Dimensões das (campanhas contra) fake news, por Cesar Cardoso

Dimensões das (campanhas contra) fake news

por Cesar Cardoso

Voltando ao assunto fake news, que é importante demais para ser esquecido um dia que seja.

Iniciando com uma lembrança: fake news não foram inventadas em 2016, nem pela internet, aliás nem pelo boimate da Veja. O que a internet fez foi, isto sim, destruir barreiras de entrada à produção e distribuição de notícias falsas e maliciosas; o que antes era possível só por quem conseguia emplacar uma matéria marota em uma grande revista ou grande telejornal ou pagar a gráfica para rodar o jornalzinho que distorcia as notícias do bairro a seu favor agora está à disposição de todo mundo com um computador/celular e acesso a plataformas de publicação, redes sociais e mensageria.

Mas prossigamos.

Existem três dimensões nas campanhas contra a fake news:

1) Uma guerra ideológica dos grandes grupos de mídia contra vozes independentes: o Nassif já falou extensivamente sobre isso, vamos seguir.

2) Uma guerra comercial dos grandes grupos de mídia contra as grandes empresas da internet: um real investido por um anunciante no Facebook e no Google é um real retirado por este anunciante da Globo ou da Folha ou da Abril. Colar em Facebook e Google a pecha de “financiadores e propagadores de fake news” é parte da estratégia dos grandes grupos de trazer de volta anunciantes e usuários.

(A reação do Facebook parece ser jogar a mídia na vala onde a News Feed foi enterrada. Vamos acompanhar.)

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Também serve para reforçar o item 1, já que, ao colocar os grandes ad brokers da internet na defensiva, desidrata financeiramente blogs e agências de notícias independentes, pouco importando que isso acabe, ironicamente, reforçando ad brokers conhecidos por monetizar fábricas de fake news, como Outbrain e Taboola.

3) Uma guerra dos órgãos de repressão e controle do Estado contra as plataformas da internet: é conhecido de todos que um dos sonhos de consumo de polícias e procuradorias ao redor do mundo é o acesso irrestrito às plataformas de mensageria e redes sociais e publicação, e esta guerra se tornou ainda mais forte no mundo pós-Edward Snowden, em que todo mundo correu de uma maneira ou de outra para encriptar o trânsito de informações.

No Brasil, onde o Whatsapp é a plataforma dominante na internet de 2018, a situação se exarceba; não por acaso a ideia de usar até mesmo o Exército contra uma situação incontrolável pela própria natureza da plataforma. Além disso, os dois lados sabem que, caso o Facebook resolva colaborar decisivamente, p.ex. relaxando a encriptação do app (e isso significaria que, antes, Zuckerberg teria que se livrar de Jan Koum, coisa que não há nenhum sinal de que vá acontecer), os produtores de fake news certamente se moverão para algum app ainda mais “obscuro” e difícil de ser rastreado, o que torna a tarefa dos “hômi da lei” ainda mais complicada.

Observem: três dimensões da guerra contra as fake news e NENHUMA delas é contra as fake news em si. Fake news continuam sendo úteis: donos de televisões, jornais e revistas mandando recadinhos comerciais, criação de testes de receptividade a uma futura campanha política, mobilização de catarses e indignações coletivas selecionadas etc etc etc.

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