Brasil retoma visão anacrônica de neoliberalismo, alerta Bresser-Pereira

Professor avalia que crise política está associada à perda da ideia de nação pelas elites e declara: ‘Desenvolvimentismo é nacionalismo econômico’
 
Edição completa do Sala de visitas ainda hoje, às 18h, aqui no GGN

 
Jornal GGN – A crise política desencadeada em várias partes do mundo hoje, e que se aprofundou em 2016, é um sinal de insatisfação, cada vez maior, de grande parcela da população, “sobretudo branca e não-educada”, e que estaria se sentindo prejudicada pelo neoliberalismo há pelo menos três décadas. 
 
A avaliação é do professor Luiz Carlos Bresser-Pereira que, em entrevista exclusiva para o programa Na sala de visitas com Luis Nassif, avaliou as consequências da crise política sobre a economia no Brasil e a insistência de conceitos neoliberais no país, enquanto até mesmo os países centrais já deixaram de lado “a crença cega no mercado”.
 
Bresser-Pereira é da ala dos economistas desenvolvimentistas, compreendendo o desenvolvimentismo como sendo “nacionalismo econômico e intervenção moderada do Estado” no mercado. Para os setores não competitivos da microeconomia (formada por empresas de infraestrutura e de base) o professor destaca que o Estado deve atuar garantindo os preços macroeconômicos, para evitar guerras de preços e, ao mesmo tempo, precisa dar conta de um sistema educacional eficaz, desenvolvimento tecnológico e planejamento dos setores mais competitivos da economia. 
 
Essa visão de Estado existiu entre os países capitalistas centrais até os anos 1980, quando o neoliberalismo ascendeu em todo o mundo, alcançando as nações menos desenvolvidas, como o Brasil, de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). Com a quebra de Wall Street, em 2008, e propagação da crise em todo o mundo, os governos retomaram a linha protecionista e reforçaram o papel do Estado sobre o mercado. 
 
Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo, apesar da ascensão de políticos mais à direita, aumentaram suas ações protecionistas nos últimos anos. Já o Brasil, desde o golpe que afastou a presidente Dilma Rousseff, vem tomando um rumo alternativo no mundo, mantendo uma visão anacrônica do neoliberalismo dos anos 1990.
 
Bresser completa que, de maneira geral, a crise política e, portanto, da globalização, ronda o mundo, mas não da maneira como ocorre no Brasil. E, essa crise, pode ser associada a perda da ideia de nação pelas elites. 
 
“Hoje temos a impressão de que ser capitalista é ser burguês, é ser liberal. Não é verdade, o capitalismo nasceu desenvolvimentista”, lembrando, por exemplo, do New Deal, nome dado a uma série de tratados implementados para combater os efeitos da crise de 1929, durante o governo do Presidente Franklin Delano Roosevelt nos Estados Unidos. As medidas, anticíclicas, foram tomadas para recuperar a economia a partir da forte intervenção do estado fazendo investimentos na indústria e em grandes obras.
 
“O que a Escola da Regulação, uma escola francesa de economia, chamou de modelo Fordista, porque foi um acordo político envolvendo empresários, trabalhadores, classe média e voltado ao crescimento da economia e uma moderação da atuação do Estado na economia, e funcionou muito bem”. 
 
O programa completo Na sala de visitas com Luis Nassif, você acompanha hoje, aqui no GGN, a partir das 18h, com os principais trechos desta entrevista. Assinantes GGN já podem acompanhar a participação completa do professor Bresser-Pereira na revista. Clique aqui

 

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6 comentários

  1. Discordo de Bresser. Creio

    Discordo de Bresser. Creio que voltamos ainda mais no tempo. Como disse num texto publicado em 09/10/2016:

    Durante uma década e meia e a imprensa e o PSDB criticaram um suposto aumento crescente dos gastos públicos em razão dos programas sociais dos governos Lula e Dilma. Após o golpe de estado disfarçado de Impedimento, ambos passaram a apoiar o desmantelamento do “Estado de bem-estar social” como se Michel Temer estivesse reduzindo as despesas estatais. Ledo engano.

    Michel Temer pode ter interrompido os programas sociais, mas ele aumento os gastos públicos. Segundo dados divulgados pela imprensa, o novo governo vai gastar 67,8 bilhões com o reajuste dos servidores, 50 bilhões com a renegociação das dívidas dos Estados e alguns bilhões com propaganda. O aumento da taxa de juros transferirá centenas de bilhões de reais do tesouro para os bancos e investidores privados.

    É evidente, portanto, que o governo apenas modificou as prioridades do Estado brasileiro. O que era gasto com a população de baixa renda será gasto com servidores, empresas de comunicação, banqueiros, investidores e para garantir apoio ao novo regime por parte dos governadores dos Estados-membros endividados. O aumento de gastos públicos não resultará numa melhoria de vida para a população, mas num incremento da riqueza dos mais ricos.

    Em troca dos direitos que revogou (Mais Médicos, Farmácia Popular, Ciência sem Fronteiras, FIES, Minha Casa Minha Vida, etc…) e que pretende revogar ou rebaixar (CLT, benefícios previdenciários, salário-mínimo etc…), Michel Temer criou um programa de esmolas que será gerenciado pela esposa dele. O fato da mocinha não ter experiência administrativa é irrelevante, pois o programa só tem uma finalidade: produzir as imagens que serão utilizadas para emocionar o respeitável público.

    Sob o comando de Michel Temer e sua dileta esposa, o Estado brasileiro deixará de assegurar direitos sociais abstratos que visam distribuir renda, sustentar o consumo interno e criar oportunidades de crescimento pessoal. Através de sua esposa, o presidente eleito de forma indireta que gosta de se comparar a Carlos Magno passará a ser um típico evérgeta romano. Isto explica o nome que foi dado a este ambicioso ensaio.

    Ao estudar profundamente a Pax Romana, Paul Petit notou que:

    “Mesmo em tempos normais, o povo cometia poucos excessos de mesa: este o motivo da satisfação quando os evérgetas, por ocasião de festas, de aniversários e também de eleições, ofereciam banquetes ou criavam fundações destinadas a melhorar de vez em quanto o comum. Curiosa prática, que permitia aos pobres uma espécie de ‘retomada individual’ da fortuna dos grandes, e estendia a toda uma população o princípio do protecionismo alimentado pela espórtula. Também se distribuía dinheiro ao povo, e o que os imperadores faziam em Roma, os ricos burgueses faziam em suas cidades. Mas, aos nossos olhos, o valor social desta prática é atenuado pelo fato, verificado com frequencia de que cada um recebia uma soma determinada por sua posição na sociedade, cabendo aos mais humildes uma soma menor que aos mais abastados, em virtude de uma tendência então generalizada para a hierarquização social, mesmo no seio de uma comunidade aparentemente solidária.” (A Paz Romana, Paul Petit, Edusp, São Paulo, 1989, p. 168/169)

    A semelhança entre a estrutura governamental romana e aquela que Michel Temer e seus clones municipais pretendem impor ao Brasil encontra sua chave na expressão “hierarquização social” que eu destaquei no texto de Paul Petit. O fenômeno não é novo no Brasil.

    Numa democracia que concede direitos sociais à população a hierarquia tradicional se torna frágil. Isto ocorre basicamente por dois motivos: as pessoas não precisam mais pedir favores e se submeter aos poderosos; em razão do acesso à educação, elas mesmas começam a disputar espaços que antes eram privativos dos mais abastados. Nesse sentido, se torna perfeitamente compreensível o discurso de Michel Temer de que com a chegada dele ao poder a crise acabou. Afinal, a crise da classe média alta era justamente o temor de ver seus filhos disputando cargos, salários e prestígio com os filhos dos pobres que chegaram à universidade com ajuda de Lula e Dilma Rousseff. Ao destruir o Estado de bem-estar social, Temer dá à classe média tradicional a segurança de que ela não perderá status em razão do sucesso previsível daqueles que sairiam das classes mais baixas.

    Desde 2002 a “hierarquização social” estava sendo contrariada pelos eleitores brasileiros. Isto explica como e porque o Judiciário foi convocado à restaurá-la a pedido do PSDB. Também explica o fato da maioria esmagadora dos Juízes ter se posicionado a favor do golpe de 2016. A reação à democratização do país provocou um dos aspectos mais deprimentes da realidade judiciária atual: enquanto os petistas são ilegalmente perseguidos, condenados e encarcerados (não necessariamente nesta ordem) os tucanos e peemebistas que cometeram os mesmos crimes ou crimes até mais graves nem são incomodados (caso de José Serra, Aloysio Nunes, Aécio Neves, Alexandre de Moraes, Michel Temer e outros).

    A Pax Romana não foi capaz de impedir a decadência e queda de Roma. Esta é uma lição de História que, ao que tudo indica, os donos do Brasil não foram capazes de aprender. Em breve veremos como eles reagirão quando o regime que eles criaram começar a ser sacudido e destruído pelos novos bárbaros.

     

    http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/uma-breve-pax-romana-no-brasil

     

    • jaboticabas….

      Deu no Estadãio de ontem: Petrobras dobra o tamanho do seu valor na Bolsa de Valores. No ano que diziam que quebramos a empresa, que sucateamos, que não representa mais nada, que somos incompetentes, que foi totalmente roubada e outros milhões de asneiras, a empresa dobra de valor? Olha o que estamos abrindo mão em troca de um novo ciclo de aventuras e dependências?! Como podemos abrir mão de tanta fonte de capital, de tecnologia, de empregos, de energia, de combustíveis? Como podemos ser tão limitados?! 

  2. País traído e invadido

    Podem me achar catastrofista, pessimista, o que for, mas com a provável aprovação da PEC que impedirá a candidatura de Lula à presidência foi-se a última saída institucional para a nação traída e invadida. Comparo o Brasil pós-golpe com o Iraque, apenas os estrangeiros do Norte não precisaram usar a força militar para nos dobrar e subtrair nossas riquezas como fizeram com o petróleo iraquiano, pois são tantas as instituições ditas “republicanas”, como o sistema judicial, eivadas de traidores que foi um passeio para as grandes corporações e rentistas de fora dominarem o país e pilhá-lo. Se pelo menos houvesse uma forte parcela nacionalista (como já houve) das forças armadas, ela jamais permitiria o que vemos acontecer hoje no país embora sua missão esteja claramente definida:

    https://dinamicaglobal.wordpress.com/2017/01/01/corrupcao-ou-traicao-o-brasil-e-o-pais-derrotado-na-guerra-que-nao-guerreou/

    http://www.conversaafiada.com.br/brasil/o-mal-lott-esta-de-olho

    A MISSÃO DO MINISTÉRIO DA DEFESA (Do portal:

    http://www.defesa.gov.br/):

    “Coordenar o esforço integrado de defesa, visando contribuir para a garantia da SOBERANIA, dos poderes constitucionais, da lei e da ordem, do PATRIMÔNIO NACIONAL, a  SALVAGUARDA DOS INTERESSES  NACIONAIS e o incremento da inserção do Brasil no cenário internacional.”

    CRIME  DE  TRAIÇÃO  À  PÁTRIA:

    “Art. 13 da Lei 7.170/83 – Comunicar, entregar ou permitir a comunicação ou a entrega, a governo ou grupo estrangeiro, ou a organização ou grupo de existência ilegal, de dados, documentos ou cópias de documentos, planos, códigos, cifras ou assuntos que, no interesse do Estado brasileiro, são classificados como sigilosos.

    Pena: reclusão, de 3 a 15 anos.”

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