A guerra das vacinas coloca o impeachment de volta

Na TV GGN, Nassif entrevista Paulo Henrique Fraccaro, secretário da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos, para discutir a indústria de saúde

O site do Ministério da Saúde ainda está fora do ar e, por conta disso, os dados da covid-19 no Brasil ainda não foram atualizados (no momento em que o programa foi ao ar).

Nassif entrevista Paulo Henrique Fraccaro, secretário da ABIMO (Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos) para discutir a indústria de saúde no Brasil. “Logo no início da pandemia, sentimos um caos total pelo desconhecimento do que estava vindo. Segundo, pelo desconhecimento das necessidades que aquilo que estava vindo ia demandar”, diz Fraccaro.

“Quando as primeiras definições do que deveriam ser feitas para uma tentativa de salvar pacientes, o mundo todo usou a mesma receita. Consequentemente, os produtos que precisavam para essa receita passaram a ser procurados pelo mundo todo ao mesmo tempo”

“O que o Brasil tinha naquela época? O Brasil tinha quatro fábricas de ventiladores (…) Tudo o que nós passamos era um reflexo de uma falta de política de Estado para o setor também da saúde”, pontua Fraccaro. “O que aconteceu? O governo estimou que iria precisar de ventiladores, fez uma estimativa, as indústrias nacionais não estavam preparadas para isso. Por outro lado, esta estimativa aguçou a ideia de outras empresas (…)”

“Isso mostrou que nós começamos a pandemia com quatro fábricas de ventiladores, e chegamos no final de julho/agosto com dez fábricas de ventiladores. Essa pujança, essa velocidade do desenvolvimento mostrou que, se tivesse uma política governamental, o Brasil tem tecnologia para fazer aquilo que a saúde demanda e poderá demandar”, diz Fraccaro.

“Nós achamos que, com essa experiência dos ventiladores e das máscaras, nós teremos uma abertura para começar uma discussão com o governo de uma política industrial que pudesse consolidar uma série de projetos”

“Ficou claro que a demanda excessiva de produtos importados poderia nos colocar em uma situação trágica outra vez”, explica o secretário da ABIMO. “Agora, provavelmente como a demanda da pandemia continuou e se entrou em uma necessidade de fabricação de vacinas, aquilo que a gente esperava acontecer não aconteceu”

“O Brasil entrou em um desafio econômico de atender os mais de 30 milhões que viviam na obscuridade, então a economia ficou toda voltada para atender a essa demanda”, diz Fraccaro. “Não sobrou tempo para ter uma abertura para falar ‘e a política industrial?'”

“A pandemia mostrou de uma maneira até perigosa (…) as Forças Armadas perceberam que a guerra no futuro não vai ser apenas canhões e aviões. Poderá ser um vírus solto em uma ampola, e vai fazer um estrago enorme (…)”, lembra o executivo.

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“Começamos a ter diálogos e mostramos a importância de ter um fortalecimento da indústria da saúde para enfrentar esses tempos, e foi um bom diálogo que nós começamos”, diz Fraccaro. “Mas o tumulto do país fez com que esses diálogos não tivessem uma fluidez para desenhar uma política que pudesse criar um caminho de consolidação para a indústria nacional, e teve até alguns percalços no caminho”.

“Empresas que estavam acordadas a fornecer ventiladores para o governo, quando a pandemia começou a diminuir a necessidade de ventiladores pelas descobertas de outros caminhos, empresas tiveram cancelamento de pedidos feito pelo governo. Eram empresas não muito grandes que tiveram cancelamentos. Isso nos deixou mais preocupados quando você fala fornecimento para o governo”

“Acho que o Brasil, hoje, o parque industrial que nós temos (…) O Brasil tem toda a estrutura necessária para você produzir qualquer produto que demanda a saúde”, diz Paulo Henrique Fraccaro. “Eu não preciso, muitas vezes, buscar sempre o mais barato, pois vou continuar dependente de uma China, de uma Índia. É lógico que produtos de grande tamanho, como ressonância, pode ser que não precise fabricar aqui, mas hoje, a estrutura que nós temos: temos capacidade de atender quase 90% da demanda dos hospitais”, diz o secretário da Abimo. “Estamos na espera da reforma tributária somente para um item”

“A Constituição de 88 criou uma brecha que, para órgãos públicos e beneficentes, eles podem importar tudo o que eles querem sem pagar nenhum tributo, enquanto que, se decidem comprar no Brasil, produtos similares, eles pagarão todos os tributos. Então, os órgãos públicos e beneficentes que já são carentes de recursos (…) na hora que vai analisar uma decisão de compra, se puder trazer de fora muito mais barato, você vai optar. A reforma tributária prometeu corrigir essa defasagem”, diz Fraccaro.

Um segundo item citado pelo secretário da ABIMO: “os hospitais universitários – que são abastecidos pela tabela SUS -, muitas vezes eles preferem comprar os produtos descartáveis mais sofisticados que tem com os recursos do SUS. Quando começam a acabar esses recursos, eles vem para o setor nacional para comprar os produtos similares que eles usavam mas pagando a tabela SUS”, pontua Fraccaro.

“Estamos em uma briga no governo dizendo ‘ou a tabela SUS existe ou não existe’. Se ela existe, então todos os organismos do governo que recebem verbas governamentais devem fazer suas aquisições pela tabela SUS, que é o que as empresas nacionais fazem”.

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“Uma política industrial, uma reforma tributária para dar ao produto fabricado aqui a mesma condição de igualdade do importado (…) e aquilo que trabalha com verba do governo tem que ter política lógica de aquisição”.

Fraccaro também abordou a necessidade de uma indústria independente do setor externo, internalização de conhecimento, a falta de garantia de compra que desestimula o setor nacional, dentre outros assuntos.

Nassif explica um dos pontos citados por Fraccaro na entrevista: a importância da EMBRAPII (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), criada durante a gestão Dilma. “Ela (Embrapii) pegou a CNI, pegou o pessoal especialista em política industrial e, na época, (o ministério) Ciência e Tecnologia passava uma verba para eles. Eles identificavam o que era relevante para a indústria, faziam uma licitação com institutos federais, e aquele instituto que apresentasse a melhor proposta recebia verba para financiar o projeto, construir laboratórios, mas com a incumbência de montar uma rede com outros institutos nacionais e internacionais”

“O papel da imprensa é pegar ideias relevantes, informações, e fazer essa concatenação. E infelizmente não se faz”, diz Nassif.

Para Nassif, o presidente Bolsonaro “ficou no bico do corvo com o impeachment quando ele começou a exagerar naquelas manifestações (…) Nesse momento ele está em alfa com esse negócio das vacinas. Temos um conjunto de fatores que faz com que, se fosse ter uma métrica de impeachment, ele está acima da média de novo (…) O que temos de relevante que mostra que ele (Bolsonaro) virou um perigo nacional? (…) Esse caso da Abin, que o sindicato dos auditores colocou como o maior escândalo da República. Isso é de uma gravidade, isso é crime. Você tem essa questão das armas, que ele continua flexibilizando no momento em que está tendo explosão de assaltos por todo o lado”.

“No caso da Globo, ele tomou uma série de medidas sobre bônus de veiculação atingindo especificamente a Globo. E a Globo tem uma baita influência no TSE através do Barroso, no Judiciário. Ela tem poder de fogo”, diz Nassif

“Tem essa questão das vacinas, que agora tem esse rolo com o Ronaldo Caiado – ele é um desastre. Ele viu que o Bolsonaro está afundando e está querendo assumir a ultradireita e vem com essa história de confiscar vacina (…) Se levar a ferro e a fogo, dançou o Bolsonaro. Acho que ele vai acabar recuando, mas é um ponto a mais de turbulência que ele cria”.

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“Tem a questão do Orçamento, que até agora não foi resolvido, tem a questão da pandemia que tem um caos total com o governo não conseguindo organizar nada, e são milhares de pessoas que estão morrendo”.

“E você tem a questão do presidente do Senado, o Alcolumbre, ganhar um helicóptero (sic) de um delegado em troca de favores. O caos que você tem hoje são negócios, destruição de sistemas de controle, corrupção explícita da Abin dentro do Palácio, ataque a um grupo de mídia de forma parcial (…)”, lembra Nassif.

“E tem uma bomba do TSE nas mãos do Barroso, que é aquela denúncia de fake news que pode derrubar toda a chapa. Se você derrubar a chapa até o final do ano, você tem que convocar eleições imediatamente. Se derruba a partir de janeiro, entra o presidente da Câmara – daí dá a se entender (não estou dizendo que está inteiramente ligado a isso) a pressa, a tentativa de parte do Supremo de emplacar a continuidade do Rodrigo Maia”, pontua Nassif.

“Você tem um conjunto de situações que pode… Digamos, que o Bolsonaro comece a entrar novamente na linha de fogo. Não dá para saber desdobramentos (…)”, ressalta Nassif.

Nassif comenta a delação da Odebrecht – “mais uma denúncia contra o Lula que foi anulada. É interessante que, agora, todos esses casos de desmanche total do país tem como responsável direto o STF. O ecossistema democrático tem que esquerda, centro-esquerda, centro, tem que ter a direita… Um segurando o outro, e é desse conflito permanente, dessa tensão permanente, que você vai tendo um país equilibrado”.

“Essa questão do Fundeb de incluir escolas especiais no Fundeb: isso é uma indecência. Não tem nenhuma responsabilidade em relação a pessoas. As famílias estão perdendo gente, temn gente morrendo por culpa do Presidente da República, por culpa do ministro da Saúde. E o Supremo tem que responder a isso, porque ele é responsável por colocar o Bolsonaro onde colocou”, finaliza Nassif.

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3 comentários

  1. Não haverá nenhum impeachment, porque não existem 342 votos na Câmara dos Deputados, nem muito menos 54 votos no Senado, que são exigidos pela Constituição Federal de 1988 para esse fim.
    Teremos de aguentar até dezembro de 22.
    Prender a respiração e soltar, e repetir o gesto indefinidamente…

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