24/08/1954: O Presidente da República tinha de estar à altura da dignidade inscrita na sua função, no seu cargo, no seu poder. Por Rubem Fonseca

As alternativas que existiam sobre a mesa eram: resistência armada ou renúncia. O genro Amaral Peixoto acrescentou outra: licenciamento. O presidente se afastaria até que fosse terminado o IPM sobre o crime da rua Tonelero.

Enviado por Gilberto Cruvinel

24/08/1954: O Presidente da República tinha de estar à altura da dignidade inscrita na sua função, no seu cargo, no seu poder.

Rubem Fonseca, “Agosto”

Pouco depois das duas da madrugada já estavam presentes na sala de reuniões do palácio todos os ministros de Estado. Faltava apenas o ministro das Relações Exteriores.
Vargas sentou-se na cadeira escura de assento de palhinha que ficava na cabeceira da mesa da sala de reuniões do Ministério. Os ministros já estavam em seus lugares, em silêncio. Todas as luzes estavam acesas; mas nas reuniões nocturnas aquela sala sempre ficava escura, lúgubre. Vargas contemplou, por momentos, na parede em frente, o quadro de António Parreiras, um óleo de tonalidade cinzenta que o pintor denominara «Um dia triste».
O presidente, com voz cansada, depois de relatar as informações que seus chefes militares lhe haviam transmitido, pediu a opinião dos ministros presentes. Os ministros militares confirmaram que a Marinha e a Aeronáutica, de maneira coesa, queriam a renúncia do presidente; o Exército estava dividido. Os ministros militares aconselharam a renúncia.
As alternativas que existiam sobre a mesa eram: resistência armada ou renúncia. O genro Amaral Peixoto acrescentou outra: licenciamento. O presidente se afastaria até que fosse terminado o IPM sobre o crime da rua Tonelero.
Vários dos presentes, tanto os ministros quanto aqueles que haviam entrado indevidamente na reunião, começaram a falar ao mesmo tempo. Lourival Fontes, o chefe do Gabinete Civil, que estava sentado ao lado de Mascarenhas, virou-se para o chefe do EMFA e disse: «Isto está virando uma palhaçada».
No meio do tumulto, Vargas olhou o relógio-armário J. B. Deletrezz colocado entre as cortinas cinza e bordeaux das grandes portas que abriam para a varanda do jardim, totalmente escuro. Os ponteiros do mostrador de porcelana marcavam quatro e vinte da madrugada. Vargas se sentia extenuado. Desde o princípio ele não esperava um apoio sólido para lutar; conhecia a natureza humana, participara, em sua carreira política, de conchavos, revoltas, comborças, golpes, revoluções. Assim, os rostos cautelosos da maioria dos ministros, e as palavras evasivas deles, envoltas em metáforas abdicatórias – José Américo sugerira-lhe um «grande gesto», quase em eco do «gesto elegante dos vencidos» proposto pelo udenista José Bonifácio – não lhe haviam causado surpresa, apenas aumentaram seu cansaço.
Num último esforço tomou a palavra, com autoridade, silenciando as vozes, fazendo cessar a balbúrdia. «Se os ministros militares me garantem que as instituições serão mantidas, eu me licenciarei.» Após dizer isso, acompanhado da filha, Vargas retirou-se do salão, sob aplausos. Já no terceiro andar, antes de entrar no quarto onde dormia solitário – sua esposa, dona Darcy, dormia em outro quarto do palácio – sua filha o abraçou e beijou.
Sozinho no seu quarto, Vargas, lentamente, tirou a roupa e apanhou o pijama de listas sob o travesseiro.
Estava viva na memória de Vargas o rosto envergonhado da filha, quando saíram abraçados da reunião dó Ministério. Alzira fora com ele até ao seu quarto para dizer-lhe que os pusilânimes haviam ido embora; os que lhe eram leais estavam prontos para a luta.
Ele se recusara a lutar. Pedira à filha que o deixasse dormir. Alzira o perdoaria um dia pela covardia daquele momento?
Acabou de vestir o pijama. Evitou, deliberadamente, olhar sua imagem reflectida nos dois espelhos grandes dos armários antigos que havia no quarto. O quadro de Cristo num canto da parede, um Sagrado Coração, do pintor Décio Villares, trouxe-lhe a fugaz lembrança de uma conversa que tivera sobre aquela pintura com o cardeal Pacelli, quando este se hospedara durante dois dias no palácio, em 1934, alguns anos antes de tornar-se o papa Pio XII.
Apagou a luz, deitou-se.
A manhã demorou a chegar. Benjamim veio ao seu quarto lhe dizer que fora intimado a depor no Galeão; e que Zenóbio se reunira com os outros generais no Ministério da Guerra para afirmar que na verdade o presidente não fora licenciado e sim deposto. Isso ele também já esperava.
Lembrou-se novamente do sofrimento que vira no rosto de sua filha, pensou em sua própria recusa à luta. Pensou na morte. Começou a chorar. Benjamim, que nunca o vira chorar, nem mesmo quando eram crianças, colocou, emocionado, a mão no ombro do irmão, pedindo-lhe que não desse aquela satisfação aos seus inimigos. «Tu já saíste de situações piores.»
Benjamim retirou-se e Getúlio voltou a deitar-se. Pensou no discurso de Capanema na Câmara, defendendo-o dos ataques injustos que lhe faziam. Lembrava-se do que dissera o seu líder parlamentar: ele, Getúlio Vargas, presidente da República, não podia abandonar seu posto, não podia ir saindo, por medo, por vaidade ou por comodismo. Ele tinha que ficar, em face das exigências das forças políticas majoritárias que o apoiavam. Mais ainda, ele tinha o dever para com o seu nome. O nome do presidente era um nome sagrado. O presidente era como um rei, como um príncipe. Ele governava em nome do monarca do mundo, como dizia Bossuet. E esse monarca do mundo estabelecia que o nome do presidente tinha qualquer coisa de sagrado. Quem exercia a Presidência da República tinha o dever, e não apenas o direito, de defender o seu nome, porque esse nome não era apenas o de Getúlio Vargas, era o nome do presidente da República. O presidente da República tinha de estar à altura da dignidade que se inscrevia na sua função, no seu cargo, no seu poder. Ele tinha o dever de defender o seu nome, e, na defesa do seu nome, ele não podia renunciar, porque essa renúncia seria uma complacência com a suspeita.
Deitado na cama, com os olhos abertos sem ver, Vargas imaginou como sua morte seria recebida pelos seus inimigos. Sua carta, que fora escrita para se despedir do governo e não da vida, rascunhada dias antes a seu pedido por Maciel Filho, seu amigo e auxiliar desde os anos trinta, podia servir também, e até melhor, para um adeus definitivo. A carta, mal batida à máquina, estava sobre o tampo de mármore da pequena cómoda do quarto, ao lado da porta do banheiro.
Quando o camareiro Barbosa entrou no quarto para lhe fazer a barba Vargas estava de pé, imóvel no centro do quarto, vestido em seu pijama de listas. O camareiro pediu-lhe que vestisse um roupão, pois fazia frio. «Não tem importância», ele respondeu. Disse ainda que não queria fazer a barba.
Barbosa saiu e Vargas voltou a ficar só.
Faria o que tinha que ser feito. Desafronta e redenção. Uma sensação eufórica de orgulho e dignidade tomou conta dele. Sim, sua filha agora o perdoaria.
Apanhou o revólver na gaveta da cómoda e deitou-se na cama. Encostou o cano do revólver no lado esquerdo do peito e apertou o gatilho.
O major Dornelles conversava com Barbosa, no corredor.
«O presidente disse alguma coisa?»
«Disse que não tinha importância.»
«Não tem importância o quê?»
«Pedi para ele vestir o roupão pois está frio e ele disse que não tinha importância.»
Ouviram o tiro. Dornelles correu para o quarto, seguido por Barbosa. Abriram a porta e viram o presidente, na cama, de olhos fechados, e a grande mancha de sangue no lado esquerdo do peito.
«Presidente!», gritou Dornelles.

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