Lista de Livros: Notícias do Império – Fernando del Paso

Seleção de Doney

Lista de Livros: Notícias do Império – Fernando del Paso

Editora: Record

ISBN: 978-85-0105-384-8

Opinião: muito bom

Páginas: 660

     “Mas estranho que o senhor considere os ingleses europeus. Em mais de um sentido, a Inglaterra não é a Europa. Digamos que podemos considerar os ingleses europeus quando nos convém e como bárbaros, vikings ou o que quiser quando for mais adequado para nossos interesses. Afinal, eles, e ninguém mais, são os culpados de que haja na América vinte milhões de ianques, os novos vândalos da história, que querem roubar todo o continente, a começar pelo nome, do qual já se apossaram.” 

*

      “O chanceler austríaco Klemens Lothar Metternich, apelidado de Grande Inquisidor da Europa, e a quem, graças à sua insistência e bom gosto, se deve a invenção do bolo de chocolate vienense Sachertorte, afirmava que o café devia ser quente como o amor, doce como o pecado e negro como o inferno.” 

*

      “E, sim, claro, os astecas também eram cruéis, não é verdade? Faziam sacrifícios humanos. Isso, claro, era errado. Mas o que não podemos permitir é que nós europeus continuemos a nos espantar com esses sacrifícios quando, na época em que soubemos deles, a Inquisição agia na Europa com todo o seu horror. Com uma diferença: a religião dos astecas era uma religião de deuses cruéis, portanto o sacrifício tinha uma lógica: macabra, sim, mas uma lógica. Nós, na Europa, torturávamos inocentes e queimávamos bruxas em nome de um Deus todo misericordioso.” 

*

      “Acaba de ser publicado um regulamento para os bailes à fantasia no jornal oficial, no que agora é chamado de Diário do Império… É muito curioso: é proibido fantasiar-se de sacerdote, freira, bispo ou cardeal… Mais que curioso, diria eu, é redundante, pois proíbe fantasiar-se com fantasias… pois são isso as batinas e os hábitos: fantasias de teatro. Recordo-me agora do que um amigo meu dizia sobre os jesuítas, que são talvez os mais perigosos de todos: sob o manto negro de Inácio de Loyola esconde-se a espada de Iñigo López.” 

*

      “Mas acontece algo muito irônico: quanto mais distinto e culto é um mexicano, menos mexicano ele é, e também menos parece importar a ele o futuro de seu país. O que interessa a eles é viver como europeus e que seus filhos sejam educados como tais.” 

*

      “Mas o que se pode esperar de um país onde todos os meses são descobertas e destruídas duas ou três máquinas para falsificar moeda e no qual essa arte era praticada desde o tempo dos astecas? Ou seja, aqui já se falsificava a moeda quando esta ainda não existia. Serei mais claro: naquela época o que fazia as vezes de moeda era o cacau – que agora descobri ser originário do México. Ou melhor, usava-se a semente de seu fruto, que é grande. Pois bem, você não vai acreditar, mas havia índios que faziam um buraco na semente, tiravam seu conteúdo, com o que é feito o chocolate, e depois enchiam o buraco com barro e disfarçavam o orifício.” 

*

      “‘Veja bem, o México’, dizia-me outro dia um importante geógrafo, ‘tem a forma de uma cornucópia’. Limitei-me a assentir, com um leve levantar de sobrancelhas. Não quis dizer ao bom homem, primeiramente, que o país adquiriu essa forma depois que os americanos roubaram metade do mesmo; segundo, que a boca da cornucópia está para cima, ou seja, voltada para os Estados Unidos, como uma premonição, talvez, do destino futuro das riquezas deste país.” 

*

      “Mas um pouco antes Mejía deu mostras de que não perdera o bom humor: quando Maximiliano, no convento, escutou uma trombeta e perguntou a ele se aquele seria o sinal de partida para o patíbulo, “o negrinho” respondeu: “Não sei, Vossa Majestade, é a primeira vez que me executam”.” 

  *

      “Morto o cão, dizem, acaba a raiva.”

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora