Vinicius e Caymmi no Zum Zum com o Quarteto em Cy

Atendendo a um pedido da amiga Emília M. de Moraes, através do facebook, apresentarei algumas edições do álbum Vinícius/Caymmi no Zum Zum, com Quarteto em Cy e Conjunto Oscar Castro Neves. Por sua excelência, aqui anexo matéria da lavra de LUIZ AMÉRICO LISBOA JÚNIOR sobre o excelente disco.

Por Luiz Américo Lisboa Júnior

No início dos anos sessenta era muito comum no Rio de Janeiro os chamados “shows de bolso”. Ou seja, pequenos espetáculos que tinham como cenário uma famosa boate da época. E nesse contexto os palcos principais eram o Bottle’s, o Bacarat e o Little Club, todos situados no Beco das Garrafas, uma pequena travessa sem saída da rua Duvivier em Copacabana, sede principal dos artistas da Bossa Nova e da nova geração que se afinava com aquele tipo de música. 

Em junho de 1964 Aloysio de Oliveira resolveu produzir um desses shows com Dorival Caymmi e quatro meninas que haviam recém chegado da Bahia. Elas se notabilizariam com o nome artístico de Quarteto em Cy e despertavam a atenção do público na boate Bottle”s. Aloysio foi assisti-las e se empolgou com o talento do grupo, nascendo aí a idéia do espetáculo que tinha ainda a participação do conjunto Oscar Castro Neves. Tudo acertado, ficou decidido que as apresentações seriam na boate Zum Zum, na Rua Barata Ribeiro em Copacabana, e a estréia se daria no dia 10 de outubro. 

Um acontecimento inesperado, porém, mudou os planos iniciais de Aloysio de Oliveira: a inclusão de ultima hora do poeta Vinícius de Moraes, fazendo com que se modificasse o roteiro planejado inicialmente. Era, portanto, necessário que se estabelecesse novas e definitivas bases para o show. Para isso, algumas reuniões foram realizadas para que no fim tudo saísse sem problemas. Sobre esses encontros preliminares é Cynara quem conta: “A primeira reunião foi na casa de Caymmi, em Copacabana. Nós ainda éramos muito tímidas, há pouco tempo no Rio e já misturadas a dois monstros sagrados da música. Mesmo assim enfrentamos a fera e trabalhamos com afinco nos arranjos apurados do Oscar. Aloysio pediu para Vinicius fazer as vinhetas de ligação para o show, ele sabia como ninguém costurar um show como aquele. Os ensaios corriam soltos e nossa relação de amizade com os monstros crescia num ambiente de trabalho superengraçado. Não sei quem era mais “palhaço”, se o Vinícius ou o Caymmi”. 

Neste espetáculo temos um verdadeiro momento histórico da música popular brasileira, pois foi a primeira vez que Vinicius e Caymmi se apresentaram juntos, além de ser a estréia definitiva do Quarteto em Cy. O sucesso do show o levou a duas temporadas: a primeira se estendendo até fevereiro de 1965 e a segunda em fins do mesmo ano e entrando pelo verão de 1966. O êxito da produção se completaria com a intenção de Aloysio de Oliveira em registrar o show num disco. Ele então levou adiante seu projeto e partiu para a gravação. 

Leia também:   Loura ou morena, eis a questão!

Consciente que o ruído das pessoas falando, das palmas e as precárias condições técnicas para uma gravação ao vivo naquela época prejudicariam o resultado final do trabalho, Aloysio de Oliveira resolveu realizá-las no estúdio da Rio Som, situado na rua do Senado, onde costumeiramente realizava as gravações dos discos de sua gravadora, a Elenco. Vejamos o que ele diz a esse respeito em seu comentário na contra-capa do LP: “(…) A intenção aqui foi oferecer a vocês os mínimos detalhes dessa apresentação numa gravação em estúdio para ser possível observar, sem sacrifício de qualidade de som (o que pode acontecer numa gravação ao vivo), toda a beleza musical que este show proporcionou. 

Fizemos questão, no entanto, de reproduzir no estúdio o show na sua íntegra e exatamente como foi interpretado, para que vocês possam ter a sensação de um show musical em sua verdadeira continuidade”. Finalizados os trabalhos, o disco saiu no início de 1967 e nele podemos ouvir momentos mágicos da música brasileira. 

No repertório LP temos como destaque “Berimbau”, de Vinicius e Baden Powell; sambas como “Broto maroto”, de Carlos Lyra e Vinicius e “Formosa”, de Baden Powell e Vinicius; “Saudades da Bahia” e …”Das rosas”, de Dorival Caymmi, incluindo ainda uma interpretação antológica do Quarteto em Cy e Caymmi, em “História de pescadores”. Vinicius também participa declamando “Carta a Tom” e o “Dia da Criação”, além de apresentar oficialmente o Quarteto em Cy com as seguintes palavras que antecedem a interpretação de “Tem dó de mim”, de Carlos Lyra: “Estas são as minhas menininhas, são as quatro baianinhas, que eu um dia descobri, Quarteto em Cy, se eu fosse solteiro, com as quatro casaria, elas sempre assim, cantando o dia inteiro só pra mim”. 

Leia também:  Lizza Dias leva ao palco a riqueza da cultura afro-brasileira, por Carlos Motta

O sucesso do disco foi tão grande quanto o show e transformou-se num dos mais vendidos de toda a história da Elenco, uma das mais importantes gravadoras de música brasileira, responsável por momentos inesquecíveis da nossa canção. Como este, que revive com todo esplendor um encontro de grandes mestres e que já faz parte, com todos os méritos, de um belo capítulo da história da música popular brasileira, onde não faltam o molho carioca e o tempero baiano, misturados com muito talento em música, voz e poesia. 

Luiz Américo Lisboa Junior 

 

Ficha Técnica

Vinicius/Caymmi No Zum Zum

Produção e direção: Aloysio de Oliveira

Assistente de produção: José Delphino Filho

Estúdio de gravação: Rio Som S/A

Engenheiro de som: Norman Sternberg

Técnico de som: Umberto Contardi

Capa: Eddie Moyna

Fotografias: Francisco Pereira e Paulo Lorgus

 
 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

12 comentários

  1. Sarava!

    Que privilégio teve o publico desse época, 50 e 60 do Rio, Sampa e Salvador. Os anos dourados da musica popular brasileira!

    “Não sei quem era mais “palhaço”, se o Vinícius ou o Caymmi”.”

    Outro privilégio, conviver com esses monstros sagrados das artes!

    Abraço saudosista de quem não viveu, mas ouviu e leu muito a respeito.

     

  2. Vinicius e Caymi

    Olha Luciano. Até fiquei suada p entrar com minha senha e poder comentar. É que o “Seo” Nassif anda me podando, e diariamente tenho de fazer Login. 

    Mas vc como sempre é demais! Parabéns

  3. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome