A cidade “belmontizada”

Luiz Antonio Simas – https://www.facebook.com/luizantonio.simas?hc_ref=NEWSFEED&fref=nf

Hoje começa o festival Comida di buteco. Já fui totalmente contra o evento. Hoje pondero o babado de outra forma. O melhor do festival é ativar certo setor da economia da cidade e garantir aos donos de estabelecimentos o trocado para tocar em frente os seus negócios. No meio do perrengue, o evento chega dando fôlego a quem precisa dar nó em pingo d´água para sobreviver. É um mês para ganhar uma boa grana, gerar empregos, capacitar a mão de obra, consolidar a marca, etc

Mas é duro de aturar (e aposto até que os donos de bares acham isso, mas não podem admitir, é claro) as caravanas que parecem percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras, feito aqueles espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola.

A roupa do safári aos botequins, neste caso, é uma fantasia de malandro à moda Zé Pilintra em macumba pra turista. O cidadão ataca de chapéu Panamá, guia de santo, charuto de grife, desce da van tirando onda de “butequeiro”, entre gritando aos berros no estabelecimento, recebe um caboclo descontraído depois do terceiro copo, abraça as pessoas como se estivesse dando passe em centro espírita e enche o saco dos frequentadores tradicionais dos estabelecimentos. Eventualmente vomita no salão.

A cidade “belmontizada” (expressão que uso para aquilo que outros preferem chamar de “gentrificada”) adora o festival. Que ao menos os “butequeiros” – essa denominação é acintosa para quem de fato tem cultura de botequim – torrem a grana, mas torrem mesmo, pra garantir o leite das crianças de quem rala do lado de dentro do balcão o resto do ano.

Mais detalhes apenas num bate-papo em balcão de botequim, fazendo calo no cotovelo e matando a que matou o guarda, de preferência longe do Zé Pilintra fake de excursão.

Boa sorte aos participantes e eu tou com o Bar Madrid e o Bode Cheiroso em qualquer disputa, é claro.

Ah… Se eu tivesse que bolar um acepipe para o festival, entrando na onda de descrevê-lo de acordo com o que há de mais contemporâneo na gastronomia de buteco, seria o seguinte: “duas estruturas expelidas do corpo da galinha com reservas alimentares e envoltórios protetores, levemente temperadas com especiaria formada na proporção de um átomo de cloro para cada átomo de sódio.”

A foto da iguaria vai abaixo.

Abraços.

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