A oração nossa na pandemia, por Dora Incontri

A oração nossa na pandemia, por Dora Incontri

Desde que nos conhecemos como seres humanos, oramos. Desde épocas imemoriais. Sentados, em pé, prostrados, ajoelhados. Clamando, sussurrando, cantando, dançando. Aos espíritos, aos ancestrais, aos deuses, às deusas, aos anjos, a Deus, a Jesus, a Maria, aos santos, a Alá, a Buda, a Krishna, aos Orixás… e mesmo imersos nessa civilização hedonista, materialista e mesmo nos países em que o ateísmo foi imposto na educação e as religiões proibidas, oramos sempre. E se, como vi, na década de 70, na Alemanha comunista, não eram permitidos templos e cultos, jovens que estavam se casando depositavam reverentes ramalhetes de flores às estátuas de Marx e Lenin.

Da lei da adoração – estudada por Kardec no Livro dos Espíritos – ninguém escapa. Precisamos de apoio, queremos colo espiritual, por mais que grandes pensadores tenham desqualificado tal inclinação humana, considerando-a alienação, ilusão ou infantilismo psíquico, oramos e oramos sempre.

Mas hoje quero escrever mesmo a partir da perspectiva espírita kardecista, que é meu lugar de fala. Embora exerça o tempo inteiro o diálogo inter-religioso e procure a confluência das correntes, também acho necessário de vez em quando, apontar algumas novidades filosóficas e espirituais que o espiritismo trouxe.

Para Kardec, orar não é apenas um ato de contato com o divino, dentro e fora de nós. A prece tem uma força eficaz, real. Ela movimenta a vibração do pensamento e atinge outras esferas, chega à mente de espíritos protetores, alcança as pessoas (vivas ou mortas) por quem estivermos orando, de maneira curativa, consoladora, amorosa. A prece pode ser um veículo de amor fraterno que salva aquele que ora e aquele que é beneficiado pela oração.

Quando se ora com fervor e sinceridade, com a imposição das mãos – o passe – semelhante à bênção cristã ou o jhorei messiânico, transmite-se uma energia real, que envolve o receptor e o doador numa só vibração de paz e bem-estar. Quem já experimentou pode validar o que estou falando. Mas a coisa também acontece à distância. Para o pensamento não há barreiras.

É claro que os incrédulos dirão que se trata de efeitos puramente subjetivos. Ainda que fosse apenas isto, ainda assim valeria a pena. Mas há estudos científicos que mostram que a oração – assim como a meditação, que pode ser algo dissociado de qualquer religiosidade – objetivamente faz bem. Doentes se recuperam mais rápido, a imunidade aumenta, o remédio faz mais efeito… ou, se a morte estiver mesmo batendo à porta (e a oração não nos salva dela, a indesejada das gentes), a prece empresta paz, beleza e conforto para quem vai e para quem fica.

Resolvi falar sobre isso hoje, porque estamos nesse momento trágico de doença, mortes e lutos, num cenário caótico e desesperador, onde não faltam elementos de sadismo por parte daqueles que deveriam se responsabilizar pelas vidas dos brasileiros, em que a fome acompanha a doença e o luto vem complicado pela ausência de despedida e de rituais fúnebres – aliás tão ancestrais quanto as orações. E a oração pode ser uma ferramenta importante – para muitos, essencial, para manter a sanidade psíquica, para não tombarmos no desespero.

Claro está que o fato de nos recompormos com a prece e invocarmos todos os santos, orixás, espíritos e anjos da guarda para acolher os que morrem e consolar os que ficam não significa nos conformarmos com a necropolítica estabelecida e nem renunciarmos à crítica e à luta, à resistência e à oposição àqueles que nos matam. Mas para permanecermos firmes nessa luta e para sermos inspirados em nossas ações e para mantermos a serenidade e ainda para enviarmos a todos as nossas melhores vibrações: oremos! Quem não acredita em nada transcendente, que medite, que se acalme e que mande pensamentos de amor para quem precisa.

Só queria dizer isso: orar não é demonstrar fraqueza, mas é movimentar uma força energética e divina que está em nós e invocar forças superiores às nossas para atuarmos mais lúcidos e mais eficazmente nesse mundo!

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