Yes, nós temos banana

Com a morte de João de Barro, o Braguinha, o Brasil perde a penúltima de suas referências musicais históricas. Dorival Caymmi resiste. A história de Braguinha está ligada a infância, adolescência e maturidade de gerações de brasileiros.

Na minha infância, Poços de Caldas era cidade de pouco mais de 30 ou 40 mil habitantes, mas com especial apreço pelas artes. Na música, tivemos o maestro Guido Rocchi, violinista, que chegou ao Brasil na excursão histórica da orquestra italiana ao Rio de Janeiro, na qual Arturo Toscanini iniciou sua carreira de maestro, e decidiu ficar em Poços. Tinha também a professora Itália, que ensinava balé clássico, e o professor Fábio, que ensinava piano.

A família sempre foi muito artística. Entre os primos, todo menino tinha que aprender piano. Toda menina, piano, balé e, se tivesse tempo, aulas de tricô com minha mãe. Mas houve dois episódios que, por assim dizer, mancharam um pouco nossa reputação. O primeiro episódio, digamos controverso, foi no recital de balé das alunas da professora Itália. Quando uma das primas entrou no palco, houve um certo “frisson”. Ela tinha inúmeras virtudes, uma inteligência viva, mas faltava-lhe o tipo físico ideal para uma bailarina, para dizer o mínimo. Para sua apresentação, imprudentemente dona Itália ensaiou um trecho da “Morte do Cisne”, que terminava com um pas de deux seguido daquele outro passo, que consistia em cair com a perna aberta e as mãozinhas trançadas sobre a cabeça. Quando as pernocas da prima desabaram sobre o palco, parecia que o vulcão de Poços tinha entrado em erupção. Tia Matilde Monassa, uma turista que de tão amiga da família virou tia, soltou uma risada daquelas que ninguém resiste, e o público inteiro foi atrás.

Meu vexame não foi menor. Na apresentação dos alunos do professor Fábio, no Cine Vogue, para umas quinhentas pessoas, fui tocar Musette. Tinha seis anos e era o caçula do elenco. Quando entrei no palco e vi aquele mundaréu de gente, fiquei tão nervoso que não achava o dó. Aí gritei um “professor Fábio, onde está o dó?”. O povo ficou rindo durante toda minha apresentação.

Mas dei essa volta toda para falar do presente que ganhei pela apresentação de piano. Foi uma coleção de disquinhos coloridos, de histórias infantis, produzidos por João de Barro, o Braguinha. Aquelas musiquinhas iluminaram não só minha infância, mas de todas as crianças do meu tempo. Eu ficava triste com a história da dona Viúva (“dizei senhora viúva / com quem quereis se casar / se é com o filho do conde / se é com seu general, general, general”). Vibrava com as estripulias da banda do Cazuza, à medida que o moleque ia crescendo e incorporando mais instrumentos ao seu grupo.

Sem falar no “Chapeuzinho Vermelho”, com duas músicas que entraram para a história da MPB. Uma, a do próprio Chapeuzinho (“pela estrada afora / eu vou bem sozinha / levar esses doces / para a vovozinha”). Outra, o hino dos caçadores, mais emocionante que a chegada da cavalaria americana (“nós somos os caçadores / e nada nos amedronta / damos mil tiros por dia / matamos feras sem conta”).

Nos anos 70 essas historinhas atingiram cinco milhões de gravações -provavelmente o maior fenômeno da indústria fonográfica brasileira de todos os tempos. E o livro me ajuda a relembrar que os autores da maioria das músicas eram o próprio Braguinha e o maestro Radamés Gnatalli, um dos músicos brasileiros mais importantes do século.

Foi nesse período, lá por 78 ou 79, que conheci o Braguinha, no bar do Alemão, ali no viaduto Antárctica, em São Paulo. Era um sábado. Nosso grupo estava no mezanino quando o vimos entrar, saindo de uma gravação na TV Cultura. Espontaneamente explodiu uma salva de palmas em sua homenagem. Braguinha subiu as escadas e sentou-se com a gente. Já septuagenário, não perdia uma oportunidade de jogar charme em cima das moças. Lá pelas tantas indaguei: “Mas o senhor é casado, não?”. E ele: “Muito bem casado, meu filho, adoro minha mulher, mas essas mocinhas são tão bonitinhas”.

O papo evoluiu para a questão do purismo na MPB, uma discussão sobre as concessões de Waldir Azevedo, em relação ao rigor de Jacob. O velho mestre, um dos últimos pais vivos da MPB interrompeu o papo: “Parem com isso. A música popular tem que ir onde o ouvinte quiser, e viver o momento apenas”. E levantou-se para mostrar sua última composição: “A Marcha do Jegue”, que terminava com ele simulando o coito enquanto zurrava, para espanto do Dagô, o dono do bar. Quando ouço as críticas a esse autêntico samba de roda baiano do grupo Tchan e assemelhados, penso que os críticos deveriam ouvir um pouco mais mestre Braguinha.

Foi autor dos maiores clássicos da música popular mais rica do planeta. Compôs “As Pastorinhas”, com Noel Rosa, “Carinhoso”, com Pixinguinha. Com Alberto Ribeiro compôs “Touradas em Madri”, que propiciou o maior espetáculo de público que o país já conheceu, que foi a torcida da Seleção Brasileira cantando a música para caçoar dos espanhóis, que estavam sendo goleados na copa de 50. Sem falar de “Cadê Mimi” (“Cadê Mimi, cadê Mimi / Mimi que fugiu prá Shangai / Mimi que partiu me deixando assim / do meu pensamento não sai”), também com Alberto Ribeiro, com quem compôs “Yes, nós temos banana”, “Copacabana” (“princesinha do mar”), “Tem Gato na Tuba:” (“todo domingo / havia banda /, no coreto do jardim”), “Chiquita Bacana”.

Ao lado de Caymmi, era das derradeiras figuras reverenciais, de uma música que -ao contrário do país—aprendeu a amar e reconhecer os seus velhos.

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