A literatura como arquivo da ditadura brasileira, por Rogério Mattos

O livro organizado por Márcia Paraquett veio no encalço dos esforços pela recuperação da memória nacional nos tempos de repressão.

A literatura como arquivo da ditadura brasileira, por Rogério Mattos

Da Revista Brasileira de Literatura Comparada (trechos com breves modificações para exposição em blog)

O contexto

Talvez não seja de difícil compreensão que na atual conjuntura se tornam mais dramáticos todos os esforços em torno das políticas de memória no Brasil. O livro da professora Eurídice Figueiredo, A literatura como arquivo da ditadura brasileira, foi lançado em 2017, ou seja, após o golpe de Estado e o início da ocupação militar e da agenda econômica à americana nos gabinetes de Brasília[1]. Contudo, o estímulo que a levou a ler mais de sessenta livros sobre a ditadura no Brasil (romances e relatos autobiográficos), veio de outra conjuntura histórica, contígua a esta. Em 2014, Márcia Paraquett a convidou a escrever para o livro que viria a se chamar Caminhando e contando, reunião de breves relatos autobiográficos de pessoas que viveram os anos de chumbo. “O meu texto, ‘Geração 1968’ (…) foi o elemento desencadeador do processo de memória, pois depois dele que mergulhei na literatura escrita sobre a ditadura[2]”. Ainda temos que contar mais uma data, a que vai do amadurecimento de suas ideias enquanto a professora ministrava seu curso no PPG de Estudos de Literatura da UFF, em 2015, e a versão lida pelo professor Jaime Ginzburg, responsável por uma “leitura atenciosa” e pela orelha do livro, em 2016.

O tempo parece que se acelerou rapidamente desde então. Em 10 de dezembro de 2014 foi entregue o relatório final da Comissão Nacional da Verdade através de um esforço que, ainda que possa ser considerado insatisfatório em diversos aspectos, constituiu o primeiro ato mais consistente feito pelo Estado brasileiro para a apuração dos crimes cometidos durante a ditadura militar. Talvez nesta data limite, o final de 2014 até todo o ano de 2016, se revelou com mais força o que Jacques Rancière denominou, em outro contexto, de “ódio à democracia”. O livro do coronel e torturador Brilhante Ustra, A verdade sufocada, entrou para a lista dos best-sellers nacionais, enquanto o deputado que dois anos depois se elegeria presidente fazia sua apologia na Câmara em meio a um dia infame da política nacional, “por Deus e pela família”.

O livro organizado por Márcia Paraquett veio no encalço dos esforços pela recuperação da memória nacional nos tempos de repressão. O da professora Eurídice Figueiredo viu surgir, in locu, toda a deterioração do cenário político brasileiro. Como apontou Jaime Ginzburg na orelha do livro, “em tempos em que pessoas saem às ruas para pedir intervenções militares no Brasil, e em que direitos civis são constantemente atacados, este livro age como intervenção de resistência”. O que seria um esforço para aprofundar a confrontação do país com sua história recente, vira um ato de resistência. Entre a leitura dos originais pelo professor, em 2016, e a publicação no início de 2017, as manifestações saudosistas da lógica da Guerra Fria começaram a se tornar realidade com a entrada de elementos das Forças Armadas no governo Temer. Ler o livro da professora Eurídice em 2019, tendo em vista as etapas de seu processo de produção, nos força a remontar toda essa complicada etapa que vai da concretização de um avanço democrático em 2014 até a consolidação do governo protomilitar, miliciano-jucidiário, em curso.

O texto

O livro da professora Eurídice Figueiredo, após se deter, no 1º capítulo, nas aporias da memória, do esquecimento e do perdão na sociedade brasileira, procura traçar, no 2º capítulo, as estratégias da escrita da literatura sobre a ditadura. Ao contrário dos textos historiográficos, o escritor de literatura tem em vista um público mais amplo e “encontra no leitor um elemento ativo na transmissão da memória para que não se apague aquilo que afetou a vida das pessoas[3]”. Assim, a literatura é vista como um campo avançado de consolidação da memória nacional. Com inúmeros livros lançados sobre o tema desde o alvor do arbítrio fardado, a professora se esforça por estabelecer o corpus literário adequado para dar conta de produção tão abundante. O primeiro período (1964-1979) se caracterizaria pelo relato de projetos revolucionários fracassados, cuja tônica é “ora prospectiva e utópica, ora distópica”, como os personagens do romance Quarup, de Antônio Callado, e Pessach, de Carlos Heitor Cony. Entra na lista também a correspondência de presos, em especial as Cartas da Prisão, de Frei Betto.

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O segundo período [1980-2000] se caracteriza por relatos autobiográficos de ex-presos políticos exilados, beneficiados pela lei da anistia, que voltaram ao Brasil, como Fernando Gabeira, ou recém-saídos da prisão ou da clandestinidade. Esse tipo de relato autobiográfico aparece também no primeiro período, mas em geral era censurado. Uma exceção marcante é Em liberdade, de Silviano Santiago, que aborda a questão de maneira transversal[4].

Diferente do tipo de testemunho latino-americano, todos os livros do 2º período foram escritos por pessoas intelectualizadas, com outros livros publicados depois. “Esses relatos tiveram uma grande repercussão na época e operaram uma espécie de catarse coletiva após o período de cerceamento da liberdade e de censura da imprensa[5]”. Já o 3º período dos livros analisados se estende de 2000 a 2016, ou seja, até a época em que foi escrito o trabalho da professora. Ela destaca o fato de se tratar de textos ficcionais que, “embora conservem um lado testemunhal, se distanciam do puro testemunho porque os autores não foram superstes, não foram vítimas diretas da repressão, ou, pelo menos, não se apresentam no papel de vítimas de tortura[6]”.

Como consequência, Eurídice Figueiredo vê nos novos romances experiências transfiguradas: fatos vividos pelos autores, muitos deles jovens no período, e que reelaboram suas experiências através do relato ficcional. O caso exemplar para a professora é o de Bernardo Kucinski, com os romances K. e Os visitantes, para os quais ela separou um capítulo à parte. Eles “formam um díptico, em que o segundo faz reverberar questões éticas e estéticas que já apareciam no primeiro[7]”. O primeiro relata a experiência do desaparecimento da irmã de Bernardo Kucinski, Ana, através de uma estratégia narrativa em que Bernardo desaparece enquanto autor e jornalista de profissão, e sobressai a figura de seu velho pai, que leva todo o peso do sofrimento nas costas, agravado pelo fato de ser um imigrante-judeu-escritor-de-contos-em-iídiche, que morre dois anos depois da filha, sem que nada houvesse ainda sido esclarecido. O segundo livro narra a história de visitantes que procuram Kucinski, e assim ele traça outra estratégia narrativa onde discute a recepção de seu primeiro livro ficcional.

O debate

Haveria uma série de questões a serem debatidas a respeito do inventário dos arquivos literários da ditadura desenhado pela professora Eurídice. Vou resumi-las ao máximo. O primeiro seria por qual motivo a poesia não é sequer mencionada em seu trabalho. Por se tratar em sua maior parte de relatos autobiográficos puros ou com parcela significativa de autobiografia, a característica, talvez solipsista ou de teor mais subjetivo da produção poética não pode servir como meio para um novo tipo de veto ao ficcional[8]. Por outro lado, se ela inicia seu livro mencionando a pequena autobiografia que escreveu em 2014, reescrita e publicada no último capítulo de seu livro, ou seja, se menciona a “geração 68”, como não considerar o imenso movimento político, social e artístico daquele ano que, caso o AI-5 não tivesse sido tirado da cartola, provavelmente daria lugar para um movimento do tipo de uma 2ª Semana de Arte Moderna? Todo um cancioneiro estava sendo estabelecido naqueles anos e por que não podem figurar, hoje, como “arquivos da ditadura”?

Em segundo lugar, como já adiantei quando pus em pauta os relatos do professor Joel Rufino dos Santos [clique aqui], existem questões sociais bem mais amplas a serem discutidas. Num inventário quase todo meramente cronológico, Gabeira e Miriam Leitão, Silviano Santiago e Luiz Roberto Salina Fortes, por exemplo, vão sendo apresentados lado a lado, sem indicação alguma do que existe de mais singular em cada um deles fora dos critérios que marcam as diferentes datas. Se a parte crítica não chega a ser tão forte, a apresentação dos romances por vezes parece meras micro-resenhas informativas, desconectadas do desenrolar da história nacional, como se uma não dependesse da outra para além do amplo guarda-chuva “ditadura militar”. Mas isso deve ser visto de uma maneira positiva.

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A cronologia tão limpidamente exposta provoca confusões e fracassos do reconhecimento (Gabeira e Salina Fortes? Silviano e Miriam Leitão? Fuks e Kucinski?). O que será que aconteceu? Os pequenos retratos mostrados pela professora são como imagens-lembrança, aquela que “só assegura a progressão de uma narrativa linear[9]”. Ela permite o reconhecimento atento (sim, esta é a pessoa que encontrei em tal lugar mês passado…) e nos leva imediatamente ao fracasso: sensação de déjà-vú, imagens de sonho, fantasmas ou cenas de teatro (essa pessoa interpreta um papel que me é familiar…). Neste sentido, as imagens-lembrança são estilhaços da imagem-cristalina, pequenas lembranças não atualizadas e insuficientes para nos remeter à lembrança pura. Se o reconhecimento atento provoca confusões (e esse é seu êxito), ele nos joga indiretamente na duração. Ao contrário da imagem conhecida do conceito de Bergson, a duração não é subjetiva. “O tempo não é interior em nós, é justamente o contrário, a interioridade na qual estamos, nos movemos, vivemos, mudamos[10]”. Para ser uma descrição cristalina é necessário rodar e não andar em linha reta como numa imagem-lembrança; é necessário estar atentos ao tempo onde nos movemos, como dentro de um redemoinho: “a perfeição cristalina não deixa subsistir nenhum fora: não há nada fora do espelho ou do cenário, apenas um avesso onde passam as personagens, que desaparecem ou morrem, abandonadas pela vida que se reinjeta no cenário[11]”. A perfeição cristalina, Épuras do social.

O álbum de retratos apresentado pela professora Eurídice Figueiredo cumpre bem o seu papel: como inventário de imagens-lembrança, provoca o mecanismo motor, entre a excitação do reconhecimento e o fracasso da resposta. Com esse impulso podemos nos colocar num lugar da duração onde nos sentimos mais à vontade e a partir de então procurar acessar a lembrança pura. Por exemplo, quando Eurídice chega à França, o país, dez anos depois, parece ainda estar sob o impacto do filme Orfeu Negro. Ela foi alvo constante de brincadeiras e confusões por causa de seu nome, o mesmo da protagonista do filme. O Orfeu ainda estava vivo entre os franceses e parecia que a imagem passada de nosso país pelo filme era o que ainda nos representava e não as tristes cenas da ditadura.

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Era o Brasil de JK, da Bossa Nova, mas também do Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, Guerreiro Ramos e do ISEB. Um país que se industrializava, se modernizava, e na mesma medida tinha sua imagem refletida no exterior. Sessenta anos após o lançamento do filme, em 2019, experimentamos um processo similar: depois de se destacar como um protagonista no cenário internacional, processo sempre concomitante às conquistas internas, parece que tudo voltou a estaca zero. Talvez sem querer, lido hoje, o relato autobiográfico publicado no último capítulo do livro da professora, através desse recorte mínimo nos faz dizer, como em Proust, “que o tempo não nos é interior, mas somos nós, interiores ao tempo que se desdobra, que se perde e se reencontra em si mesmo, que faz passar o presente e conservar o passado[12]”.

Esse texto faz parte da série ARQUIVOS DA DITADURA [clique aqui para ler]


[1] Informações mais recentes dão conta de cerca de 2500 militares em cargos de chefia ou assessoramento, movimento iniciado já no governo Temer.

[2] FIGUEIREDO, Eurídice. A literatura como arquivo da ditadura brasileira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2017, p. 11.

[3] Idem, p. 46

[4] Idem, p. 48

[5] Idem, p. 86

[6] Idem, p. 87

[7] Idem, p. 143

[8] Como mostra Rodrigo Pato Sá Motta em seu As universidades e o regime militar: “Por vezes atitudes de resistência se manifestaram de maneira sutil e até poética. No período de repressão mais intensa, o professor Antônio Candido de Mello e Souza costumava declamar e analisar com seus alunos um poema de Emílio Moura: ‘Quando a luz desaparecer de todo, mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro. A beleza é eterna. A poesia é eterna. A liberdade é eterna. Elas subsistem apesar de tudo. É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que de repente se rebelam e erguem a cabeça olímpica. A beleza é eterna. A poesia é eterna. A liberdade é eterna. Podem exilar a poesia: exilada, ainda será límpida. As horas passam, os homens caem, a poesia fica. Aproxima-te e escuta. Há uma voz na noite! Olha: É uma luz na noite’”.

[9] DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 64.

[10] Idem, p. 103

[11] Idem, p. 103-4

 

[12] Idem.

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