O passado, o presente e o estranho futuro de Eike Batista

Do Jornal GGN – Um cenário quase perfeito: o mundo em uma crise profunda pós-2008, com o estouro da bolha norte-americana e a desvalorização exacerbada do euro levando os investidores de grande porte a se voltarem para os países emergentes, como Rússia e China, favorecidos por um ambiente econômico de palpável otimismo.

E a situação no Brasil era ainda mais animadora, com a figura do presidente Lula brilhando na imprensa internacional e um volume considerável de capital estrangeiro a caminho do país. O momento certo para uma janela de oportunidades que, talvez, poderia não se repetir. O momento em que magnatas como Eike Batista começam a surgir, simultaneamente à flexibilização da economia.

O professor do MBA de Gestão de Riscos da Trevisan Escola de Negócios, Claudio Gonçalves relembra este momento. “Nesse ambiente de ascensão dos mercados emergentes, cerca de 70% da receita vinha de fora. O cenário era muito positivo para os Brics, com o Brasil à frente, um histórico de estabilidade macroeconômica com o projeto do plano real, novos ambientes de investimentos recomendados, país ganhando graus de investimentos de três agências de ratings. Era propício para o surgimento de novos empresários com o perfil de Batista”, conta.


Segundo Claudio, também aparecem neste momento oportunidades de investimento para as empresas abertas e fundos private equity para empresas não listadas na bolsa, o que aumenta o apetite desses investidores para correr riscos. “Tenho conhecimento, receita, mão de obra, um banco de investimentos dando suporte, país com economia estável. Sou bem relacionado, com um bom histórico familiar e empresarial, estou cercado de bons profissionais. A empresa vai ao mercado para captar dinheiro, consegue barato, e tem facilidade para os aportes. Assim começa a saga do grupo EBX”, explica.

Eike afirma ter aprendido a ter autoestima e disciplina com a mãe, que nasceu na Alemanha – segundo ele, requisitos fundamentais em sua fundação de empreendedor. Estudou em Genebra, Dusseldorf e Bruxelas e em 1974, entrou na faculdade de Engenharia Metalúrgica, que nunca concluiu. Aos 18 anos, vendeu apólices de seguro, no esquema porta a porta e, no inicio dos anos 1980, passou a dedicar-se ao comércio de ouro e diamantes – sua primeira empreitada no mundos dos negócios. Falando cinco idiomas, conseguiu se comunicar facilmente com investidores estrangeiros ao aceitar ser intermediário entre produtores da Amazônia e compradores de grandes centros nacionais do setor e europeus. Aos 21 anos, já tinha sua própria empresa de compra e venda de ouro – em um ano e meio de atividade, conseguiu acumular US$ 6 milhões.

Com os lucros provenientes de seu negócio recente, resolveu implantar a primeira planta aurífera aluvial mecanizada na região, criando um grupo, o TVX Gold. Pouco antes de completar 30 anos, teve sua empresa listada na Bolsa de Toronto, no Canadá, o que marcou o início de sua história com o mercado de capitais. Até 2000, mais que triplicou fortuna liderando a operação de oito minas de ouro no Brasil e no Canadá, e uma mina de prata no Chile. Em 2001, a TVX Gold acabou sendo comprada por uma empresa canadense por US$ 875 milhões (de dólares canadenses).

Com a venda, começou a operar três minas de ferro no Brasil (Mina 63, Tico Tico e Ipê), pouco antes de estruturar e abrir o capital de seis companhias no período entre 2004 e 2012: OGX, MPX, LLX, MMX, OSX e CCX (petróleo e gás, energia, logística, mineração, indústria naval e carvão), as companhias que integram o conglomerado EBX.

Segundo o professor da Trevisan, ao se lançar no mercado, Eike foi correto e, em nenhum momento, enganou investidores e empresas envolvidas com seu grupo – especialmente no que diz respeito ao IPO do EBX. “Num primeiro momento, foi aberto apenas para investidor qualificado, que tem na sua poupança valor superior a R$ 300 mil, por ser de alto risco. Depois, pessoas físicas com menos patrimônio também poderiam comprar. Ninguém foi enganado. O prospecto/book com a história do projeto foi bem claro e descrevia tudo o que se pretendia fazer com o dinheiro captado do investidor. No capítulo dos riscos, também tudo está descrito. Quanto maior o risco, maior o retorno associado a ele, e se eu ganhar com isso, será muito. Foi assim que pensaram os investidores. Vale lembrar que um fator preponderante avaliado pela CVM quando está avaliando e aprovando uma empresa no mercado de capitais é clareza de suas informações no prospecto. Todos os projetos do Grupo X têm com capítulo de risco muito claro. O que houve foi uma empolgação de um contexto otimista, onde as pessoas podem cometer erros ou fazer escolhas precipitadas”.

No entanto, para se ter uma ideia em números do tamanho do “tombo” sofrido pelo empresário e seus negócios nos últimos tempos, sua fortuna, que chegou a ser avaliada em US$ 10 bilhões em 2010 praticamente “derreteu” e, hoje, não ultrapassa os US$ 73 milhões. Alguns jornais internacionais, que têm noticiado o famoso “calote” de US$ 45 milhões aplicados recentemente, quando o grupo não honrou o pagamento de juros de alguns de seus empréstimos, chamaram o mineiro empreendedor de ex-bilionário em seus artigos sobre o assunto.

Antecipação às operações foi erro estratégico

Muitas teorias se formaram a respeito de como Eike conseguiu esvair o próprio patrimônio tão rapidamente após um estouro vencedor no novo mercado da Ibovespa. O professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), Evaldo Alves, acredita que o empresário se utilizou de mecanismos pouco comuns no Brasil, mas bastante conhecidos lá fora. “O grande empreendedor monta o negócio, a economia cresce a partir destes grandes desafiadores, começa a produzir. Nos Estados Unidos e na Europa, a partir do momento em que começa a produzir e tem resultados, se lança no mercado de ações e obtém recursos pra expandir os negócios, inovar, etc. Bill Gates, Stevie Jobs são os maiores exemplos disso”, explicou.

Contudo, Alves explica errou ao apenas executar metade da operação, apenas contratando gente, montar as operações e se lançar no mercado antes de começar a produzir. “Quando não há resultado concreto, quem compra esses papeis quer o dinheiro de volta, que é quando a empresa naufraga.” Para o professor da FGV, criou-se sobre o grupo EBX como um todo um modelo de financiamento de país desenvolvido sem a apresentação de resultados ou cumprimento do chamado “script”.

 

O professor de Economia do Insper, Otto Nagami concorda. “É uma empresa que não se consolidou de fato. Era um sonho que estava sendo apresentado e vendido ao mercado. Por uma questão de marketing ou mesmo de interesses, o projeto conseguiu sensibilizar bancos, fundos, investidores estrangeiros”.

O ministro Guido Mantega disse recentemente que o governo não deve ajudar o grupo EBX a sair da crise, por se tratar de uma empresa privada e, principalmente, por estar “complicando a imagem da economia brasileira lá fora”, o que segundo o professor da FGV não é uma verdade absoluta. “O que está no radar e que deve afetar o Brasil no exterior é o crescimento modesto da economia. A possível falência não afeta de maneira contundente a nossa economia brasileira. A imagem empreendedora brasileira pode ter respingos desgasta a imagem, mas o Brasil não é conhecido como tal. Investidores colocam seu dinheiro aqui não porque somos exímios e sofisticados empreendedores, mas sim porque aqui temos mercado, recursos, sobretudo naturais, produzimos commodities agrícolas, minerais e energéticas. Ele não vem pra cá em função dos recursos. Em resumo, apenas da desorganização aparente, o investidor está mesmo cauteloso com outras coisas: perspectivas de pouco crescimento e alta inflação”, alertou o acadêmico.

Outra questão que preocupa é de como as outras empresas devam reagir em relação ao fracasso da OGX, já que respiram interligadas. “Uma naufraga, as outras vão atrás”, disse uma fonte ao Jornal GGN, que completou dizendo que com o dinheiro e o volume captados no IPO, as empresas de Eike ainda poderiam respirar por mais 10 anos, no mínimo, não fossem seus graves problemas de gestão. “Qualquer empreendimento grande é um processo lento, agrega, e não se inicia grandioso como foi o caso. Não nasce no ponto final.”

Os especialistas consultados foram categóricos em afirmar que a OGX sofrerá com a má gestão, mas o país não sofrerá este desgaste. Dizem que ela não é tão grande assim. Que empresas nacionais nesta situação geram desconfiança, mas o que existe de maior é a cautela em investir no Brasil diante das perspectivas de um crescimento modesto até na comparação com os próprios emergentes. Agrega também desconfiança o nível de inflação atingindo o limite superior. A meta era 4,5% e chegamos aos 6%. Tudo isso pode provocar uma posição de cautela nos investidores. Portanto, Eike e suas empresas não contaminam o Brasil, nem a bolsa de valores, de maneira irremediável.

Para Nagami, o vencimento dos novos juros previstos para 30 de outubro é que determinará o destino de Eike e da OGX – ou a empresa consegue um pouco de oxigênio com algum investidor que banque a dívida ou entra na falência definitiva. “Será um dano financeiro social e enorme para muitas pessoas, por conta de uma irresponsabilidade na hora de se autointitular empresário. Teremos um levantamento de ativos que serão vendidos, para pagar as dívidas trabalhistas e depois os direitos fiscais. Porém, se não há ativos, de onde tirarão dinheiro para acertar as contas com 3 mil funcionários somente da OGX?”, alerta o professor.

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