A febre facebook

Com base em modelos epidemiológicos, os engenheiros  John Cannarella e Joshua Spechler afirmaram que, assim como as doenças infecciosas, as ideias se disseminam atingem o ápice e morrem. Previram que até 2017 o Facebook perderia  80% dos seus usuários. Não é o que apontam os números neste início de 2015. Apenas no terceiro trimestre de 2014, o Facebook teve um aumento de 14% pelo mundo, chegando a um total de 1,35 bilhão de usuários. No Brasil a febre toma contornos mais dramáticos. Em 2013 eram 71 milhões de perfis criados, o segundo lugar em usuários no mundo, atrás apenas dos EUA (158 milhões). Introjetado em  35% da população brasileira, atinge 90% dos internautas.

Segundo o fundador do Wikileaks, Julian Assange, facebook e google atendem aos padrões para criação de um estado distópico de vigilância ,aos moldes do big brother. Segundo Assange: “ Em sua essência, empresas como o google e o facebook estão no mesmo ramo de negócio que a agência de segurança nacional (NSA) do governo dos EUA. Elas coletam uma grande quantidade de informações sobre os usuários, armazenam, integram e utilizam estas informações para prever o comportamento individual e de um grupo, e depois as vendem para anunciantes e outros mais.”    

De acordo com minha experiência pessoal no facebook, Julian Assange estaria cometendo um eufemismo ao imaginar que o facebook apenas preveria o comportamento individual e de um grupo, na verdade, os algoritmos influenciam diretamente na formação dos grupos segundo critérios e interesses do facebook.

Ingenuamente, alguns imaginam que seu conteúdo e mensagens gerados ou compartilhados são distribuídos homogeneamente para o seu grupo de amigos. Na verdade, dentro de seu grupo e até mesmo fora de seu circulo de contatos e amigos, os algoritmos do facebook criam subgrupos que atendem a critérios e interesses desconhecidos, e são para estes subgrupos que serão dirigidas as mensagens.

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De acordo com estes critérios podemos concluir que nos grupos informações serão omitidas ou reforçadas, comportamentos serão aliviados ou reforçados. Há o fato pouco divulgado de que quando se escreve ou compartilha no facebook, nunca se sabe para quem foi dirigido seu conteúdo. O que vemos no facebook é o produto de um processo exaustivo de edição criado para agradar o usuário, um espelho onde ele possa se reconhecer. O facebook é a subversão suprema da diversidade, da credibilidade e da imparcialidade. Enxergando o mundo pelo confortável espelho virtual, o hedonismo latente se locupleta. Criando e catalisando seus próprios subgrupos, o facebook potencializa seus interesses comerciais. Por outro lado estimula os comportamentos de manada e neutraliza eventuais inibições que uma distribuição horizontal e diversificada de conteúdos poderia trazer. Talvez isto explique a propagação de focos de xenofobia e radicalismos nas redes sociais.

Nestes anos acumulados, o facebook conseguiu agregar um conteúdo considerável, uma agilidade de noticias comparável ou até mesmo superior à mídia tradicional. Mais do que uma febre tem se consolidado como um meio de informação e formação de opiniões, cada vez mais sectárias. Todo este patrimônio cultural está nas mãos do tio Sam, incrível que não suscite debates acalorados na sociedade, pois se a arte da guerra ensina que é preciso dividir para conquistar, pelo menos no Brasil este efeito tem sido conseguido com maestria.  

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