástico da máquina explodira num estrondo amplificado pela acústica da Igreja.

De repente, a “explosão” acordara todos os Santos da Nave Principal.

Meu coração saiu pela boca. Lá fora, os mendigos que dormiam na escadaria da Catedral da Sé sentaram-se esfregando os olhos.

O João esperou o eco. Experimentou, considerou, olhou pro técnico e começou mais uma vez.

Cinco minutos depois, depois de fazer mais uma “por garantia”, o João deu-se por satisfeito.

– Acho que é essa, Betinho! Gostou?

Era aquela mesmo.

Encerramos a noite de trabalho.

Com o dia clareando, fomos comer um sanduíche de peito de peru na Av. São Luís.

Uns vinte dias depois, durante a edição do programa, chegou a hora da “Ave Maria no Morro”.

Eu havia anotado na ficha de gravação : esta que o João quer!!

Pra mim, todas eram lindas, todas um original, mas o João queria aquela.

Tenho quase certeza que o operador e auxiliar de edição era o Dorival Roque (um craque, especial, musical e de extremo bom gosto, hoje no Globo Rural).

Sei que, na hora de procurar a décima-quarta na fita, a castanha que prende o rolo à maquina de edição de 3/4 de polegada, escapou da máquina em velocidade super-sônica e saiu voando pelo corredor… Claro, que das 15 versões disponíveis, a “escolhida” amassou completamente!

Pelas dez manhã, já surdos de tanta “Ave Maria” no ouvido, fomos pra casa. Eu escolhera a mais semelhante à versão amassada.

Por estes caprichos da vida, o João me ligou e pediu pra ver o programa antes de ir ao ar na semana seguinte “vou estar em São Paulo na quinta…”

Na cabine apertada, sentados num banquinho, ficamos assistindo ao programa pronto. E quanto mais perto do “problema” mais nos olhávamos, o Dorival e eu.

O João estava gostando. De certa forma eu achava que, satisfeito, não reconheceria a substituição forçada.

Chegou a hora. Entrou a seqüência da Catedral.

Cinco compassos depois o João olhou pra mim. Pediu pra voltar a fita. Ouviu.

– Betinho, acho que não era essa…

Eu queria me esconder atrás da porta.

– Ouve outra vez, João, é essa sim…

Repetimos.

– É essa não! …mas, também é boa… tu que escolheu, né?

Sorri sem jeito. O Dorival tossiu, e disse.

– Po, João, o Beto também toca violão, né…ele gostou dessa.

Ele pensou um pouco. Um mês depois de gravar 15 versões de uma canção, o João Gilberto havia reconhecido a que escolhera num madrugada quieta e cansativa em São Paulo.

– Ah! Pode ser. É eu tava ouvindo mais a voz… melhor deixar essa mesmo!! – sorriu.

Acabou de ver o programa.

Gostou, ficou feliz, saímos prum café.

(este é só o primeiro capitulo desta historinha dele…) 

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