Zeca Afonso, o trovador da liberdade

Por Jota A. Botelho


A casa de Zeca Afonso, no Largo da Sé Velha, em Coimbra/Portugal

Zeca Afonso (José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nascido em Portugal, Aveiro, 2 de agosto de 1929 – Setúbal, 23 de fevereiro de 1987) foi um dos maiores compositores e intérpretes da música de contestação durante a ditadura fascista de Salazar, vigente em Portugal entre 1933 e 1974. Como compositor, soube conciliar de forma notável a música popular e os temas tradicionais com as manifestações de protestos. Foi uma figura central do movimento de renovação da música portuguesa que se desenvolveu na década de 1960 do século XX e se prolongou até década de 80. Autor da composição “Grândola Vila Morena”, sendo utilizada como senha pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), comandados pelos Capitães de Abril, que instaurou a democracia no país, em 25 de Abril de 1974. A canção foi  transmitida pela Rádio Renascença, emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar o início da revolução, mais conhecida como a Revolução dos Cravos.

https://www.youtube.com/watch?v=LhwZde8ruoA align:center]


A Origem da Canção ‘Grândola Vila Morena’

Em 17 de maio de 1964, Zeca Afonso (também conhecido por José Afonso) é convidado pela Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde ele se inspira para fazer a canção “Grândola Vila Morena” no intuito de homenageá-los. Esta música permanece como uma das músicas mais simbólicas e significativas não só do período revolucionário português como também acabou virando um Hino Internacional, sobretudo na Europa.

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade (*)

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

(*) versos que foram alterados em substituição ao original, em 1971.

https://www.youtube.com/watch?v=gslF63jsUxY align:center]

“Grândola Vila Morena” vira Hino Internacional e uma canção de protesto contra a Ditadura da Troika Europeia (2013). Apresentações de Amália Rodrigues, Nara Leão, Joan Baez e outros.

https://www.youtube.com/watch?v=OHVSUOqgCoY align:center]
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ALGUMAS CANÇÕES DE ZECA AFONSO


A discografia de Zeca Afonso de 1962-1985

Utopia
“Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão seja a que nível for”. Entrevista de Zeca Afonso a Viriato Teles na Revista Se7e, em 27 de novembro de 1985.

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para às margens do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

https://www.youtube.com/watch?v=UKjX_kzNaT0 align:center]

No Comboio Descendente
“Neste Lp de 1972, surge uma fase de grande engajamento político do cantor, que pouco tempo depois o levará novamente à prisão” – Viriato Teles

https://www.youtube.com/watch?v=hhlFE0PxsYM align:center]

Traz Outro Amigo Também

https://www.youtube.com/watch?v=5BQrcJKjvL0 align:center]

Balada de Outono

https://www.youtube.com/watch?v=ojj5FY3sVy4 align:center]

Já o Tempo se Habitua

https://www.youtube.com/watch?v=XQQX7PoUnQ8 align:center]

Cantigas de Maio

https://www.youtube.com/watch?v=s3JiWHvaua4 align:center]

Os Bravos, do Lp “Baladas e Cancões”
Este Lp (ainda identificado como José Afonso), Zeca Afonso apresenta doze temas da sua (já) fase de ruptura com a tradição coimbrã. Sempre acompanhado da viola de Rui Pato, com letra e música popular açoriana.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=8Dx1gVsze8A align:center]

O Que Faz Falta

[video:https://www.youtube.com/watch?v=L29-aZXqZyk align:center]

Canta Camarada

[video:https://www.youtube.com/watch?v=2TlikmHCEWM align:center]

Era de Noite e Levaram
“Gravado em 69, este LP reflete as vivências desse período, embora comprometido e datado, mas capaz de sobreviver às situações que lhe deram origem, verdadeiro exemplo da capacidade de intervir artisticamente, sem prejuízo dos valores estético-formais…” – Viriato Teles, autor de As Voltas de um Andarilho, reportagem biográfica sobre José Afonso, 1999.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=ds2q-mOkApk align:center]

A Morte Saiu À Rua
José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961, morto pela PIDE) foi um militante político antifascista e artista plástico. O assassinato levou Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a canção: A morte saiu à rua.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=5IAlrXheQ7I align:center]
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A ATUALIDADE DE ZECA AFONSO
“Qualquer semelhança não é mera coincidência”

Canção do Desterro (Emigrantes)

Vieram cedo
Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar

Na barcarola
Canta a Marujada
– O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O sete-estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair

À beira d’água
Me criei um dia
Remos e velas
Lá deixei a arder
Ao sol e ao vento
Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer

[video:https://www.youtube.com/watch?v=yKEaerOoYuA align:center]

Como Se Faz Um Canalha

Conheci-te ainda moço
Ou como tal eu te via
Habitavas o Procópio
Ias ao Napoleão

Mas ninguém sabia ao certo
Como se faz um canalha
Se a memória me não falha
Tinhas o mundo na mão

Alguma gente enganaste
A fé da muita amizade
Tem também as suas falhas
Hoje fazes alianças

A bem da Santa União
Em abono da verdade
A tua Universidade
Tem mesmo um nome: Traição

Um social-democrata
Não foge ao Grão-Timoneiro
Basta citar o paleio
Do major psicopata

Já são tantos namorados
Só falta o Holden Roberto
Devagar se vai ao longe
Nunca te vimos tão perto

Nunca te vimos tão longe
Daquilo que tens pregado
Nunca te vimos tão fora
Da vida do Zé Soldado

Ninguém mais te peça meças
No folgor dos gabinetes
Hás de acabar às avessas
Barricado até aos dentes

És um produto de sala
Rasputin cá dos Cabrais
Estás sempre em traje de gala
A brincar aos carnavais

Nos anais do mundanismo
A nossa história recente
Falará com saudosismo
Dum grande Lugar-Tenente

São tudo favas contadas
No país da verborreia
Uma brilhante carreira
Dá produto todo o ano

Digamos pra ser exato
Assim se faz um canalha
Se a memória não me falha
Já te mandei pro Caetano

[video:https://www.youtube.com/watch?v=fcMxRRWjcbE align:center]

Os Vampiros 

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vem em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

A toda a parte chegam os vampiros
Posam nos prédios posam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
(…)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=ZUEeBhhuUos align:center]

Os Meninos Nazis

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis

Blusão de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota

Gosta de passeio em grupo
No mercedes que o papá
Trouxe da Europa conosco
Até à Europa de cá

Despreza a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca

Se o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis

Depois mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutônica
Combater os sarracenos

Os pretos, os comunistas
Os índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos !

Chame-se o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene

Que a cruz gamada reclama
De novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão

Mas não se esqueçam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir pra puta que o pariu

[video:https://www.youtube.com/watch?v=jskKl3edLLE align:center]

Coro dos Tribunais
Versão para o português, adaptada por Luiz Francisco Rebello e Zeca Afonso (música), da canção original de Bertolt Brecht da peça “A Exceção e a Regra”. Segundo o jornalista e escritor, Viriato Teles, “todos os temas do Lp Coro dos Tribunais (1974), compostos antes de Abril, já mostrava que não se alinhava ao populismo demagógico característico da época, colocando-se uma vez mais na linha avançada. Este é um disco que foi capaz, por um lado, de corresponder às exigências do seu tempo e, por outro lado, não alimentar falsas ilusões relativas ao que estava ocorrendo, mas naquilo que era necessário construir…”

Foram-se os bandos dos chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu

Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu

A decisão do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também

Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também

Soa o clarim soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vem as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver

O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver

Se o criminoso se escondeu
Nada de novo aconteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei

Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei

[video:https://www.youtube.com/watch?v=7ixjeDx0PAQ align:center
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ZECA AFONSO ENTREVISTAS 


O livro “As Voltas de um Andarilho”, de Viriato Teles (foto acima). Abaixo: Rui Pato (viola) com Zeca Afonso 

I – Entrevista com Zeca Afonso – 1974 & 1984
Zeca Afonso fala da Revolução dos Cravos (1974) e, dez anos depois, da sua decepção com o que ocorreu com a Revolução de 25 de Abril (1984).

[video:https://www.youtube.com/watch?v=w7WWRnY_8lE align:center

II – Entrevista com Rui Pato – 2009
Rui Pato, parceiro de Zeca Afonso, fala de sua relação com o músico, poeta e compositor, organizada pela Associação José Afonso (AJA), em 13 de março de 2009, em Setúbal, acompanhado de Viriato Teles e Francisco Fanhais.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=EgLtxMgdxSU align:center

III – Entrevista com Viriato Teles “O Andarilho na Imprensa”  
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TRIBUTO A ZECA AFONSO

 

Zeca Afonso em Moçambique
José Cardoso e Álvaro Simões falam-nos do seu contato com Zeca Afonso e da sua colaboração no Teatro de Amadores e no Cineclube da Beira entre 1964 e 1967. Músicas de fundo: “Lá no Xepangara”, “Eu Marchava de Dia e de Noite”, “É Para Urga”, “Ali Está o Rio”, “Coro dos Tribunais” da peça de Bertolt Brecht “A Exceção e a Regra” e “Vejam Bem”, canção que Zeca compôs para fundo musical do filme de José Cardoso, “O Anúncio”, 1965. (in AJA)

[video:https://www.youtube.com/watch?v=7Q9tWSiFd64 align:center

Vejam Bem

[video:https://www.youtube.com/watch?v=Io_RidA1mlI align:center
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DOCUMENTÁRIO ZECA AFONSO – Maior que o pensamento

Neste documentário dividido em três episódios, onde no primeiro episódio é abordada as raízes de Zeca Afonso, nascido em Aveiro, em 1929, a sua infância na África com os pais e irmãos, os seus estudos secundários em Coimbra, enquanto os pais estavam detidos pelas tropas japonesas que ocuparam Timor Leste durante a II Guerra Mundial, o início da sua carreira artística como intérprete de fados em Coimbra, ao mesmo tempo em que ingressava na Universidade desta cidade, a sua experiência como professor do ensino secundário, a evolução do seu estilo musical para a balada e a criação de duas canções consideradas pioneiras do movimento de música de protesto em Portugal: “Os Vampiros” e “Menino do Bairro Negro”.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=qJcdCD4Mjss align:center

No segundo episódio, trata-se da estada de Zeca Afonso em Moçambique como professor, a sua mudança para Setúbal, onde é expulso do ensino oficial, passando a dedicar mais tempo à música, a edição dos seus discos mais marcantes, entre eles “Cantigas do Maio” (que contém “Grândola Vila Morena”), a participação em sessões de animação musical por todo o país, a ligação com a Espanha (e em particular com a Galícia), o seu encarceramento pela PIDE na prisão de Caxias e a escolha de “Grândola…” como senha radiofônica do 25 de Abril.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=2ybNXeR0hvo align:center

No último episódio, ele procura retratar o percurso do artista num Portugal democrático que emerge da revolução de 25 de Abril, a influência da nova situação na sua obra, o seu envolvimento na ação política e os seus compromissos ideológicos, o seu método criativo, a sua concepção do espetáculo musical e por fim o aparecimento da doença que o leva à sua morte prematura, em 1987, evocando-se, através de quem esteve presente, o seu emotivo concerto de despedida, quatro anos antes, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (1983).

[video:https://www.youtube.com/watch?v=-t892yBVuiQ align:center

Fonte:RTP
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O FUNERAL DE ZECA AFONSO EM 1987

Símbolo da luta pela Liberdade, Zeca Afonso morreu no dia 23 fevereiro de 1987, no hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada em 1982, culminando com uma agonia de cerca de cinco anos. Autor de “Grândola Vila Morena”, compositor e intérprete de tantas outras canções que ficaram conhecidas no país inteiro. Aqui acompanhado por uma multidão emocionada de fãs e admiradores.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=seMeGQq8IXg align:center
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Biografias de Zeca Afonso: 
Jornal – Zeca Afonso & DigitalBlueRádio & Wikipédia – José Afonso & Associação José Afonso 

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