Villa-Lobos e a alma brasileira

Publicada originalmente em 26/08/2001

Villa Lobos morreu em 17 de novembro de 1959. Com nove anos, acompanhei de longe a comoção nacional. Não cheguei a apreciá-lo em vida, ou achava isso, porque sua música já entrava por todos os poros da nação. Era nas cirandas, nas músicas de roda, nos choros, era seu retrato com o charuto, ou tocando violão, nas peças para piano ou violão, era no movimento do canto orfeônico que espalhou corais por todo o país.

Na pátria da música, a dimensão de Villa Lobos foi tão imensa, que marcou tudo, a produção popular, a música erudita, o canto coral, a música sinfônica. As poucas tentativas de diminuí-lo ruíram em pouco tempo.

Confira a obra de qualquer grande do século, dos eruditos Mignone, Guarnieri, dos semi-eruditos Heckel, Ovalle, dos populares Edu, Jobim a Gismonti, e em tudo estará Villa. Esteve em Laurindo de Almeida, quando apresentou o violão brasileiro ao mundo, nos irmãos Assad, em Marcelo Khayat, Fábio Zanon, e em todos que transformaram a escola de violão brasileira na melhor do mundo.

De vez em quando aparecia algum crítico fazendo reparos à sua obra orquestral, mas a obra para piano… Outro criticava um ou outro ponto da obra pianística, mas a de violão… As cirandas eram copiadas de temas populares, mas os choros…. O Choro número 1 foi copiado de Levino Conceição, mas as Bachianas….

Era muita coisa para pouca indústria fonográfica. Quando conseguíamos um disco de Villa, naquela Poços tão pequena, mais afeita às letras que à música, era uma festa, uma celebração.

Em 1964, quando Diogo Pacheco colocou Elizeth Cardoso no Teatro Municipal de São Paulo cantando as Bachianas Brasileiras número 5 foi como se tivesse sido firmado o pacto final, a síntese definitiva entre o erudito e o popular brasileiro.

Aos poucos os discos foram aparecendo, a era dos CDs permitiu as regravações. Resolvi adquirir tudo o que aparecesse de Villa. Quase quebro. De todos os cantos surgiam pianistas, orquestras, violonistas interpretando os Prelúdios, Choros, Bachianas de Villa, as gravações em Paris, a consagração nos Estados Unidos. Mas, acima de tudo, havia Villa na alma do artista popular, no chorão que tocava o Choro número 1, no boêmio que ia às lágrimas com a Bachiana número 5.

O que foi maior em Villa? A parte orquestral, os pianos, o violão? Na semana passada, na coluna sobre Agustín Barrios, mencionei o violonista inglês John Williams, para quem Barrios teria sido maior do que Villa na obra para violão. Um dos maiores intérpretes mundiais da obra de Barrios, o violonista Marcelo Khayat me envia um e-mail contestando a opinião de Williams.

Diz ele: “Barrios foi um compositor excepcional para violão, mas compará-lo a Villa-Lobos é uma heresia! O violão moderno se divide em dois capítulos: antes de Villa Lobos, e depois de Villa Lobos. Tudo bem que a produção de Villa Lobos foi pequena para o violão (5 prelúdios, 12 estudos, 1 Concerto para orquestra, 1 Choro e 1 Suíte Popular Brasileira), mas Villa Lobos com pouco disse tudo”.

“Ouso dizer que os estudos de Villa Lobos para o violão têm uma importância muito maior que os estudos de Chopin para o piano ou os Caprichos de Paganini para o violino. Não existe nada parecido com os Estudos em importância e relevância no repertório violonístico, enquanto que o piano e o violino têm outras obras (estudos transcendentais de Lizst etc) que complementam bem o repertório do instrumento”.

“Além disso, Villa Lobos revolucionou a técnica o violão moderno. Cada estudo teve o seu aspecto revolucionário: o #1, com sua fórmula de arpejos simples porém genial, o #2 de escalas transpostas de execução dificílima, o #10 com seus ligados infernais de mão esquerda, os acordes com glissandos selvagens no #12, o uníssono de 6 cordas em mi do estudo #11”.

“Julian Bream (grande violonista inglês) disse há muitos anos uma coisa que eu demorei para entender, mas hoje vejo que ele tinha toda razão: Villa Lobos foi o primeiro compositor da história do instrumento que fez o violão soar grande, e não apenas como um instrumento de pequenos saraus e pequenos recitais privados para aficionados”.

“Sem nenhuma pretensão ou arrogância, conheço bem o repertório do violão dos últimos cinco séculos, e tenho a maior admiração pelo Barrios. Mas afirmo com conviccão absoluta que Villa Lobos foi o maior gênio da história do violão. Sem patriotada”.

Para incluir na Crônica Semanal

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