a Democracia Racial: um sonho factível

EM DEFESA DA DEMOCRACIA RACIAL

           Com mais este episódio de ofensas raciais na página no face da atriz Taís Araújo depois da jornalista Maju, e outros que de vez em quando repercute na mídia e redes sociais, mais surpreende os que apontam tais tristes manifestações como se a instalação definitiva de uma sociedade racista dividida entre humanos, pretos e brancos, no Brasil.

            Em vez de amaldiçoar o sonho de uma possível democracia racial, prefiro cultiva-lo, por ser esse propósito uma realidade na formação demográfica do Brasil, amplamente documentado em vários estudos sociológicos e nas pesquisas acadêmicas, além dos dados estatísticos do IBGE, reiteradamente apontados nos estudos mais credenciados desde os anos 1930 com Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Oracy Nogueira, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. A maioria absoluta dos brasileiros não querem viver sob a prisão do pertencimento racial, afirma Sérgio Buarque, em ´Raízes do Brasil´.

            Os ideais da nacionalidade edificada pelos desumanos métodos de colonização portuguesa, por moto próprio se transformou na edificação do sonho de uma democracia racial que é uma desejável vantagem competitiva (conforme nos afirmava em 2001, pouco antes de falecer o saudoso prof. Milton Santos) em relação aos demais povos em que a segregação de direitos em bases raciais aprofundou o ódio. 

           Desde o final da 2ª guerra mundial quando o racismo passou a ser questão civilizatória da humanidade, consubstanciado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, em 1948, emergiram no cenário político mundial, grandes lideranças contra o racismo.

          Todos os grandes ativistas, sem exceção, nos legaram lições de combate ao racismo, a principal delas é que devemos refutar a ideia de pertencimento racial e não devemos alimentar o ódio e o antagonismo destilado pelos racistas, devemos, pois, em contraposição, ensinar-lhes a pedagogia do amor e liturgia iluminista da igualdade humana.

          Ouso aqui, relembra-las, desde a primeira grande lição de 1956, num encontro de intelectuais africanos e franceses em Paris, quando FRANTZ FANON cunhou uma frase que enserra a verdade extraordinária: “Em uma sociedade com a cultura de raças, a presença do racista será, pois, natural.”.

            Em 1963, na histórica ´Marcha sobre Washington´ o Doutor Luther King, se habilitou ao Prêmio Nobel da Paz, pronunciando seu longo discurso – I have a Dream – (Eu tenho um sonho) que veio a ser um verdadeiro manifesto político da luta contra a segregação de direitos e as discriminações raciais, e propunha o diálogo e a compreensão:

          “(…) Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.”

          (…) Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina.

           Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. 

           Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade.

           Nós não podemos caminhar só.

            (…) Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

            Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

 

            Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

            Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississipi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

           Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

           Em um episódio, o mais relevante da mítica vida de MALCOLN X, pouco divulgado se deu em março de 1964, quando escreveu a famosa ´Carta de Meca´, reconhecendo os erros de sua trajetória política de combatenet ao racismo, após sua peregrinação à cidade sagrada e realizar o Hajj, a ritual imersão nos ensinamentos do Islã. A generosidade e grandeza de coração de pessoas de todas as cores, foram qualidades que o impressionaram pelas boas vindas que ele recebeu em muitos lugares. Ele viu irmandade e a irmandade de diferentes origens e etnias, e isso o levou a renunciar ao racismo. Escrevendo a Carta de Meca.

            Essa corajosa e pouco divulgada renúncia à pregação do racismo e renúncia a todos os antigos discursos de ódio que até hoje muitos reproduzem, equivocadamente, como sendo a ´verdade´ de MALCOLN, foi também a sua sentença de morte, foi executado alguns meses depois, em fevereiro de 1965, aos 39 anos, por afro-americanos racistas que o consideraram traidor da causa (deles) que era a pregação do ódio racial.

            E MALCOLN escreveu na ´Carta de Meca´:

            ”Eu fui abençoado em visitar a Cidade Sagrada de Meca”. Eu fiz os sete circuitos em torno da Caaba, levado pelo jovem Mutawaf chamado Muhammad, e bebi da água do poço de Zam-Zam. Eu corri sete vezes indo e vindo entre os montes de Al-Safa e Al-Marwah. Eu orei na antiga cidade de Mina e eu orei no monte Arafat.”

 (…) “Eu não sou um racista… No passado eu me permiti ser usado… fazer acusações generalizadas a todas as pessoas brancas, à raça branca inteira, e essas generalizações causaram muitas injúrias a alguns brancos que talvez não merecessem ser magoados.

 Por causa da iluminação espiritual que eu tive a bênção de receber como resultado de minha recente peregrinação à cidade sagrada de Meca, eu não aprovo mais acusações generalizadas a nenhuma raça.

 Eu estou agora me empenhando em viver a vida de um verdadeiro muçulmano sunita. Eu devo repetir que eu não sou um racista e nem aprovo os princípios do racismo. Eu posso declarar com toda a sinceridade que eu não desejo nada além de liberdade, justiça e igualdade, vida, liberdade e busca da felicidade para todas as pessoas.”.

            Em 1994, já eleito Presidente da África do Sul, após 27 anos de cárcere racista, em vez do ódio, MANDELA pregava em discurso ao seu povo à compreensão e o emprego da eficaz da única pedagogia estatal para a superação do racismo que é a pedagogia do amor, em vez do ódio, afirmando:

            “Ninguém nasce odiando outras pessoas pela cor da pele. Eles foram ensinados pelo estado a odiar. Se aprenderam, eles são humanos. Se são humanos, nós podemos lhes ensinar a amar.”

            Enfim, a ideologia do racismo e sua doutrina de ´raças diferentes´ com uma presumida hierarquia racial, embora recente no milenar seio civilizatório da humanidade, foi edificada a partir do século 18 para se antepor à extraordinária força dos ideais iluministas, propulsora da Revolução Franceça e dos ideais republicanos inscritos na Carta de Independência dos EUA e que pregavam a igualdade humana,

            Embora recente, tal ideologia já conta com trezentos anos de apologia, resultando nos maiores genocídios da história humana desde as guerras de ocupação das Américas e da África, passando pelo nazifascismo da 2a guerra mundial, até as guerras fratricidas que continuam destruindo povos africanos.

            Portanto a luta contra o racismo, conforme todas as grandes lideranças na luta contra o racismo, em vez do confronto com o racista, merecedor de nosso desprezo, exigirá e demandará séculos de pedagogia da igualdade, além da indignação individual de cada um, exige a prédisposição de todos e dependerá de um monumental esforço institucional da pedagogia do amor e da igualdade humana.

            A nossa miscigenação é fato incontroverso e irreversível. Para o bem das futuras gerações no Brasil, defendo a retomada do sentimento nacional constatado na possibilidade do sonho da ´democracia racial´, um inegável proósito da maioria da população que não se enxerga nem branca nem preta, conforme apurado nos estudos de sociologia – e nos dados do IBGE – como um propósito viável, assim como o ´sonho americano´ de uma sociedade plural e democrática, serviu aos propósitos proclamados por Luther King em ´I Have a Dream´.

 

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