A morte do sineiro, o colapso do Banco do Brasil e o terremoto na Venezuela

John Gledson

Esta é a primeira de duas crônicas, [as duas últimas crônicas escritas por Machado de Assis] escritas em novembro de 1900, quando o cronista habitual, Olavo Bilac, que sucedera Machado em 1897, se ausentara para representar a Gazeta de Notícias na Argentina. Aparecem num momento significativo para Machado e para o Brasil: o colapso, em setembro de 1900, do Banco da República do Brasil, criado em dezembro de 1892, pela união de dois bancos quase falidos, numa tentativa de mitigar os efeitos do Encilhamento. Esse colapso final foi visto por muitos como a “liquidação do Encilhamento”. Como acontece tantas vezes, Machado situa este evento imediato não só numa perspectiva histórica ampla (através do sineiro da Glória), mas, além disso, na de uma tragédia natural, um terremoto na Venezuela. Ouvem-se, ainda, nesta crônica, ecos do desgosto de Machado pela República.

    Machado em muitos momentos zombara da figura do acionista, interessado só nos dividendos e alheio à gesão da companhia ou do banco de que supostamente é dono. Para ele, essa irresponsabilidade, como a relutância das pessoas a cumprir seus deveres de cidadão no júri, é um aspecto do individualismo e da falta de espírito público do brasileiro, o qual deplora.

 

CRÔNICA

<i>Gazeta de Notícias</i> 

04 de novembro de 1900

 

Entre tais e tão tristes casos da semana, como o terremoto de Venezuela, a queda do Banco Rural e a morte do sineiro da Glória, o que mais me comoveu foi o do sineiro. <cite>1</cite>

Conheci dous sineiros na minha infância, aliás, três, – o Sineiro de S. Paulo,2  drama que se representava no Teatro S. Pedro, – o sineiro da Notre Dame de Paris,3  aquele que fazia um só corpo, ele e o sino, e voavam juntos em plena Idade Média, e um terceiro, que não digo, por ser caso particular. A este, quando tornei a ver, era caduco. Ora, o da Glória, parece ter lançado a barra adiante de todos.

Ouvi muita vez repicarem, ouvi dobrarem os sinos da Glória, mas estava longe absolutamente de saber quem era o autor de ambas as falas. Um dia cheguei a crer que andasse nisso eletricidade. Esta força misteriosa há de acabar por entrar na igreja e já entrou, creio eu, em forma de luz. O gás também já ali se estabeleceu. A igreja é que vai abrindo a porta às novidades, desde que a abriu a cantora de sociedade ou de teatro, para dar aos solos a voz de soprano, quando nós a tínhamos trazida por D. João VI, sem despir-lhe as calças. Conheci uma dessas vozes, pessoa velha, pálida e desbarbada; cantando, parecia moça.4

O sineiro da Glória é que não era moço. Era um escravo, doado em 1853 aquela igreja, com a condição de a servir dous anos. Os dous anos acabaram em 1855, e o escravo ficou livre, mas continuou o ofício. Contem bem os anos, quarenta e cinco, quase meio século, durante os quais este homem governou uma torre. A torre era dele, dali regia a paróquia e contemplava o mundo.

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Em vão passavam as gerações, ele não passava. Chamava-se João: Noivos casavam, ele repicava as bodas; crianças nasciam, ele repicava ao batizado; pais e mães morriam, ele dobrava aos funerais. Acompanhou a história da cidade. Veio a febre amarela, o cólera-mórbus, e João dobrando. Os partidos subiam ou caíam, João dobrava ou repicava, sem saber deles. Um dia começou a guerra do Paraguai, e durou cinco anos; João repicava e dobrava, dobrava e repicava pelos mortos e pelas vitórias. Quando se decretou o ventre livre das escravas, João é que repicou. Quando se fez a abolição completa, quem repicou foi João. Um dia proclamou-se a República, João repicou por ela, e repicaria pelo Império, se o Império tornasse.

Não lhe atribuas inconsistência de opiniões; era o ofício. João não sabia de mortos nem de vivos; a sua obrigação de 1853 era servir a Glória, tocando os sinos, e tocar os sinos, para servir a Glória, alegremente ou tristemente, conforme a ordem. Pode ser até que, na maioria dos casos, só viesse saber do acontecimento depois do dobre ou do repique.

Pois foi esse homem que morreu esta semana, com oitenta anos de idade. O menos que lhe podiam dar era um dobre de finados, mas deram-lhe mais; a Irmandade do Sacramento foi buscá-lo a casa do vigário Molina para a igreja, rezou-se-lhe um responso e levaram-no para o cemitério, onde nunca jamais tocará sino de nenhuma espécie; ao menos, que se ouça deste mundo.

Repito, foi o que mais me comoveu dos três casos. Porque a queda do Banco Rural, em si mesma, não vale mais que a de outro qualquer banco. E depois não há bancos eternos. Todo banco nasce virtualmente quebrado; é o seu destino, mais ano, menos ano. O que nos deu a ilusão do contrário foi o finado Banco do Brasil, uma espécie de sineiro da Glória, que repicou por todos os vivos, desde Itaboraí até Dias de Carvalho, e sobreviveu ao Lima, ao “Lima do Banco”.5 Isto é que fez crer a muitos que o Banco do Brasil era eterno. Vimos que não foi. O da República já não trazia o mesmo aspecto; por isso mesmo durou menos.6

Ao Rural também eu conheci moço; e, pela cara, parecia sadio e robusto. Posso até contar uma anedota, que ali se deu há trinta anos e responde ao discurso do Sr. Júlio Otoni. Ninguém me contou; eu mesmo vi com estes olhos que a terra há de comer, eu vi o que ali se passou há tanto tempo. Não digo que fosse novo, mas para mim era novíssimo.

Estava eu ali, ao balcão do fundo, conversando. Não tratava de dinheiro, como podem supor, posto fosse de letras, mas não há só letras bancárias; também as há literárias, e era destas que eu tratava. Que o lugar não fosse propício, creio; mas, aos vinte anos, quem é que escolhe lugar para dizer bem de Camões?

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Era dia de assembléia geral de acionistas, para se lhes dar conta da gestão do ano ou do semestre, não me lembra. A assembléia era no sobrado. A pessoa com quem eu falava tinha de assistir a sessão, mas, não havendo ainda número, bastava esperar cá embaixo. De resto, a hora estava a pingar. E nós falávamos de letras e de artes, da última comédia e da ópera recente. Ninguém entrava de fora, a não ser para trazer ou levar algum papel, cá de baixo. De repente, enquanto eu e o outro conversávamos, entra um homem lento, aborrecido ou zangado, e sobe as escadas como se fossem as do patíbulo. Era um acionista. Subiu, desapareceu. Íamos continuar, quando o porteiro desceu apressadamente.

– Sr. secretário! Sr. secretário!

– Já há maioria?

– Agora mesmo. Metade e mais um. Venha depressa, antes que algum saia, e não possa haver sessão.

O secretário correu aos papéis, pegou deles, tornou, voou, subiu, chegou, abriu-se a sessão. Tratava-se de prestar contas aos acionistas sobre o modo por que tinham sido geridos os seus dinheiros, e era preciso espreitá-los, agarrá-los, fechar a porta para que não saíssem e ler-lhes a viva força o que se havia passado. Imaginei logo que não eram acionistas de verdade; e, falando nisto a alguém, à porta da rua, ouvi-lhe esta explicação, que nunca me esqueceu:

– O acionista, disse-me um amigo que passava, é um substantivo masculino que exprime “possuidor de ações” e, por extensão, credor dos dividendos. Quem diz ações, diz dividendos. Que a diretoria administre, vá, mas que lhe tome o tempo em prestar-lhe contas, é demais. Preste dividendos; são as contas vivas. Não há banco mau se dá dividendos. Aqui onde me vê, sou também acionista de vários bancos, e faço com eles o que faço com o júri, não vou lá, não me amolo.

– Mas, se os dividendos falharem?

– É outra cousa, então cuida-se de saber o que há.

Pessoa de hoje, a quem contei este caso antigo, afirmou-me que a pessoa que me falou, há trinta anos, a porta do Rural, não fez mais que afirmar um princípio, e que os princípios são eternos. A prova é que aquele ainda agora o seria, se não fosse o incidente da corrida dos cheques há dous meses.7

– Então, parece-lhe…?

– Parece-me.

Quanto ao terceiro caso triste da semana, o terremoto de Venezuela, quando eu penso que podia ter acontecido aqui, e, se aqui acontecesse, é provável que eu não tivesse agora a pena na mão, confesso que lastimo aquelas pobres vítimas. Antes uma revolução. Venezuela tem vertido sangue nas revoluções, mas sai-se com glória para um ou outro lado, e alguém vence, que é o principal; mas este morrer certo fugindo-lhes o chão debaixo dos pés, ou engolindo-os a todos ah!… Antes uma antes dez revoluções, com trezentos mil diabos! As revoluções servem sempre aos vencedores, mas um terremoto não serve a ninguém. Ninguém vai ser presidente e de ruínas. É só trapalhada, confusão e morte inglória. Não, meus amigos. Nem terremotos nem bancos quebrados. Vivem os sineiros de oitenta anos, e um só, perpétuo e único badalo!

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Notas:

<cite>1</cite>  Um terremoto em Macuto, Venezuela, no dia 29 de outubro, causara muitas mortes. Em 12 de setembro, o Banco da República do Brasil fora vítima de uma corrida aos bancos, e o governo acabou estatizando o banco: seus débitos foram salvos com títulos do governo. Nessas condições, um regime de liquidação foi criado para os outros bancos, entre os quais o Banco Rural e Hipotecário, o mencionado aqui, fundado muitos anos antes, em 1854.

2  Le Sonneur de Saint Paul (1838), de Joseph Bouchardy, autor de melodramas de enredo complicado. Foi traduzido pelo português João Baptista Ferreira em 1839 e mais tarde representado no Brasil.

3  Romance famoso e muito popular de Victor Hugo, de 1831. O sineiro é Quasimodo.

4  Machado se refere aqui a um castrato, homem sem barba e com voz de moça, trazido de Portugal por d. João.

5  Joaquim José Rodrigues Torres, visconde de Itaboraí (1802-72), político conservador e presidente do Conselho no “golpe” de 1868. É considerado o fundador do atual Banco do Brasil; José Pedro Dias Carvalho (1808-81), político liberal, foi diretor do banco entre 1854 e 1857. O “Lima do Banco”  fica por identificar.

6  De fato, o Banco do Brasil foi fundido com o Banco da República para formar o Banco da República do Brasil em dezembro de 1892, à instância do marechal Floriano. Foi esse que quebrara em setembro de 1900.

7  O “incidente” a que o cronista se refere lembra que, na corrida aos bancos do dia 12 de setembro, os depositantes foram pagos, não em dinheiro, mas com cheques visados. Ver Gustavo Franco, A economia em Machado de Assis, p. 244.

 

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Fonte:

Assis, Machado de;  Crônicas Escolhidas; Seleção, introdução e notas de John Gledson, 1ª ed,; São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2013.

John Gledson é doutor pela Universidade de Princeton e professor aposentado de estudos brasileiros na Universidade de Liverpool. 

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