A BARBÁRIE MORA AO LADO

A BARBÁRIE MORA AO LADO

 

Estranhos e intermináveis dias… A frase me remete a uma canção de John Lennon, uma das últimas que ele compôs antes de ser assassinado, chamada “Nobody Told Me” (ninguém me contou), onde o ex-beatle canta que “todo mundo está falando e ninguém diz uma palavra (…) tem alguns nazistas no banheiro logo abaixo dos degraus/ sempre há burburinhos no ar/ e nada de novo acontece/ todos estão correndo,  mas ninguém se mexe/ todos querem sair vencedores e ninguém aceita nenhum tipo de derrota”.

Nós estamos assistindo a uma verdadeira barbárie, banalizada e legitimada pela mídia e por boa parte da população, que insiste numa retórica chula e vazia, usando e abusando de bravatas moralizadoras como únicas definidoras da complexa situação politica, econômica e social que envolve o país neste momento. Os bárbaros de plantão atacam por todos os flancos: homofóbicos querem resolver suas fantasias sexuais doentias pregando a extinção de homossexuais e assassinando covardemente até mesmo um filho adotivo de um casal gay; na mesma atmosfera de retrocessos em pleno século 21, metade da população nacional não consegue aceitar o fato de que seu candidato perdeu as eleições, e assim como inquisidores da Idade Média, quer aniquilar a presidente da república – eleita democraticamente -, não apenas pedindo seu impeachment, mas  xingando-a e ofendendo-a pessoalmente como as antigas bruxas eram agredidas enquanto eram levadas para as fogueiras por defensores de um moralismo religioso tacanho e irracional.

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O governo Dilma é merecedor de muitas críticas, seja pela condução errática da economia, pela inabilidade política, pela teimosia da presidente em não ouvir sugestões de auxiliares e pela morosidade dos responsaveis por sua comunicação, que não criam contrapontos ao estardalhaço denuncista da midia tradicional; Acuado, o PT se tranca nos gabinetes com medo das pedradas e não se organiza de forma consistente para defender a presidente, deixando-a sangrar, conforme desejam FHC e o que restou do PSDB. Pelo contrário: internamente, ensaia um coro de discordância, revelando a falta de articulação. Tudo isso só alimenta a barbárie daqueles que querem ver o circo pegar fogo.

A palavra barbárie significa, nos dizeres do filósofo francês Comte-Sponville, “o contrário da civilização, na medida em que esta nos eleva”. Para ele, “o bárbaro é aquele que não reconhece nenhum valor superior, que só crê no mais baixo, que chafurda na baixeza e gostaria de nela submergir todos os outros”. Antes que alguem afirme que o PT é que caminha na lama, comunico que a sociedade o faz conjuntamente e de forma mais gritante. Literalmente.

O que vejo neste momento é Barbárie, disfarçada de um claro mal estar de classes, incitado pela mídia e por setores do empresariado e da classe média, incomodados não apenas com detalhes técnicos da crise, mas principalmente pela contrariedade de seus interesses. Em vez de protestos seguidos por propostas politicas, o ódio. Somente o ódio. Não me venham com a história de que “os pobres também protestam”, e que “a elite não é o único setor a protestar”, porque sabemos que a população é conduzida por uma ideologia que vende a lorota meritocrática de que o “bolo capitalista é possível igualmente para todos”, e que “todos estão no mesmo barco”. Assim como está na moda assistir ao comendador da novela -onde em pouco tempo um humilde  chefe de cozinha que mora na periferia chega a ser o dono de um refinado restaurante-, está na moda também  jogar pedras na presidente, mesmo que a maioria das pessoas que a xingue não saiba exatamente porque o faz, a não ser pela simples necessidade de ser incluida no senso comum consagrado pelos legitimadores globais. É uma falácia. Vivemos também uma tirania do falso moralismo, já que a verdadeira moral se baseia em gestos desinteressados ou que, no mínimo, vise o bem estar geral. Não sou tolo de acreditar que não possam existir interesses, isso seria outra falácia; mas há que se haver convergências, e elas só podem lograr êxito dentro da democracia e do respeito pelo que a maioria da população escolheu. Descemos vários degraus na escada – para lembrar os versos de Lennon – quando imaginamos resolver uma questão essencialmente politica com discursos moralizadores, que condenam os “roubos” desvinculando-os de toda uma rede de complexidades que formam uma sociedade escravagista e extremamente desigual há mais de 500 anos. Aos paneleiros xingadores e moralistas, sugiro propostas politicas dentro da normalidade democrática e com a seriedade que o debate exige. Senão, meus caros, vocês jamais poderão criticar os radicais islâmicos ou usar botõezinhos com baboseiras do tipo “je suis Charlie” escritas neles.

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Marcelo Sanches é socíólogo e compositor/pesquisador musical

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