Lista de Livros: Filosofia e literatura, de Rafael de Araújo e Viana Leite

Seleção de Doney

Lista de Livros: Filosofia e literatura – diálogos, relações e fronteiras, de Rafael de Araújo e Viana Leite

Editora: InterSaberes

ISBN: 978-85-443-0320-7

Opinião: bom

Páginas: 276 

       “A prosa está para a poesia como a caminhada está para a dança.” (Paul Valéry)

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        “A filosofia promove um tipo de reflexão, ou melhor, propõe uma investigação e chega a seus resultados por via estritamente racional. Estamos falando de conhecimentos certos e universais, alcançados com base em elementos lógicos que se juntam, legitimando alguma conclusão. No entanto, é preciso lembrar de que a filosofia e a poesia se unem em um aspecto importante, pois ambas representam uma forma de discurso que podemos chamar de nãovulgar. Vale a pena ressaltar que vulgar, aqui, nada tem a ver com xingamentos ou conduta questionável. Expliquemos o ponto. Tanto o filósofo quanto o poeta se separam da linguagem cotidiana ou vulgar para desbravar outro reino de possibilidades: o das essências e o da verdade. As conversações cotidianas em forma de prosa — a mesma que o comerciante estabelece com seu comprador, que o político usa durante seus afazeres rotineiros ou que o soldado tem com seus companheiros militares — são exemplos de discursos vulgares: A Filosofia irá diferenciar-se da palavra dos guerreiros e dos políticos porque possui uma pretensão específica, herdada dos poetas […] não deseja apenas argumentar e persuadir, mas pretende proferir a verdade como aquilo que é o mesmo para todos (Chaui, Introdução à história da filosofia, 2002, p. 44).

       O discurso vulgar não se preocupa com o significado último dos termos, sua origem primeira ou a essência das coisas. Imaginemos que alguém pergunte o preço de algum produto vendido pelo hipotético comerciante. Ele não irá questionar o cliente sobre a essência dos números: Eles são entidades existentes por si mesmas ou construções mentais? Um oficial do exército, por sua vez, não entrará em pormenores sobre a essência da virtude caso tenha de punir um soldado por não ter atendido a uma ordem direta proferida por ele. Nenhum deles, nessas circunstâncias, se preocupará com a formação da vida e do mundo. Essas questões que buscam pela essência ultrapassam o terreno da conversação vulgar, mas estão no cerne da preocupação da poesia mitológica e da filosofia.”

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        “Para que haja entendimento, é preciso purificar os conceitos, é preciso que saibamos o significado do que dizemos.

       Esse é um exercício essencialmente filosófico; de fato, quando pensamos cuidadosamente sobre o assunto, existe a possibilidade de percebermos algo inquietante: que não sabemos de modo preciso o que significam muitas coisas sobre as quais falamos. É o que os diálogos aporéticos colocam em evidência de maneira exemplar. Aporia significa sem saída, algo que termina em impasse. Um diálogo que tenha essa característica é aquele cujo fim não acompanha uma resposta objetiva para a questão investigada. E nem sempre a filosofia chega a respostas inquestionáveis; sua afinidade está mais ligada a um modo rigoroso de questionar.”

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        “Nós queremos chamar atenção para a passagem em que Aristóteles compara a poesia* e a história, presente no Capítulo IX da Poética (2011). Ele fala dos objetivos de cada um desses discursos e segue dizendo que não é trabalho do poeta narrar retrospectivamente algo que já aconteceu, porém representar o que poderia acontecer, ou seja, o que é possível, verossímil e também necessário — características que aproximam o poeta do fazer filosófico. Como já adiantamos, não é simplesmente pela estrutura do texto que o historiador e o poeta se diferenciam, ou seja, pelo modo como o discurso se apresenta: em prosa ou em verso. Poderíamos, vale repetir, colocar a obra de Heródoto em versos que isso não faria dele um poeta. Mas no que, então, o poeta e o historiador se diferem exatamente? Vejamos o que esse longo e famoso trecho do livro diz:

       Do que foi dito, também fica evidente que não é função do poeta realizar um relato exato dos eventos, mas sim daquilo que poderia acontecer e que é possível dentro da probabilidade ou da necessidade. O historiador e o poeta não se diferenciam pelo fato de um usar a prosa e o outro, versos. A obra de Heródoto poderia ser versificada, o que não seria menos obra de história, estando a métrica presente ou não. A diferença está no fato de o primeiro relatar o que aconteceu realmente, enquanto o segundo, que poderia ter acontecido. Consequentemente, a poesia é mais filosófica e mais séria do que a história, pois a poesia se ocupa mais do universal ao que a história se restringe ao particular. (Aristóteles, 2011, p. 55)

       Descrita como sendo mais elevada e mais filosófica do que a história, a poesia ganha um estatuto, como estamos vendo, diferente daquele que encontramos no Livro X da obra A República. Para Aristóteles, o poeta não nos ilumina sobre o passado como o historiador faz muito bem, dizendo como as coisas aconteceram em um momento por vezes remoto. O poeta nos ensina sobre nós mesmos, como indivíduos humanos; ele não fala do ocorrido, mas sobre como as coisas poderiam acontecer, Diferença fundamental. Os personagens da tragédia, desse modo, devem ser encarados como emblemáticos, no sentido em que são arquétipos ou tipos humanos e por isso guardam em si a mesma universalidade que o discurso filosófico. Isso não quer dizer que este discurso seja idêntico ao poético. Longe disso. Nesse ponto, estamos mais uma vez de acordo com Marilena Chaui, quando diz que A poesia, ao contrário da Filosofia, não é um conhecimento teórico da natureza humana, mas imita ações e sentimentos, feitos e virtudes, situações e vícios dos seres humanos (Chaui, 2002, p. 483). A poesia não trabalha com conceitos nem tem afinidades com cosmologias; ela é imitativa, porém, é um tipo de imitação cuja pretensão de universalidade a aproxima da atividade filosófica. Guardada a diferença entre filosofia e poesia, importa insistir sobre o seguinte ponto: a poesia tem, sim, uma pretensão que a aproxima da atividade filosófica – atingir o universal, o que a diferencia do trabalho do historiador. Universal aqui é entendido como manifestação de tipos humanos ou, se preferirmos, uma categoria universal do humano. Uma tragédia como Édipo rei (Sófocles, 2015) por exemplo, ainda que fale do indivíduo Édipo e dele narre as aventuras, trata de algo mais amplo do que a individualidade do personagem, ou seja, do destino humano.

       O personagem aparece na poesia como trampolim para que a narração tenha uma forma específica e atinja o público em suas emoções, porém, esse mesmo personagem é o mote para que o universal se manifeste. O historiador, por seu lado, fala simplesmente de indivíduos, isto é, fica restrito ao âmbito particular. Ele nos fala de Alcibíades, Péricles ou Demóstenes, mas somente com base em seus feitos, índole e relevância de cada um deles para a história. Já o poeta usa um homem específico para tratar de algo mais amplo e filosófico. Eis a diferença central entre poesia e história.”

*: Quando nos referimos à poesia na Grécia arcaica isso não quer dizer que falamos de uma atividade poética que se assemelhe àquela que vemos nos dias de hoje. Perceba, por exemplo, que enquanto arte imitativa, a pintura, a música e o teatro também serão considerados por Aristóteles como poesia (poiesis). O teatro usará gestos, a música utilizará o ritmo, a dança tanto o ritmo quanto o gesto e a escultura, por fim, as formas e as cores: tudo isso será tido por poesia.

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        “O romance tem uma linguagem e uma verdade que lhes são específicas; ele fala algo que só pode ser transmitido pelas especificidades que lhes são únicas: nunca deixarei de repetir que a única razão de ser do romance é dizer aquilo que apenas o romance pode dizer (Kundera, A arte do romance, 2009, p. 40). Estamos falando de um discurso que se filia à imaginação, se insere na existência ficcional de um personagem ou, de acordo com Milan Kundera, exercita um tipo de meditação que é de caráter hipotético, imaginativo:

       Existe uma diferença fundamental entre a maneira de pensar de um filósofo e a de um romancista. Fala-se frequentemente da Filosofa de Tchekhov, de Kafka, de Musil etc. Mas experimente extrair uma Filosofia coerente de seus escritos! Mesmo quando exprimem diretamente suas ideias em seus livros, essas são mais exercícios de reflexões, jogos de paradoxos, improvisações que a afirmação de um pensamento. (Kundera, 2009, p. 77)

       Essa parece ser a mesma oposição explicitada por Paul Valéry (Variedades, 1999), ainda que ele não seja adepto dela. Pensamento abstrato de um lado e, no outro polo, o pensamento lírico. O romance, segundo Kundera, não seria lugar para disseminação de ideias filosóficas nem para a defesa de teses teóricas que se pretendam universais. Agora temos argumentos suficientes para dizer que o romanesco enfrenta o mundo como uma ambiguidade, como um modo de explicitar a vivência de um personagem em toda sua contradição: essa é sua especificidade. Não temos uma atmosfera propícia para a argumentação inequívoca que esperamos, como é natural no caso da filosofia, por uma conclusão apoiada em premissas previamente aceitas.

       Kundera, ademais, é radicalmente contra a literatura como ferramenta política. No seu dicionário de termos, de fato, podemos ler no verbete ideia: A aversão que experimento por aqueles que reduzem uma obra a suas ideias. O horror que tenho de ser arrastado ao que se denomina ‘debates de ideias’. O desespero que me inspira a época obscurecida pelas ideias, indiferente às obras (Kundera, 2009, p. 123). Note que a afirmação citada não usa argumentação lógica para defender algum ponto. O autor recorre repetidamente a sentimentos particulares para expor sua posição: ele fala em aversão, horror e até mesmo desespero, termos usados para mostrar como ele percebe a intromissão de teses que podemos chamar de filosóficas em uma obra romanesca.

       O adversário do autor, por assim dizer, parece ser a perspectiva daquele que percebe na literatura algum grau de engajamento legítimo que a lançaria para além da arte. Ainda segundo o dicionário de termos de Kundera, especificamente no verbete misomusa, lemos que sujeitar a arte à política seria um modo de manifestação de ódio para com ela; em outras palavras, seria uma forma de reduzi-la. A doutrina da arte engajada: a arte como meio de uma política. Professores para quem uma obra de arte não é senão um pretexto para o exercício de um método (psicanalítico, semiológico, sociológico etc.) (Kundera, 2009, p. 131).

       Preservar o aspecto estético da linguagem romanesca é evitar sujeitá-la à prática política, é deixá-la aberta para a imaginação e o sonho que, de fato, em muitos casos pode mesmo preceder e motivar o sentido de uma obra de romance. O leitor não pode exigir da investigação existencial romanesca quaisquer respostas argumentadas ou passos lógicos que orientaram de modo rígido a exposição de alguma tese universal. O caso é outro: É preciso, portanto, ler essa narrativa (a romanesca) deixando-se transportar pela imaginação. Sobretudo não como um enigma a decifrar. Foi esforçando-se para decifrá-lo que os kafkólogos mataram Kafka (Kundera, 2009, p. 124). Esse assassinato simbólico não foi da pessoa, naturalmente, mas do romancista. Os especialistas dos textos de Kafka constrangeram sua produção literária e acabaram por reduzi-la a uma mera exposição de ideias, algo que ela não poderia comportar e, segundo a maneira de ver de Kundera, essa aproximação com a filosofia significa o aniquilamento do romance.”

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        “O filósofo posiciona-se como um juiz e confere valor, articula conceitualmente a realidade e tem um olhar sistemático sobre o mundo. O poeta trabalha com o ambíguo, é criador de fantasias e não se insere em um sistema. Caberia à literatura o papel do entretenimento estético, sem a sistematicidade exigida em um discurso lógico universalizante.

       Razão de um lado e imaginação de outro: eis o que separaria inequivocamente esses dois tipos de discurso. Citando Antoine Compagnon (2012, Literatura para quê? p. 64): A Literatura desconcerta, incomoda, desorienta, desnorteia mais que os discursos filosófico, sociológico ou psicológico porque ela faz apelo às emoções e à empatia. O esquema a seguir mostra as diferenças estruturais, segundo a perspectiva disjuntiva, entre esses dois termos.”

 

Quadro 3.1 – Características específicas segundo a perspectiva disjuntiva

Filosofia – Literatura

Universalidade – Particularidade

Razão – Imaginação

Conceitos – Figuras de linguagem

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        “3.5 – Caio Prado Junior e o objeto da filosofia

       Caio Prado Junior, no livro O que é filosofia?, apesar de aceitar a relação entre filosofia e literatura, separa as duas ciências. A primeira, para ser mais pura, deveria investigar o que ele chama de objeto último e profundo da especulação filosófica para o qual converge e onde se concentra a variegada problemática de que a Filosofia vem através dos séculos e em todos os lugares se ocupando (Prado Junior, 1991, p. 8). Que objeto é esse com o qual deveria se ocupar a Filosofia? O conhecimento do conhecimento. Devemos nos explicar melhor. O objetivo dessa atividade, para o autor, seria uma investigação conceitual, tendo como enfoque o mesmo objeto das ciências, mas, diferente da física ou da química, é predominantemente teórico e busca ele mesmo explicitar em sua completude ideias que orientam nossa experiência e mesmo o fazer científico.

       Se o historiador se interessa por um acontecimento que tomou lugar em certo tempo, o filósofo, diferentemente, se perguntará sobre o estatuto do tempo. Se o físico e o químico estudam os componentes da natureza, para Caio Prado Junior, o filósofo voltará sua atenção para o modo como chegamos ao conhecimento das coisas. Estamos diante de um olhar que se interessa pelo essencial, o originário. Se o poeta, enfim, fala do amor tal qual ele entende, talvez até de maneira contraditória, o filósofo, como estamos vendo, terá preferência pela origem das emoções. Esses seriam exemplos de questões filosóficas por excelência. Características que limitam a produção desse ramo do conhecimento a um estudo eminentemente conceitual epistemológico. Não à toa, ética e filosofia política não são contempladas suficientemente pelo livro citado.”

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        “Já para o filósofo francês Jean-Paul Sartre, a literatura não poderia ficar isolada de seu contexto sociopolítico. Vejamos brevemente sua posição, pois, ao que parece, se contrapõe diretamente àquela de Milan Kundera. No ensaio Que é literatura?, Sartre (2004) estabelece sua posição sobre o tema. (…)

       Seria mesmo difícil, para Sartre, falar em literatura não engajada, isso porque todos estaríamos, de alguma maneira, comprometidos com a realidade que nos cerca: O homem é o ser em face de quem nenhum outro ser pode manter a imparcialidade, nem mesmo Deus. Pois Deus, se existisse; estaria, como bem viram certos místicos, em situação em relação ao homem (Sartre, 2004, p. 21). Toda pessoa, portanto, uma vez inserida em certo ambiente sociocultural, se engaja em uma relação com outras pessoas. O mesmo se passa com a literatura.

       A literatura tem uma função social, e a produção resultante dela pode ser caracterizada como uma forma de apelo, um comunicado, e justamente por isso é uma forma de engajamento. O escritor deve confrontar sua própria época colocando-se, dessa maneira, em relação ao seu tempo. Sem tirar todas as implicações do pensamento de Sartre, podemos dizer que o escritor, no momento mesmo em que se dispõe a escrever algo, que se coloca na situação de comunicante, enfim, é revestido de engajamento político. Mesmo deixar de dizer, nesse quadro, é tomar uma posição em relação ao mundo: Mas desde já podemos concluir que o escritor decidiu desvendar o mundo e especialmente o homem para os outros homens, a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade (Sartre, 2004, p. 21).

       Sartre segue dizendo, duas páginas adiante da citação anterior, marcando ainda mais sua posição, que arte pura e arte vazia seriam sinônimas. Ninguém escreve um livro para não falar de nada. O caso é que não podemos fugir do engajamento com o mundo; à força ou de bom grado todo escritor está engajado (Sartre, 2004, p. 53). A ele, portanto, cabe o enfrentamento de sua tarefa. O autor não pode escapar para o reino do lirismo, fingindo que não precisa se comprometer com a realidade e os outros homens. Em uma sentença lapidar, Sartre afirma como escritor e para os escritores que Nosso papel está definido: enquanto negatividade, a Literatura questionará a alienação do trabalho; enquanto criação e superação, apresentará o homem como ação criadora e o acompanhará em seus esforços para superar a alienação presente, rumo a uma situação melhor (Sartre, 2004, p. 173).”

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        “Quem nunca ouviu alguém dizer que sobre religião, política e futebol não se discute? Contudo, essa postura não parece filosófica, pois se esconde sem dar a chance de conhecer o diferente, sem promover uma autocrítica motivada pelo que é distinto de nós mesmos.”

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        “É pelo olhar do outro que a verdade melhor pode irromper para mim mesmo.”

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