Lista de Livros: O império do capital, de Ellen Meiksins Wood

Desmanchando consensos, Ellen Meiskins Wood apresenta neste livro uma das mais respeitadas análises do imperialismo norte-americano

Seleção de Doney

Lista de Livros: O império do capital – Ellen Meiksins Wood

Editora: Boitempo

ISBN:978-85-7559-365-3

Tradução: Paulo Cezar Castanheira

Opinião: bom

Páginas: 152

Sinopse: Nesta era de globalização, ouvimos muito falar de um novo imperialismo e de seu principal impositor, os Estados Unidos. Hoje, com tal país a prometer uma guerra sem fim contra o terrorismo e a promoção de uma política de defesa preventiva, essa noção parece mais evidente do que nunca. Mas o que afinal pode significar imperialismo na ausência de conquista colonial e dominação imperial direta? Desmanchando consensos, Ellen Meiskins Wood apresenta neste livro uma das mais respeitadas análises do imperialismo norte-americano, para ela, um fenômeno absolutamente inédito na história mundial.

Descrito pelo historiador Robert Brenner como “o estudo mais convincente do imperialismo na sua fase atual – como surgiu, como opera, como difere das formas anteriores”, o livro investiga o novo imperialismo contra o fundo contrastante das formas mais antigas, desde a Roma antiga, passando pela Europa medieval, o mundo árabe maometano, as conquistas espanholas e o império comercial holandês. Pesquisando o nascimento de um imperialismo capitalista na dominação inglesa da Irlanda, Wood acompanha o seu desenvolvimento através do Império Britânico na América e na Índia.

A tese principal de Wood é de que a natureza específica do imperialismo norte-americano e, na prática, do império capitalista, é operar o máximo possível por meio dos imperativos econômicos, e não pelo domínio colonial direto. Assim afirma, sem hesitar que “os Estados Unidos foram o primeiro império verdadeiramente capitalista do mundo e que ainda está para ser substituído.”

Mesmo depois das invasões do Iraque e do Afeganistão, Wood mantém a tese ousada de que os Estados Unidos teriam preferido se manter fora de iniciativas coloniais, operando sua dominação por meio dos imperativos econômicos. Sem negar o extremismo temerário da era Bush – algo que inclusive atribui a causa provável da sua própria derrota –, Wood insiste nas continuidades com o governo Obama para ressaltar a essência de toda a política externa norte-americana do pós-guerra como pautada sempre por uma grandiosa visão imperial.

Durante o último meio século, a supremacia global foi o objetivo dos Estados Unidos. Com essa premissa, Wood retraça todo projeto norte-americano de hegemonia econômica global, apoiado por poderosa supremacia militar, desde o estabelecimento do sistema de Bretton Woods e a afirmação de sua blindagem militar com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, até as polêmicas da globalização financeira com a dissolução desse acordo.

Wood vai adiante e localiza uma contradição fundamental no desdobramento da hegemonia norte-americana: apesar de o objetivo do imperialismo norte-americano ser a hegemonia econômica sem dominação colonial, o capital global ainda – e hoje mais do que nunca – exige uma ordem política, social e legal rigidamente regulada e previsível. Um dos destaques de O império do capital é análise das dinâmicas da hegemonia imperial em tempos de dito declínio do Estado-nação, isto é ausência de algo que se assemelhe a um Estado global capaz de assegurar a ordem necessária, tal como o faz o Estado-nação para o capital nacional.

Esta edição conta ainda com um posfácio, inédito na edição original, em que a autora responde às principais críticas feitas a seu livro, além de um prefácio inédito escrito especialmente para edição brasileira, em que a autora reflete sobre o legado de sua obra e atualiza a discussão proposta pelo livro comentando fenômenos atuais como as políticas-econômicas adotadas pelos governos Lula e Dilma, as operações espionagem em massa que vieram à tona nos EUA de Obama e o crescente protagonismo da China na nova ordem mundial.

 

“Hoje talvez não seja tão fácil como já foi identificar os imperativos do capitalismo global com os interesses do capital norte-americano; mas os Estados Unidos foram o primeiro império verdadeiramente capitalista do mundo e ainda estão para ser substituídos. Dizer que eles foram o primeiro império capitalista não significa que tenham sido a primeira potência capitalista a possuir um império. A questão é, pelo contrário, o fato de os Estados Unidos terem dominado o mundo não pela colonização direta, mas em grande parte pela manipulação dos mecanismos econômicos do capitalismo. O Império Britânico, que antes nutrira a esperança de explorar a riqueza econômica da Índia sem incorrer nos custos da dominação colonial, viu-se obrigado a criar um despotismo militar de extração de tributos mais semelhante aos imperialismos tradicionais que a um novo modo de hegemonia capitalista. De modo geral, os Estados Unidos preferiram, sempre que possível, evitar a dominação colonial direta e se valer da hegemonia econômica – menos custosa, menos arriscada e mais lucrativa.”

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“O modo capitalista de imperialismo econômico é o primeiro imperialismo da história que não depende apenas da captura deste ou daquele território, ou da dominação de determinado povo. Cabe a ele supervisionar todo o sistema global de Estados e assegurar que o capital imperial possa navegar com segurança e lucratividade por todo esse sistema. Procura-se assim não somente resolver o problema dos Estados “bandidos” ou dos Estados “fracassados”, mas também manter os Estados subalternos vulneráveis à exploração. Ademais, para ser realmente eficaz, o imperialismo tem de estabelecer a supremacia política e militar de uma potência sobre todas as outras, porque, se o capital global precisa de um sistema ordenado de múltiplos Estados, é difícil ver como ele poderia tolerar um sistema no qual o poder militar é distribuído de forma mais ou menos igualitária entre os diversos Estados.

Então a primeira premissa da doutrina militar norte-americana, cujas raízes datam do final da Segunda Guerra Mundial, é que os Estados Unidos têm de ter tamanha superioridade militar que nenhuma outra potência, amiga ou inimiga, sequer tentaria desfiar ou igualar sua hegemonia global ou regional. O objetivo não é simplesmente impedir um ataque, mas prevenir toda e qualquer rivalidade. Em geral, outras potências capitalistas aceitaram esse sistema, embora seja verdade que, especialmente depois do desaparecimento da União Soviética, alguns dos principais aliados não tenham se mostrado tão complacentes assim. Mas, dadas as necessidades do capital global, não chega a surpreender que os principais aliados dos Estados Unidos – que sempre foram, ao mesmo tempo, seus principais competidores econômicos – tenham concordado, de forma geral, que o país deveria manter sua enorme preponderância militar e mais ou menos admitiram a própria subordinação militar.”

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“Houve um tempo em que não somente o governo colonial, mas também a exploração econômica de colônias por potências imperiais, era um negócio razoavelmente transparente. Quem observasse os espanhóis na América do Sul ou, mais tarde, os belgas no Congo, não teria dificuldade para entender os meios pelos quais a riqueza do súdito era transferida para o senhor. Sob esse aspecto, o imperialismo tradicional tinha muito em comum com certas relações internas de classe. Assim como não havia nada particularmente opaco nas relações entre os senhores feudais e os camponeses de cujo trabalho ou renda eles apropriavam, ou entre o Estado absolutista e os camponeses cujos impostos ele extorquia, a relação entre os senhores coloniais e seus súditos era razoavelmente clara: o primeiro exercia a força, até o genocídio, e compelia os outros a abrirem mão da sua riqueza.

No capitalismo moderno a relação de classe entre o capital e o trabalho é muito mais difícil de decifrar. Nesse caso, não existe transferência direta de trabalho excedente. Os trabalhadores não pagam rendas, nem impostos ou tributos aos seus empregadores. Não existe nenhum meio óbvio de distinguir entre o que os trabalhadores guardam para si e o que eles cedem ao capital. De fato, longe de extorquir renda dos trabalhadores, o empregador lhes paga sob a forma de salário, e esse pagamento parece cobrir todo o trabalho executado pelo trabalhador: um salário referente a oito horas, por exemplo, pelo trabalho executado em oito horas. Não é tão fácil deslindar como os trabalhadores criam a riqueza do capital por meio do trabalho pelo qual eles não recebem nenhuma recompensa ou, dito de outra forma, como o capital obtém mais benefício, sob a forma de lucro, do trabalho dos trabalhadores do que estes recebem sob a forma de salário. Pode ser evidente, para qualquer pessoa sensata, que a acumulação de capital não seria possível sem uma transferência líquida de trabalho excedente dos trabalhadores para os capitalistas. Mas a forma como isso se dá é muito menos clara. A teoria marxista do mais-valor é uma explicação convincente de como ocorre essa transferência, mas o fato de ser necessária uma teoria tão complexa para explicar o que deveria ser uma transação razoavelmente direta atesta a opacidade da relação entre capital e trabalho2. A cobrança de renda ou impostos de um camponês – onde é evidente que uma parte do que produz o camponês se destina ao pagamento do senhor ou do Estado, seja em produto, trabalho ou dinheiro – não exige uma teorização tão complexa.

Mais particularmente, na ausência de uma força coerciva direta exercida pelo capital sobre o trabalho, não é imediatamente óbvio o que poderia compelir o trabalhador a ceder o seu excedente de trabalho. A coerção puramente econômica que leva os trabalhadores a vender sua força de trabalho por um salário é muito diferente dos poderes políticos ou militares diretos que permitem aos senhores e Estados em sociedades não capitalistas extorquir renda, impostos ou tributos dos produtores diretos. Evidentemente, o trabalhador sem propriedade tem pouco espaço de manobra quando a venda da força de trabalho em troca de um salário é a única maneira de ter acesso aos meios de subsistência, ou mesmo aos meios de trabalho em si. Mas essa compulsão é impessoal; toda a coerção que opera aqui é, ou parece ser, imposta não por homens, mas por mercados. Diante dessa que ainda parece ser uma questão de escolha, a única relação formalmente reconhecida entre capitalistas e trabalhadores – em nítido contraste, por exemplo, com a relação juridicamente reconhecida de dominação e subordinação entre senhor feudal e servo – é uma transação entre indivíduos legalmente livres e iguais.

Este não é o lugar para explorar as dificuldades da teoria do valor ou da medição do mais-valor, que representa a exploração do trabalho pelo capital. A questão aqui é simplesmente que, reconhecendo ou não que tudo que se passa entre o operário e o capitalista é de fato exploração, a relação entre ambos não é transparente, e os meios pelos quais, justa ou injustamente, o capitalista apropria o que o operário produz são obscuros por sua própria natureza.

Muito se pode dizer igualmente, e pelas mesmas razões, acerca da natureza de imperialismo capitalista. Hoje é mais difícil que nos antigos impérios coloniais detectar a transferência de riqueza das nações mais fracas para as mais fortes. Mas, mesmo quando é dolorosamente evidente que ela ocorre, a forma como isso é realizado não é menos opaca que a relação entre capital e trabalho, e essa opacidade deixa muito espaço para negativas. Também nesse caso não há, tipicamente, uma relação de coerção direta. Também nesse caso, as compulsões têm maior probabilidade de serem “econômicas”, impostas não pelos senhores (diretamente), mas pelos mercados. Também aqui, a única relação formalmente reconhecida é a que existe entre entidades legalmente livres e iguais, como compradores e vendedores, tomadores de empréstimos e emprestadores, ou até mesmo entre Estados claramente soberanos.

O que torna a dominação de classe, ou o imperialismo, especificamente capitalista é a predominância da coerção econômica, que se distingue da coerção “extraeconômica”*. Ainda assim, isso não quer dizer, de forma alguma, que o imperialismo capitalista possa abrir mão da força extraeconômica. Primeiro, o capitalismo certamente não exclui formas mais tradicionais de colonização coercitiva. Pelo contrário, sua história, desnecessário dizer, é uma história sangrenta e muito longa de conquista e opressão colonial; e, de qualquer maneira, o desenvolvimento de imperativos econômicos suficientemente fortes para substituir formas mais antigas de dominação direta se deu em um período muito longo, só chegando à plena realização no século XX. Contudo, mais particularmente, mesmo nessa forma mais madura o imperialismo capitalista exige apoio extraeconômico. A força extraeconômica é claramente essencial para a manutenção da coerção econômica em si.”

2 Resumindo, Marx explica que os trabalhadores recebem por sua forma de trabalho, não pelos frutos do seu trabalho. O capitalista paga um salário para comprar aquela força de trabalho, geralmente por um período fixo de tempo, e assim ganha o controle sobre tudo o que o trabalho produz durante aquele tempo, que pode então ser vendido no mercado. O objetivo é, dessa forma, maximizar a diferença entre o que o capitalista paga pela força de trabalho e o que resulta dos produtos do trabalho.

*: Extração do excedente por coerção direta, como renda, imposto ou tributo, por meio de poder político e militar, de privilegio jurídico, de frutos de jurisdição etc.

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“O novo imperialismo se tornou o que é por ser a criatura do capitalismo, um sistema em que todos os atores econômicos – produtores e apropriadores – dependem do mercado para suas necessidades mais básicas. Trata-se de um sistema em que as relações de classe entre produtores e apropriadores, e especificamente a relação entre capitalistas e trabalhadores assalariados, também são mediadas pelo mercado, o que está em nítido contraste com as sociedades não capitalistas, nas quais produtores diretos tinham acesso por outras vias que não o mercado aos meios de produção, especialmente a terra, e portanto estavam protegidos das forças do mercado, enquanto os apropriadores dependiam da força superior para extrair trabalho excedente desses produtores diretos. No capitalismo, a dependência de produtores e apropriadores em relação ao mercado significa que eles estão sujeitos aos imperativos de concorrência, acumulação e produtividade crescente do trabalho; e todo o sistema – em que a produção competitiva é condição fundamental da existência – é movido por esses imperativos. O efeito é, entre outras coisas, uma relação distinta entre o poder político e o econômico, que tem consequências para as relações de classe e para a expansão imperialista.”

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“Comecemos pela premissa de que o capitalismo global é o que é não somente por ser global, mas, acima de tudo, por ser capitalista. Os problemas que associamos à globalização – a injustiça social, o abismo crescente entre ricos e pobres, os “déficits democráticos”, a degradação ecológica, e assim por diante – não existem simplesmente porque a economia é “global”, ou porque as empresas globais são incomparavelmente cruéis, nem mesmo por serem excepcionalmente poderosas. Esses problemas existem porque o capitalismo, seja ele nacional ou global, é movido por certos imperativos sistêmicos: o imperativo da concorrência, da maximização dos lucros e da acumulação, que inevitavelmente exigem a colocação do valor de troca na frente do valor de uso e do lucro na frente das pessoas. Nem mesmo a empresa mais benigna ou “responsável” consegue fugir dessas compulsões, e deve seguir as leis do mercado para sobreviver – o que inevitavelmente significa colocar o lucro acima de todas as outras considerações, com todas as suas consequências perdulárias e destrutivas. Essas compulsões também exigem a constante autoexpansão do capital. A globalização, por mais que tenha intensificado tais imperativos, é o resultado deles e não sua causa.”

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“Em toda sociedade de classes, onde uma classe apropria o trabalho excedente de outra, existem dois “momentos” de exploração relacionados, mas distintos: a apropriação do trabalho excedente e o poder coercivo que a impõe. Nas sociedades não capitalistas, eles tendiam a ser mais ou menos unidos. A separação das esferas econômica e política no capitalismo significou que esses dois momentos foram efetivamente divididos entre as empresas privadas (ou empresas públicas que operam segundo os mesmos princípios) e o poder público do Estado. Evidentemente, toda empresa capitalista tem à sua disposição um conjunto de mecanismos disciplinares, bem como hierarquias organizacionais internas, para manter os empregados na linha e trabalhando; e a sanção mais eficaz à disposição do capital é sua capacidade de negar ao trabalhador o acesso aos meios de trabalho, ou seja, sua capacidade de negar ao trabalhador um emprego e um salário, de demitir os empregados ou de simplesmente fechar a empresa. Mas a sanção última que mantém o sistema como um todo pertence ao Estado, que comanda a autoridade legal, a polícia e o poder militar necessários para exercer a força coerciva direta.

No capitalismo, esse poder coercivo está separado de forma singular das funções de apropriação (mesmo nas empresas públicas que operam segundo os princípios de uma economia capitalista). Como já vimos, isso contrasta com a unidade de apropriação e coerção de um sistema feudal, em que o poder coercivo do senhor – no fundo, seu poder militar – é também o poder de explorar, da mesma forma que os Estados não capitalistas usaram seu poder coercivo para apropriar o trabalho excedente dos produtores diretos como meio de aquisição de riqueza privada para governantes e funcionários. Assim, desde o início, a relação entre a classe capitalista e o Estado foi característica, com os capitalistas usando sua propriedade para explorar trabalhadores sem propriedade, enquanto o governo mantinha a ordem social afastada do capital.

O capitalismo é, por sua própria natureza, um sistema anárquico, em que as “leis” do mercado ameaçam constantemente romper a ordem social. Ainda assim, provavelmente mais que qualquer outra ordem social, o capitalismo precisa de estabilidade e de previsibilidade nas suas organizações sociais. O Estado-nação ofereceu isso por meio de uma elaborada estrutura legal e institucional, apoiada pela força coerciva, para sustentar as relações de propriedade do capitalismo, seu complexo aparelho contratual e suas intricadas transações financeiras.”

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“Desde o início, o imperialismo capitalista foi afetado por uma das principais contradições do capitalismo: a necessidade de impor suas “leis” econômicas tão universalmente quanto possível e, ao mesmo tempo, limitar as consequências danosas dessa universalização para o próprio capital. O capitalismo é movido pela concorrência, mas ainda assim o capital precisa sempre tentar evitar a concorrência. Precisa expandir constantemente seus mercados e buscar lucro em novos locais, mas ainda assim subverte a expansão dos mercados pelo bloqueio do desenvolvimento de concorrentes potenciais.”

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“Esses movimentos anticapitalistas” foram eficazes em trazer à luz os efeitos devastadores da “globalização”, especialmente ao capturar a atenção do mundo capitalista avançado, que há muito tempo ignora as consequências do capitalismo global. Aumentaram a consciência de muitas pessoas em todo o mundo e ofereceram a promessa de novas forças opositoras. Mas é possível que, sob certos aspectos, eles se baseiem em premissas falsas. A convicção de que as companhias globais são a fonte última dos males da globalização e de que o poder do capital global está politicamente representado acima de tudo nas instituições supranacionais, como a OMC, talvez seja baseada na premissa de que o capitalismo global se comporta da maneira como se comporta por ser global, e não (ou especificamente) por ser capitalista. A principal tarefa das forças opositoras, ao que parece, é visar os instrumentos do alcance global do capital, e não desafiar o sistema capitalista em si.

De fato, muitos participantes de movimentos desse tipo não são tanto anticapitalistas quanto “antiglobalização”, ou talvez antineoliberais, ou quem sabe apenas contrários a algumas companhias particularmente malignas. Eles pressupõem que os efeitos nocivos do sistema capitalista podem ser eliminados domesticando-se as companhias globais ou tornando-as mais “éticas”, “responsáveis, socialmente conscientes.

Mas mesmo aqueles mais inclinados a se opor ao sistema capitalista propriamente dito podem supor que, quanto mais global se torna a economia capitalista, mais global será a organização política do capital. Assim, se a globalização tornou cada vez mais irrelevante o Estado nacional, as lutas anticapitalistas devem passar imediatamente para além do Estado-nação, para as instituições nas quais o poder do capital global se encontra verdadeiramente.”

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“Assim como a globalização não é uma economia mundial verdadeiramente integrada, ela também não é um sistema de Estados-nação em declínio. Pelo contrário, o Estado está no coração do novo sistema global. Ele continua a desempenhar seu papel essencial na criação e manutenção das condições de acumulação de capital; e nenhuma outra instituição, nenhuma agência transnacional, começou, por enquanto, a substituir o Estado-nação como garantidor administrativo e coercivo de ordem social, relações de propriedade, estabilidade ou previsibilidade contratual, nem como qualquer outra das condições básicas exigidas pelo capital em sua vida diária.

Assim como o Estado está longe de ser fraco, as companhias multinacionais estão longe de ser todo-poderosas. Um exame das operações corporativas provavelmente revelaria que “empresas multinacionais não são particularmente boas em administrar suas operações internacionais” e que os lucros tendem a ser mais baixos, enquanto os custos são mais altos, que nas operações domésticas5. Tais empresas “têm muito pouco controle sobre suas próprias operações internacionais, e ainda menos sobre a globalização”. Qualquer sucesso desfrutado por essas companhias na economia global dependeu do apoio indispensável do Estado, tanto na localização de sua sede no próprio país quanto nos outros países de sua rede “multinacional”.

O Estado, tanto nas economias imperiais quanto nas subordinadas, ainda oferece as condições indispensáveis de acumulação para o capital global, tanto como para as empresas locais; e, em última análise, é o criador das condições que permitem ao capital global sobreviver e navegar o mundo. Não seria um exagero dizer que o Estado é a única instituição não econômica verdadeiramente indispensável ao capital. Apesar de podermos imaginar que 0 capital continuaria suas operações diárias se a OMC fosse destruída, e talvez até agradecesse a remoção de obstáculos colocados em seu caminho por organizações que dão alguma voz às economias subordinadas, é inconcebível que essas operações pudessem sobreviver por muito tempo à destruição do Estado local.

A globalização foi certamente marcada pela retirada do Estado das suas funções de bem-estar social e melhoria social; para muitos observadores, isso, mais do que qualquer outra coisa, criou uma impressão de declínio do Estado. Mas, apesar de todos os ataques ao Estado de bem-estar lançados por sucessivos governos neoliberais, não se pode nem mesmo argumentar que o capital global tenha tido condições de operar sem as funções sociais executadas pelos Estados-nação desde os primeiros dias do capitalismo. Mesmo enquanto forças e movimentos operários de esquerda recuavam, quando os chamados governos social-democratas se juntaram ao assalto neoliberal, pelo menos uma rede mínima de “segurança” de provisão social provou ser uma condição essencial de sucesso econômico e estabilidade social nos países capitalistas avançados. Ao mesmo tempo, países em desenvolvimento que no passado talvez tivessem sido capazes de se valer mais de apoios tradicionais, como as famílias estendidas e aldeias comunitárias, passaram a sofrer pressão para transferir pelo menos algumas dessas funções para o Estado, à medida que o processo de “desenvolvimento e mercantilização da vida destruía ou enfraquecia as antigas redes sociais – embora, ironicamente, isso os tenha tornado ainda mais vulneráveis às demandas do capital imperial, à medida que a privatização dos serviços públicos se tornou uma condição de investimento, empréstimos e ajuda.

Os movimentos de oposição devem lutar constantemente para manter algo que se aproxime de uma provisão social decente. Mas é difícil ver como uma economia capitalista pode sobreviver, quanto mais prosperar, sem um Estado que até certo ponto, ainda que inadequadamente, equilibre as quebras sociais e econômicas causadas pelo mercado capitalista e pela exploração de classe. A globalização, que continuou a solapar as comunidades e redes sociais tradicionais, tornou a função estatal mais, e não menos, necessária à preservação do sistema capitalista. Isso não quer dizer que o capital decida incentivar deliberadamente as provisões sociais. Significa simplesmente que sua hostilidade a programas sociais, considerados necessariamente obstáculos à acumulação de capital, é uma das muitas contradições insolúveis do capitalismo.”

5 São esses os resultados de um escudo do Conselho de Pesquisa Econômica e Social, resumidos pelo professor Alan Rugman, citado em Larry Elliott, “Big Business isn’t Really that Big”, Guardian, Londres; 2 set., 2002, p. 23.

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“A própria essência da globalização é uma economia global administrada por um sistema de Estados múltiplos e soberanias locais, estruturada numa relação complexa de dominação e subordinação.

A administração e a imposição do novo imperialismo por um sistema de Estados múltiplos criaram por si só muitos problemas, evidentemente. Não é simples manter o tipo certo de ordem entre tantas entidades nacionais, cada uma com suas próprias necessidades e pressões internas, sem falar dos seus próprios poderes coercivos. Inevitavelmente, administrar um sistema como esse exige, em última instância, um único poder militar esmagador, capaz de manter todos os outros na linha. Ao mesmo tempo, esse poder não pode ter autorização para romper a previsibilidade ordeira exigida pelo capital, nem a guerra pode colocar em risco os mercados e as fontes virais de capital. Esse é o enigma a ser resolvido pela única superpotência do mundo.”

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“Pela primeira vez na história do Estado-nação moderno, as maiores potências do mundo não estão engajadas numa rivalidade geopolítica e militar direta. Essa rivalidade foi efetivamente deslocada pela competição à maneira capitalista. Ainda assim, à medida que a competição econômica foi superando o conflito militar nas relações entre os principais governos, mais os Estados Unidos lutaram para se tornar o poder militar mais esmagadoramente dominante que o mundo já viu.

Por que é necessário, na nova ordem capitalista mundial, que os Estados Unidos respondam por no mínimo 40% dos gastos militares do mundo, particularmente quando o país ainda tem tantas necessidades internas não atendidas, como, por exemplo, um sistema de saúde decente? Por que existe uma disparidade de poder tão grande no mundo, em que a “assimetria” mais gritante não é a que existe entre os Estados Unidos e os bandidos”, ou “terroristas”, mas “entre os Estados Unidos e o restante das potências”1? Já se disse que os Estados Unidos possuem hoje uma força militar maior que o conjunto das oito potências seguintes reunidas (e, de acordo com algumas avaliações, maior que todos os outros países combinados), mas o seu orçamento é igual ao dos doze ou quinze seguintes reunidos. Alguns poderiam chamar isso de “imperialismo excedente”, mas seja qual for o nome que se dê, suas razões não são de nenhum modo óbvias2.

Esse é o paradoxo do novo imperialismo. É o primeiro imperialismo em que o poder militar foi criado não para conquistar território nem para derrotar rivais. É um imperialismo que não busca expansão territorial nem dominação física de rotas territoriais. Ainda assim ele produziu essa enorme e desproporcional capacidade militar com um alcance global sem precedentes. Talvez seja precisamente por não ter nenhum objetivo claro e finito que o novo imperialismo exija força militar tão pesada. A dominação ilimitada de uma economia global e dos múltiplos Estados que a administram exige ação militar sem fim, em propósito ou tempo.”

1 Paul Kennedy, “The Eagle has Landed”, Financial Times, 2-3 fev., 2002, p. 1.

2 Devo a expressão a Robert Brenner.

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“Os Estados Unidos estão preparados para incentivar até certo ponto o desenvolvimento das forças militares europeias, desde que sua natureza e seu uso possam ser confinados ao serviço de seus próprios objetivos — por exemplo, as forças europeias de manutenção da paz podem desempenhar um papel útil na limpeza da lambança deixada pela ação militar norte-americana, ou forças especializadas de diversos tipos podem ser mobilizadas na “guerra contra o terror”. Mas estão tomando todo cuidado para evitar o surgimento de qualquer rival militar verdadeiramente independente na Europa. A estratégia preferida é manter as forças europeias no abraço seguro da Otan, onde podem, como descreveu o sagaz analista William Pfaff, ser a “legião estrangeira do Pentágono”10.”

10 William Pfaff, “A Foreign Legion for the Pentagon? NATO’s ‘Relevance’”, International Herald Tribune, Nova York, 7 nov. 2002, p. 8.

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“Em 1992, o New York Times publicou um documento vazado, Defense Planning Guidance [Orientação para o planejamento de defesa], produzido pelo Pentágono. O autor era Paul Wolfowitz, que o escreveu para George Bush pai e se tornou conselheiro de George W. Bush, ao passo que seu principal apoiador, no momento de sua publicação, foi Dick Cheney, que se tornou vice-presidente. A lógica desse documento é bastante tortuosa, mas seu significado é claro: o objetivo de manter a posição militar dos Estados Unidos, no Oriente Médio e em outras partes, tem menos a ver com, por exemplo, proteger o fornecimento de petróleo aos Estados Unidos do que com desencorajar “as nações industriais avançadas a desafiar nossa liderança”. Em particular, potências aspirantes na Ásia e na Europa devem ser enfrentadas com uma dominância capaz de “dissuadir competidores potenciais até mesmo de aspirar a um maior papel regional ou global”11. O objetivo é o que foi chamado “dominância de amplo espectro”, que se estende até o espaço. Esse documento demonstra claramente que a guerra “total” defendida por Richard Perle não é apenas uma resposta ao 11 de Setembro. Pelo contrário, aquele evento trágico foi usado como pretexto para ativar uma agenda havia muito ativa.

Até mesmo o menos hidrófobo dos falcões, Colin Powell, concorda com o objetivo de, como diz um analista, “dominação mundial unilateral”, insistindo já em 1992 que os Estados Unidos devem ter poder suficiente “para dissuadir qualquer desafiante até de sonhar em nos desafiar no palco mundial”12.

A doutrina esboçada em Defense Planning Guidance recebeu status oficial na nova Estratégia de Segurança Nacional, de George W. Bush, publicada em setembro de 2002. A Doutrina Bush exige o direito exclusivo e unilateral de ataque preventivo, a qualquer tempo, em qualquer lugar, sem as peias de nenhum acordo internacional, a fim de garantir que “nossas forças serão suficientemente fortes para dissuadir adversários potenciais de promover ampliação militar na esperança de ultrapassar ou igualar o poder dos Estados Unidos”.

Desde que foi enunciado pela primeira vez, o objetivo dessa doutrina não escapou de diversos analistas, solidários e críticos. Ficou claro para eles que os alvos da estratégia militar podem não ser os óbvios e que a hegemonia sobre os principais competidores, inclusive amigos e aliados, foi um objetivo primordial.”

11 Citado em Nick Cohen, “With a Friend like This…”, Observer, Londres, 7 abr. 2002, p. 29.

12 Citado em Anatol Lieven, “The Push for War”, London Review of Books, 3 out. 2002, p.8

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