A Embriaguez do Poder e a Utopia do Gordo e o Magro

FSP – Ilustrada de 16/01/09

“O PODER embriaga como o vinho”.  A frase, tão lugar comum, é de Carlos Lacerda, no último depoimento que prestou a um grupo de jornalistas.
Ele confessa que ambicionou o poder, sentia-se o brasileiro mais capacitado para exercer a Presidência da República. Fez tudo e de tudo para chegar lá, incentivou os militares para a derrubada de João Goulart, considerou-se o delfim do movimento de 64, mas Castelo Branco traiu a promessa de respeitar o calendário eleitoral que previa eleições presidenciais em 1965. Dependente do vinho do poder que não tomou, Lacerda partiu para a oposição, foi cassado e preso, vivendo um porre político que acabaria com a sua própria vida, aos 62 anos.
Pulando de Lacerda para colega menos ilustre, mas bem-dotado intelectualmente, lembro um episódio na ocasião da posse de Tancredo Neves – que acabou não havendo.
Informado por Mauro Salles de que eu havia sido convidado para um jantar com o presidente eleito na véspera de sua posse (jantar que também não aconteceu), ficou escandalizado quando soube que eu não iria. Disse-me, como quem revelasse a verdade de todas as coisas, o segredo final do universo, a explicação definitiva da vida: “O poder embeleza!” Com ponto de exclamação e tudo.
Evidente que essa segunda frase também é sovada, muita gente já disse a mesma coisa, com ou sem ponto de exclamação. Mas as duas frases juntas são uma chave para quem quiser decifrar o enigma do poder. Não se trata simplesmente de um que pode mais do que o outro, de uma participação mais concreta e operacional nos fatos e atos de uma empresa ou de um governo.
O poder, entendido pelos filósofos e teóricos das relações humanas, é um tipo de serviço, de doação. Mas na cabeça dos profissionais que formam o contingente da política em geral, o poder é uma fonte hedonística de prazer, que alguns chegam a comparar ao orgasmo sexual.
Por isso ele embriaga como o vinho e embeleza aqueles que o exercem e, por extensão, aqueles que lhe são próximos. E de tal forma embriaga e embeleza que a luta pelo poder -talvez mais do que o sexo, como queria Freud- é a mola mestra da história universal.
Para conquistá-lo, trava-se uma luta pela qual todos os valores morais e materiais se submetem. O poder acaba se transformando numa moral específica, com regras próprias desvinculadas da moral comum. No limite, a luta não se transforma numa prioridade, mas na própria razão e matéria da vida.
O prazer de quem o exerce acaba se transmudando em dever: o poder exige que o poder seja mantido e exercido em sua plenitude. O poder nunca se basta. Em nível de overdose, desbanca na ditadura. A própria ditadura às vezes não basta, é preciso apelar para a tirania.
Bem, essa filosofia que aprendi nos almanaques, juntamente com a melhor época do ano para plantar beterrabas, tem uma explicação. Mal e porcamente tenho escasso poder sobre mim mesmo. Mas leio nas folhas que a briga pelo poder no seio dos governos que em tese já detêm o poder, continua feia, valendo tudo.
Estou por fora do que anda acontecendo em Washington, com a mudança de governo a ser presidido por Barack Obama. Mas não é necessária muita informação de cocheira para se imaginar os golpes e contragolpes que estão em andamento.
Há também as veredas do poder, que os mais sofisticados consideram melhor do que o vinho e que embelezam mais do que o botox e o silicone. Daí o puxão nos tapetes, das frituras anunciadas e plantadas na mídia, a luta de foice em quarto escuro – para que alguém tenha mais poder do que alguém. No final, todo mundo leva para o túmulo o não-poder absoluto que é a morte.
Gosto de contar uma cena de “O Gordo e O Magro”, que atravessam mil trapalhadas e conseguem tomar conta de uma ilha deserta, sem nada e sem ninguém. Olhando seus domínios, o Gordo, que sempre tem mais iniciativa, toma o poder na marra, declarando-se o rei do pedaço. O Magro não contesta, apenas pergunta, humildemente, o que ele próprio será na administração que está se iniciando.
Com o fura-bolos espetando o peito do Magro, o Gordo emite sua primeira medida de poder: “Você será o povo!”.

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O Filme Utopia (A Ilha Maluca) de 1951:

O Magro herdou uma enorme herança do tio que vivia na Europa, mas quando foi recebê-la descobriu que as taxas ficaram com tudo. Sabendo que ficou apenas com uma ilha localizada nos mares do sul, eles, o Gordo e o Magro, compram um barco e para lá se dirigem, junto com dois fugitivos que o destino os colocou no barco. Durante uma tempestade o barco encalha em um atol que havia recebido lixo atômico e passam a viver nesse local. Um dia aparece uma bela mulher fugindo do noivo, logo vem o noivo procurando por ela, e encontra radioatividade na ilha. As potências mundiais disputam o domínio da ilha por causa do suposto urânio.

O vídeo tem áudio em inglês e não tem legenda, não consegui, se alguém tem, por favor, me forneça. Mas vale a pena assistir, o Gordo sozinho faz o show:

 

 

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