Lista de Livros: Fundamentos do Materialismo Dialético (Parte I), de Nelson Werneck Sodré

A categoria de matéria é um conceito amplo: não se restringe a um objeto ou processo isolado, nem a um grupo de objetos ou fenômenos mas, ao contrário, abarca toda a realidade objetiva.

Seleção de Doney

Lista de Livros: Fundamentos do Materialismo Dialético (Parte I), de Nelson Werneck Sodré

Editora: Civilização Brasileira

Opinião: bom

Páginas: 220

 “A experiência que o homem pôde tirar da vida, mais o desenvolvimento da ciência e da prática, foram, paulatinamente, convencendo-o de que, por mais distintos que fossem os objetos e fenômenos, por mais diferentes que fossem suas propriedades, eram todos materiais, existiam fora e independentemente de sua consciência. Dessa maneira, as ciências naturais demostraram irrefutavelmente que a terra já existia milhões de anos antes que o homem e os seres vivos em geral aparecessem sobre ela. Isso significava que a matéria e a natureza são objetivas, não dependem do homem ou de sua consciência e que a própria consciência não é mais que um produto do desenvolvimento prolongado do mundo material. A propriedade comum a todos os objetos e fenômenos — de serem realidade objetiva, existirem fora de nossa consciência e serem refletidos por ela — expressa precisamente o conceito ou categoria filosófica de matéria.

A categoria de matéria é um conceito amplo: não se restringe a um objeto ou processo isolado, nem a um grupo de objetos ou fenômenos mas, ao contrário, abarca toda a realidade objetiva. Abstraindo-se das particularidades, propriedades e aspectos conhecidos dos objetos, de seus nexos e inter-relações concretas, expressa o comum, o principal de todos esses objetos: a objetividade, ou seja, sua existência independente da consciência do homem. O conceito de matéria dá não só uma ideia das propriedades comuns do mundo objetivo como tal mas, também, uma importantíssima categoria do conhecimento. Ao reconhecer no homem sua capacidade para conhecer o mundo e indicar a fonte de nossos conhecimentos, constitui, ainda assim, a base para resolver as questões mais importantes da teoria do conhecimento do materialismo dialético. O reconhecimento da objetividade do mundo circundante e a atitude do entendimento humano para conhecê-lo, constituem os princípios básicos da concepção materialista dialética do mundo. Isso significa que o conceito de matéria — reflexo desses princípios importantíssimos — é, precisamente a categoria central, a mais importante — do materialismo dialético.

O alcance do conceito de matéria é grande, também, para outras ciências, particularmente para as naturais. Qualquer ciência acabaria por se converter em jogo sem estrutura do gênio humano, caso não estudasse todos os aspectos da realidade objetiva. Lênin deu uma definição autenticamente científica e completa da matéria, no livro Materialismo e Crítica Empírica. Escreveu: “A matéria é uma categoria filosófica que serve para designar a realidade objetiva que é dada ao homem em suas sensações, que é copiada, fotografada, refletida por nossas sensações e que existe independente delas”. É difícil subestimar a importância da definição leninista da matéria. Ao generalizar a experiência multissecular da humanidade, atingiu os homens pela compreensão acertada do mundo circundante. Ensina-lhes, tanto na prática como na cognição, a partir da realidade e das condições materiais objetivas, e não das ideias subjetivas. Ao afirmar a cognoscibilidade do mundo, oferece ao entendimento humano perspectivas ilimitadas, desperta o pensamento, ajuda o homem a penetrar os profundos enigmas do mundo. A definição leninista de matéria reflete a contradição radical entre o materialismo dialético e o idealismo ou o agnoticismo.” (Afanasiev: Filosofia. págs. 57-59).

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“As ciências naturais estudam o mundo real e objetivo, seus seres multiformes, sua estrutura e propriedades, suas relações mútuas e sua sujeição a leis. A ciência não poderia existir se não se reconhecesse que o mundo que nos rodeia possui realidade objetiva. O conceito de matéria reflete essa realidade objetiva.” (Konstantinov: Fundamentos, págs. 120-126)

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Movimento e mudança

Estudando os multiformes fenômenos naturais, é fácil advertir que todos eles estão em movimento, que são objeto de incessantes mutações. Procurem encontrar um objeto que esteja absolutamente imóvel. Pode-se dizer, com toda segurança, que tal propósito fracassará. É certo que os corpos podem encontrar-se em estado de quietude, mas a imobilidade é sempre relativa; os corpos só podem estar imóveis em relação a qualquer sistema de coordenadas aceito condicionalmente como imóvel. Uma pedra no caminho, por exemplo, está imóvel em relação à Terra; mas, junto com esta, gira, diariamente, em torno do eixo terrestre e, anualmente, ao redor do Sol. O sol se move na galáxia e esta descreve, por sua vez, uma trajetória complicada entre outros sistemas estelares. Atendo-nos inclusive, à forma mecânica mais simples de movimento, é impossível encontrar objetos absolutamente imóveis, pois, nos corpos, operam-se também mudanças mais complexas, físicas e químicas: movimentos de átomos, de moléculas e de partículas elementares. Mais complexo ainda é o movimento na natureza viva e na sociedade. Nos organismos de pessoas e animais, operam-se complicados processos fisiológicos. No desenvolvimento da natureza viva, umas espécies são substituídas por outras. Na história da humanidade existe um desenvolvimento e renovação constante de todos os aspectos da vida social: econômico, político e cultural. Nem um só dia se estanca a atividade cognoscitiva dos homens. Com o desenvolvimento das relações sociais, muda também o próprio homem: suas concepções, ideais, condição moral e conduta.

O mundo material nos oferece como que um quadro grandioso do movimento e mudanças universais, em que não existe nada estático, imutável, dado de uma vez e para sempre. Heráclito, filósofo da antiga Grécia, dizia mundo, tudo flui, tudo muda. O próprio fato da universalidade do mundo nos faz pensar que a matéria e o movimento estão indissoluvelmente relacionados, que são inseparáveis. E assim é, na realidade, pois a ciência contemporânea estabeleceu irrevogavelmente que a matéria só pode existir em movimento. Se, por casualidade, sucedesse o impossível e todos os processos se detivessem durante certo tempo isto equivaleria ao desaparecimento completo do próprio mundo, da realidade objetiva, da matéria. Em verdade, assim é. Que representa o núcleo do átomo? Um conjunto de partículas elementares, núcleons, retidos em um todo pelas forças nucleares surgidas no processo de seu movimento. A cessação desse movimento provocaria a desintegração do núcleo, o átomo deixaria de subsistir. Sem movimento é, também, inconcebível o campo eletromagnético e a luz, que é um fluxo de partículas, os fótons, que existem só em movimento. Quaisquer que? sejam os objetos e fenômenos materiais que estudemos, chegaremos a esta inelutável conclusão: ser, existir, significa encontrar-se em movimento. O movimento, entendido como mudança em geral, como eterno processo de renovação e é parte inalienável, propriedade cardeal da matéria, forma universal (modode sua existência.” (SHAJNAZAROV: Ciência, págs. 13-14).

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“Jamais existiu, nem pode existir, matéria sem movimento. A matéria é inseparável do movimento. Ou, com outras palavras: o movimento é o modo eterno de existência da matéria. Para o materialismo dialético, o movimento não se reduz simplesmente ao deslocamento mecânico dos corpos no espaço, mas se entende por ele toda mudança em geral. Por esse motivo, escreve Engels: “O movimento, no sentido mais amplo da palavra, concebido como modo de existência da matéria, como atributo a ela inerente, compreende mudanças e processos que se operam no universo, da simples mudança de lugar ao pensamento”. À grande diversidade e variedade de fenômenos da natureza corresponde, também, a existência de uma multidão de formas diversas do movimento da matéria.” (Konstantinov: Fundamentos, págs. 126-129).

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O papel de Hegel

Apesar de sua significação histórica progressista, que já explicamos, o materialismo dos séculos XVII e XVIII padecia o defeito de considerar os fenômenos da natureza do ponto de vista metafísico. Nos fins do século XVIII e começos do XIX, os representantes mais avançados das ciências naturais, da Filosofia e do pensamento social começaram a superar, em maior ou menor medida, a maneira metafísica de pensar. Foi abrindo caminho cada vez mais, a ideia do desenvolvimento da natureza e da sociedade. À crítica das concepções metafísicas e à preparação teórica do método dialético contribuíram consideravelmente os representantes da Filosofia clássica alemã, Kant, Fichte, Schelling e, em particular, Hegel. Os acontecimentos histórico-sociais daquele tempo, especialmente a revolução industrial da Inglaterra e a grande revolução burguesa de 1789 a 1794 na França, deixaram claro que a sociedade não é algo imutável, mas que se acha sujeita a um processo de progressivo desenvolvimento. A revolução francesa exerceu poderosa influência no espírito dos homens daquele tempo e sobre o desenvolvimento do pensamento filosófico. A Filosofia clássica alemã, de Kant até Hegel, desenvolveu-se tanto ao influxo da vida social da Alemanha como sob a ação da revolução francesa e dos acontecimentos que a provocaram. (…)

Cada nova descoberta alcançada na prática das investigações científicas revelava mais e mais a limitação e a unilateralidade da interpretação metafísica da natureza. As matemáticas, enriquecidas pelas grandes descobertas de Descartes, Leibnitz, Newton, Euler e muitos outros eminentes sábios dos séculos XVII e XVIII, foram a primeira ciência especial que se aproximou espontaneamente da dialética. Assim compreendeu já Hegel, que se aplicou tenazmente ao estudo da ciência matemática e nela se apoiou para elaborar a sua dialética. (…) Os filósofos idealistas alemães, em oposição a seus sistemas especulativos, submeteram à crítica o método metafísico do pensamento, enriqueceram a Filosofia com a ideia do desenvolvimento dialético, criaram o método dialético (sob sua forma idealista), e trouxeram, com isto, valiosa contribuição à história do pensamento filosófico mais avançado. (…)

A dialética, sob sua forma idealista, alcança seu grau mais alto de desenvolvimento na Filosofia de George Wilhelm Friederich Hegel (1770-1831). Hegel é o representante da filosofia do idealismo objetivo. Suas obras principais são a Fenomenologia do Espírito (1806), a Ciência da Lógica (1812-1816), a Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817), que consta de três partes — a Lógica, a Filosofia da Natureza e a Filosofia do Espírito — a Filosofia do Direito (1821), as Lições da História da Filosofia (1833-1836), a Filosofia da História (1838) e as Lições de Estética (1836-1838). Em relação ao sistema idealista hegeliano, todos os fenômenos da natureza e da sociedade têm seu fundamento no Espírito universal. Hegel chama a esse “Espírito universal” a Ideia absoluta, o Espírito absoluto e, às vezes, Deus.

O traço característico essencial da filosofia idealista de Hegel consiste em que esse pensador considera a ideia absoluta, o espírito absoluto, em movimento, em um processo de desenvolvimento dialético. Sua teoria do “devenir” (Werden), a ideia de desenvolvimento, forma a medula da dialética idealista hegeliana e se orienta integralmente contra a metafísica. No modo dialético de Hegel, revestem especial importância os três princípios do desenvolvimento por ele considerados e que interpreta idealisticamente como o movimento do próprio conceito, a saber: a mudança da quantidade em qualidade, a contradição como fonte de desenvolvimento e a negação da negação. Nestes três princípios, Hegel descobre e formula, ainda que sob forma idealista, as verdadeiras leis universais do desenvolvimento. Pela primeira vez na história da Filosofia, ensina-se que a fonte, o motor do desenvolvimento é a contradição interna inerente aos fenômenos. Este pensamento hegeliano, o pensamento da natureza contraditória, implícita no desenvolvimento, representa valiosíssima aquisição, inapreciável, da Filosofia. (…) Hegel enriqueceu, pois, a Filosofia, com a elaboração do método dialético. Em sua dialética idealista se encerrava um profundo conteúdo racional. Seu exame dos conceitos fundamentais da Filosofia e das ciências naturais levou-o, até certo ponto, a uma interpretação dialética da natureza, ainda que seu sistema negasse o desenvolvimento desta no tempo. (…)

A filosofia hegeliana encerra uma contradição entre o caráter metafísico do sistema e a natureza dialética do método. O sistema metafísico de Hegel nega, como vimos, o desenvolvimento na natureza. Seu método dialético, em troca, reconhece o desenvolvimento, a mudança de uns conceitos em outros, sua ação mútua e seu movimento, que vai do simples ao complexo. Hegel só vê o desenvolvimento da vida social no passado. Considerava a monarquia constitucional prussiana por estamentos como o cimo da história da sociedade e seu próprio sistema do idealismo objetivo como coroamento de toda a história da Filosofia. Daí porque, em Hegel, o sistema acaba triunfando, em resultado final, sobre o método. Na teoria idealista hegeliana da sociedade, em sua Filosofia do Espírito, entretanto, encontram-se muitas valiosas ideias dialéticas sobre o desenvolvimento da vida social. Hegel formula o pensamento da sujeição a leis do processo histórico. A sociedade civil, o Estado, as ideias jurídicas, estéticas, religiosas e filosóficas percorreram, segundo a dialética hegeliana, longo caminho de desenvolvimento histórico. “A Filosofia alemã — diz Engels — encontrou seu remate no sistema de Hegel, em que, pela primeira vez e esse é o seu grande mérito — concebe-se o mundo todo da natureza, da história e do espírito como um processo, quer dizer, como um mundo sujeito a constante alteração, a mudanças, transformações e desenvolvimento constante, intentando, ademais, pôr em relevo a íntima conexão que preside esse processo de desenvolvimento e mudança. Contemplada desse ponto de vista, a história da humanidade já não aparecia como um caos árido de violências absurdas, todas igualmente condenadas ante o foro da razão filosófica madura e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de desenvolvimento da própria humanidade, que cabia ao pensamento seguir, em suas etapas graduais e através de todos os extravios, até descobrir as leis internas por que se regia tudo aquilo que, à primeira vista, se pudesse crer obra do cego azar. Não importa que o sistema de Hegel não resolvesse esse problema. Seu mérito, que marca época, consistiu em tê-lo colocado”. (Konstantinov: Fundamentos, págs. 72-78).”

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“A consciência, portanto, não é simplesmente uma propriedade do cérebro, mas uma qualidade do cérebro que colabora com o mundo material. A consciência é a capacidade da matéria altamente organizada para refletir o mundo exterior em imagens ideais. Graças a ela, o homem conhece o mundo circundante e suas leis, organizando seu trabalho prático. (Shajnazarov: Ciências, págs. 25-26).”

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“Os pensamentos, as sensações, as noções, a vontade, são a consciência. Possui-as, antes de tudo, o homem. Se não há um ser que sinta, não haverá sensações; se não há quem deseje, quer dizer, o homem, não haverá desejos. Não há vontade onde não existe um ser que deva manifestar essa vontade. A margem do homem, fora dele, não há nem vontade, nem sensações, nem desejos, nem nenhuma outra manifestação de consciência, de psique, de pensamento. Vocês sabem que a natureza, a matéria existia já antes que aparecessem o homem e sua consciência, sua psique. Isto mostra claramente que a natureza, a matéria, é o primário, e que a consciência, o pensamento, é o secundário. Mas pode surgir uma pergunta: tinham os seres vivos consciência de que existiam antes que o homem? Sim, os animais também possuem alguns germes de consciência. A sensação da cor e do cheiro e certa inteligência lhes são inerentes, por exemplo. Mas, inclusive estes germes de consciência apareceram faz pouco, relativamente: ao surgirem os animais. Do dito se deduz que a natureza existiu não só antes que o homem, mas, em geral, antes que os seres vivos e, por consequência, independentemente da consciência. É o primário. Mas a consciência não pôde existir antes da natureza. É o secundário. Encontramo-nos diante de uma das demonstrações mais importantes da solução materialista do problema principal da Filosofia. Mas não é a única. Vocês conhecem algumas delas, através da experiência cotidiana. (…)” (Yajot: Materialismo, págs. 70-72).

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“Ainda que nossos sentidos não percebam diretamente a consciência mesma dos demais homens, percebem-se seus atos reais, sua conduta, assim como a linguagem com que expressam suas mútuas relações e seus nexos com o mundo circundante. A atividade do indivíduo, o caráter de suas relações mútuas com os demais homens e de sua conexão com o meio que o rodeia colocam em relevo os traços essenciais da consciência desse indivíduo. Não é em vão que se costuma dizer: “Para conhecer alguém, olha o que ele faz”. O exame escrupuloso da atividade prática dos homens, de sua interdependência e de seus vínculos com o meio ambiente — natural e social — (e tudo isso se pode estudar com métodos objetivos), resulta muito mais fecundo para a consciência, do ponto de vista de seu estudo, do que a auto-observação do que nela acontece.” (Konstantinov: Fundamentos, págs. 155-159)

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A consciência como reflexo

A consciência é, portanto, produto da atividade cerebral, mas só surge e se forma no cérebro em virtude dos nexos materiais que ligam este ao mundo exterior. Graças aos órgãos sensoriais periféricos — os olhos, o ouvido, as mucosas nasais, as papilas da língua, as terminações nervosas da pele, etc. — o cérebro pode vincular-se ao mundo exterior. Só quando a excitação nervosa, provocada pela ação estimulante de certos agentes materiais sobre os órgãos dos sentidos, chega ao cérebro, surgem nele as sensações. Assim, por exemplo, as sensações auditivas são suscitadas pelas ondas sonoras que atuam sobre o ouvido; as olfativas são originadas pela ação das partículas materiais sobre as cédulas olfativas, situadas nas cavidades nasais do nariz, etc. A fonte das sensações é, por conseguinte, o mundo exterior, a matéria, o meio material, os fenômenos e objetos que o compõem. As sensações constituem a forma elementar da consciência, sobre cuja base surgem todos os demais fenômenos, mais complexos, dela. Sem as sensações, o conhecimento seria impossível. Só mediante as sensações, adquire a consciência seu conteúdo integral e toda a sua riqueza. Quanto mais amplos e diversos sejam os vínculos que a unem ao mundo circundante, tanto mais impregnada estará de conteúdo. (…)

As sensações e percepções não concordam com os objetos exteriores, da maneira como os sinais ou signos convencionais com as coisas a que se referem, mas como as cópias que correspondem a determinados objetos. As sensações e percepções são cópias, fotografias ou imagens dos objetos materiais. Esta tese constitui um dos pilares da teoria dialético-materialista do conhecimento. Sua veracidade foi comprovada de modo irrefutável pelas ciências naturais. (…)

O homem não é só um ser biológico, mas também social. Seus órgãos sensoriais não somente são fruto da evolução biológica, também o são do desenvolvimento da sociedade. Ao atuar sobre a natureza, o homem se transforma a si mesmo e transforma, ao mesmo tempo, seus órgãos dos sentidos. O olho da águia vê mais longe que o débil olho humano: a águia não vê nas coisas, no entanto, a centésima parte do que o homem pode ver. Assim como o ouvido, o tato e o olfato, a vista é fruto do desenvolvimento histórico humano. Todos os homens têm sensações e percepções, mas o pintor pode distinguir mais matizes cromáticos que os demais. Muitos animais captam um sussurro apenas audível, mas o homem cultivado musicalmente pode escutar mais sons que o finíssimo ouvido de um animal como o cachorro. A percepção do mundo pelo homem não é passiva, contemplativa, como um espelho inerte, mas uma percepção ativa. No processo de sua atividade transformadora social, o homem percebe os objetos e fenômenos do mundo circundante. Isso lhe permite conhecer mais a fundo o mundo, Nesse processo de percepção do mundo que o rodeia, desempenham função muito importante não só os objetos percebidos e os órgãos sensoriais, mas toda a experiência histórica acumulada pelo homem e a humanidade. (…)

Nosso cérebro possui a faculdade de formar representações, quer dizer, imagens dos objetos que, em dado momento, não provocam sensações em nós. Ainda que essas imagens pareçam produto da auto-atividade arbitrária da consciência, não é assim na realidade. Só podemos representar-nos os objetos que alguma vez provocaram, efetivamente, sensações em nós, deixando suas marcas gravadas em nosso cérebro. As representações, como as sensações e percepções que lhes servem de base, são reflexos, imagens do mundo material. (…) Posto que as representações não dependem da existência das sensações em um momento dado, desfrutam de relativa autonomia e podem ser combinadas de modo arbitrário em nossa mente. A imaginação humana pode associar elementos de representações muito diversas, formadas à base dos fenômenos sensoriais e perceptivos que se deram em alguma ocasião; mas, em última instância, todos esses elementos refletem a realidade objetiva. Até a fantasia mais desenfreada tem que ver com o material apresentado pelas sensações, daí que reflete também o mundo exterior. (…) Diferentemente das sensações e percepções, as representações não refletem os objetivos e fenômenos do mundo exterior com toda a diversidade de seus traços singulares, mas prescindem de alguns detalhes. Certos traços geraistípicos, dos objetos e fenômenos semelhantes situam-se em primeiro plano. O pensamento que opera com conceitos é também reflexo do mundo exterior. Sem as sensações, não seria possível este modo de refletir a realidade. Mas o pensamento não tem um caráter concreto-sensível, como as sensações, percepções e representações; reflete não só as coisas e fenômenos singulares, mas, antes de tudo, o que há de geral nisso, sua essência interna, seus nexos próprios e as leis que os regem. O pensamento alcança esse reflexo generalizado da realidade mediante os conceitos. (Konstantinov: Fundamentos, págs. 162-168).”

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“A tese de que a consciência reflete o mundo material constitui o próprio fundamento da teoria materialista do conhecimento. Se a consciência reflete o mundo exterior, tem, então, caráter derivado, em relação a ele; o mundo, ao contrário, tem existência objetiva e independente da consciência, já que a imagem reflexa não pode existir sem o refletido, enquanto que o que se reflete existe independentemente de seu próprio reflexo. Admitir isto significa repudiar o ponto de vista do idealismo e adotar o da filosofia materialista. (…) (Konstantinov: Fundamentos, págs. 175-182).”

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“A falha das velhas escolas materialistas estava em que sua maneira de pensar era predominantemente metafísica; não se achava armadas com um método acertado, dialético, de conhecimento. Chama-se método metafísico ao modo de abordar o estudo das coisas e dos fenômenos da natureza sem considerá-los em suas mútuas relações orgânicas, vendo neles algo substancialmente imutável e carente de contradições internas. Este método reflete, unilateralmente, alguns traços da realidade, registra a estabilidade relativa das coisas e faz caso omisso de seu desenvolvimento; destaca os elementos soltos e perde de vista o todo de que fazem parte.

O método de conhecimento oposto ao metafísico chama-se dialético. É o método que considera as coisas, os fenômenos e seus reflexos mentais, os conceitos, em suas mútuas relações e em movimento, em seu nascimento, desenvolvimento contraditório e desaparecimento. (…) Marx superou as limitações do velho materialismo. Enriqueceu o materialismo com a dialética, a doutrina mais multifacética e profunda a respeito do desenvolvimento. (Konstantinov: Fundamentos, págs. 25-26)”

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“Marx não se deteve, porém, no materialismo do século XVIII, levou a Filosofia mais adiante. Enriqueceu-a com as aquisições da Filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, que havia conduzido, a seu turno, ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições é a dialética, quer dizer, a teoria da evolução em seu aspecto mais completo, mais profundo e mais isento de estreiteza, teoria da relatividade do conhecimento do homem, que reflete a matéria em perpétuo desenvolvimento. As recentes descobertas das ciências naturais — o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos — confirmaram admiravelmente o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses e de seus “novos” retornos ao antigo idealismo apodrecido.

Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o a seu termo lógico, e estendeu-o do conhecimento da natureza ao conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx foi a maior conquista do pensamento científico. Ao caos e ao arbitrário que reinavam, até então, nas concepções da História e da política, sucedeu uma teoria científica marcadamente coerente e harmoniosa, que mostra como, de uma organização social, surge e se desenvolve, em consequência do crescimento das forças produtivas, outra forma, mais elevada — como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo. Assim como a consciência do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, quer dizer, a matéria em via de desenvolvimento, a consciência social do homem (quer dizer, diferentes opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas erigem-se em superestrutura sobre uma base econômica. (Lênin: Marxisme, págs. 72-73).”

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