Observando o pouco visível

O raio X das religiões Versão 2.0: O Cristianismo.

Mircea Eliade, na sua obra “História das crenças e das idéias religiosas” publicada há umas 2 décadas pela Zahar, aponta o sangue e o conceito de crueldade como o cerne das religiões no tempo dos caçadores coletores. Cita numerosos exemplos de sacrifícios sacros (Prajati na Índia, os bem conhecidos do Paganismo, etc…) e o cristianismo não difere, nesse particular, como explícito na imagem da crucificação; da carne como alimento (pão) e do sangue como bebida (vinho).

Uma outra característica na ideologia cristã, como de resto em todas as monoteístas, é a aversão à ciência elevada à máxima potência na vontade da própria divindade. O fruto proibido é a ciência e, esporadicamente, quando a comunidade humana avançava nesse ramo, o próprio deus intervinha: expulsando o homem do paraíso, afogando-os num dilúvio ou abatendo a torre* como símbolo de confundir as línguas. Outros exemplos menos explícitos no Antigo Testamento são conhecidos: a preferência dos El-Elohim por Abel, o caçador nômade, se considerado o nomadismo como entrave ao surgimento da cidade (fruto dos avanços agriculturais – Caim ofertou frutos da terra) e a inexorabilidade do crescimento da ciência em centros urbanos – para o bem e para o mal, bem se diga.

Esse fato visto, é possível argüir que o aprisionamento da ciência durante o longo período medieval pode ter sido benéfico para a civilização ocidental, posto que da libertação do conhecimento à bomba atômica, apenas 300 anos se passaram, o que colocaria esta arma na mão de um Heliogábalo, possivelmente, ou de semelhante aberração de poder, já que o sistema escravagista do império eram impeditivos (econômico e científico) e sua ruína certa. E a bomba atômica é só um exemplo… Sem o aprisionamento da ciência nos porões dos mosteiros, ou fragmentada entre os árabes no séc VIII d.c., estaríamos vivendo o segundo milênio de avanços científicos em vez do quarto século.

Considerando um particular processo dialético entre Nietzsche e Jung, é possível inferir que ao contrário do fator unificante do judaísmo, onde a religião para a maioria dos Hebreus é antes (e cada vez mais) um distintivo de unidade do povo e transcendência na eterna expectativa do próximo ‘Massiah’, e o Islamismo e sua concepção de domínio e submissão dos povos, ao contrário destas, repito, o cristianismo é uma religião terminal em termos práticos, onde é anunciada a mensagem e o Juízo divino põe um ponto final na existência natural.

E em nosso tempo, quando o maior risco aos avanços humanos pode advir exatamente dos entreveros dentro do monoteísmo ‘abraâmico’ e as querelas dessa trindade “Judaísmo Islamismo e Cristianismo”, ao longo dos séculos e tão presente na questão Iraniana em nossos dias, o cristianismo sugere a seguinte máxima, fruto de uma natural enantiodromia (Jung):

“O conflito dentro da divindade oriundo da reação humana no ‘sacrifício de Isaque’, e o déficit moral divino no caso ‘Jó’ prefiguram o sacrifício cristão onde o deus sacrifica o próprio deus, seu filho (caso Isaque), de forma crudelíssima e injusta (Jó), em prol dos homens”.

O desenlace dessa lógica psicológica, anuncia-se (de novo devido à enantiodromia) assim:

“O homem sacrifica o próprio homem a deus” (ou ao nada, segundo os não crentes).

Essa última inferência é uma terrível possibilidade, quando, hoje, em termos ambientais e bélicos, o poder científico maior está nas mãos de um a civilização ainda irracionalmente ligada a uma concepção de universo e história psicológica advinda de um cruento sistema de ideias da idade do bronze. O corolário é inevitável: ou um advento terrível provindo dos ramos mais fanáticos da religião porá freio na ciência e aos avanços civilizacionais, ou a fé cristã deverá ficar tão moribunda quanto a assembléia dos deuses no ano 300 d.c. E a guerra ao terror é um dos sintomas dessa luta.

*Ainda no nosso tempo “torres abatidas” pela ‘vontade de deus’ (na crença de uns), confundem a unidade dos homens.

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