A pandemia, a sabedoria do mercado e a economia brasileira em 2021, por Ricardo Buratini

A pandemia, a sabedoria do mercado e a economia brasileira em 2021.

por Ricardo Buratini

Como ocorre com qualquer profissional dedicado ao estudo da conjuntura, rotineiramente me sinto obrigado a certas investigações tão importantes quanto banais. Embalado por esse sentimento de dever, de vez em quando me vejo impelido a abrir o Boletim Focus do Banco Central para atestar quais são as expectativas predominantes para a economia brasileira. Foi o que fiz no final de março, o que me permitiu descobrir que a mediana do “mercado”, esse sábio ser abstrato, projeta uma alta de 3,2% para o PIB brasileiro em 2021.

A taxa, confesso, me intrigou mais do que comumente ocorre. Mas como além de cético sou persistente, prossegui na investigação. Constatei na sequência outro fato inquietante: a alta projetada em 3,2% está apenas ligeiramente abaixo do que nós, analistas de conjuntura, chamamos de carregamento estatístico.

Faço uma pausa e abro um parêntesis para explicar aos não familiarizados com o assunto, que diabos é esse carregamento. De modo muito simples, ele é a “herança” de crescimento que um período concede ao próximo. Expliquemos assim: como o cálculo do crescimento anual se faz pela média dos PIB’s trimestrais do ano corrente relativamente à média dos PIB’s trimestrais do ano anterior, e como as médias muitas vezes estão distantes das últimas observações, importa saber qual é o patamar do PIB no final de 2020 e quão distante ele está da média dos trimestres daquele ano para descobrir, de fato, quanto se espera que o PIB cresça ao longo de 2021. Essa distância entre o último ponto e o PIB médio de 2020, essa banalidade matemática bastante útil, é que é o carregamento estatístico.

Em termos práticos, temos então o seguinte: como o carregamento de 2020 para 2021 é de 3,6%, se por hipótese o PIB terminar o ano de 2021 no mesmo patamar em que ele encerrou 2020 (ou seja, se a economia brasileira ficar estagnada ao longo deste ano), ainda assim ela registrará, na média, uma alta de 3,6% em relação a 2020. 

Fecho o enfadonho (mas necessário) parêntesis conceitual e volto a tentar entender a projeção do “mercado” para 2021. Se o legado de crescimento é de 3,6% (sim, cara leitora e caro leitor, após o tombo do segundo trimestre de 2020, o auxílio emergencial de cerca de 4% do PIB e outras medidas importantes geraram uma rápida recuperação a partir do terceiro trimestre) e se o “mercado” está projetando uma alta de 3,2% do PIB em 2021, logo, está implícito nessa projeção que, ao longo do ano corrente, a economia brasileira vai ficar mais ou menos onde já estava no final de 2020.

Desconfiado do resultado, mudo o tipo de investigação. Abandono os números e busco relembrar os principais fatos recentes. Lembro, em primeiro lugar, que a pandemia avança a passos largos por todo o país e que o isolamento social, mesmo que de modo titubeante, vem sendo reforçado. Lembro também que paralisações de produção ocorrem em muitos setores e lugares, que boa parte do comércio é obrigado a fechar as portas mesmo que parcialmente e que o setor de serviços há muito já sente os prejuízos. Recordo ainda que governadores e prefeitos, sempre pressionados pela turma que defende que “a economia não pode parar”, agora encontram-se acuados pelo caos das unidades regionais de saúde, onde já faltam leitos e medicamentos. Lembro por fim das análises dos infectologistas e demais especialistas. Eles nos dizem que o ritmo de vacinação é lento, que existe uma defasagem entre a adoção das medidas de isolamento e a reversão da tendência de alta dos contágios e que isso tudo isso levará inevitavelmente à extensão das medidas de isolamento por um bom tempo. Certo de que o “mercado” também se informa, termino o exercício com um redobrado sentimento de desconforto e ceticismo. Torna-se inescapável cometer a heresia de duvidar das projeções do “deus mercado”. 

Como manda a prudência, começo novamente pelos fatos. Talvez por estarem imunes às fake news e ao terraplanismo das redes (anti) sociais, hoje até as pedras da rua sabem que o Brasil se tornou uma ameaça global e que aqui a pandemia está fora de controle. Somos um laboratório vivo de novas cepas do trágico vírus. Na origem disso, é impossível não dizer, estão as ações criminosas do governo federal e de seus seguidores. Não foi “só” incompetência, negacionismo e omissões de resto evidentes na recusa de comprar vacinas com antecedência e na defesa do “tratamento precoce”. Como bem mostrou uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Saúde Pública da USP, o governo federal foi além: praticou atos que aceleraram a propagação da doença e a mutação do vírus. Para ficar em poucos exemplos, em 2020 o governo ampliou o conceito de atividades essenciais até mesmo para salões de beleza e buscou anular o direito ao auxílio emergencial de 600 reais a várias categorias. Não bastasse isso, por meio da retenção de recursos e por ter se recusado a reeditar o orçamento de guerra no final de 2020, o governo provocou a redução do número de leitos hospitalares e prejudicou a assistência aos doentes na rede pública de estados e municípios. Por meio de vetos, Bolsonaro tentou anular até mesmo a obrigatoriedade de máscaras dentro de estabelecimentos com autorização para funcionar. E tudo isso exatamente no momento em que já víamos a segunda onda da pandemia em vários países.

Por mais que vários desses atos tenham sido anulados posteriormente, o efeito de tudo isso para a sociedade e para a economia, como se sabe, vem sendo enorme. Mais de 62 mil mortos só em março de 2021, um recorde macabro. Mais de 320 mil vidas ceifadas desde o início da pandemia; 113 novas sepulturas a cada 60 minutos e um estoque de certamente mais de um milhão de pessoas abaladas pela perda prematura e evitável de um familiar próximo, de alguém que cumpria um papel importante na vida afetiva e econômica e que teve o futuro negado de forma brusca e irremediável. É essa, sem dúvida alguma, a pior e mais terrível herança para 2021, herança intangível que um “deus mercado” tão afeito a números quanto indiferente às pessoas parece minimizar.

Mas voltemos ao tangível. Voltemos ao questionamento dos números do mercado e à investigação das perspectivas da economia brasileira. Mas façamos isso de modo a tentar entender o problema na sua integralidade. Para tanto, não basta se apoiar numa análise linear e unidirecional de causa e efeito. É preciso enxergar a dinâmica e a interdependência dos componentes do problema.

A tese aqui não é original e vem ficando cada dia mais óbvia. Mas é por ainda estar distante do senso comum e das projeções do “deus mercado” que nos vemos obrigados a repeti-la insistentemente: a economia não ficará estável, como espera o “mercado”, enquanto houver risco de colapso no sistema de saúde e ascensão (ou estabilização em alto patamar) do número de mortes. Novas e renovadas medidas de isolamento e, no limite, um tardio lockdown se imporão inevitavelmente ao negacionismo e ao wishfull thinking dos defensores da ideia de que “a economia não pode parar”. O ajuste fiscal, argumento último dos defensores da redução do auxílio emergencial, sucumbirá em meio à dinâmica perversa que resulta do agravamento da pandemia em meio à piora do quadro social.

Estamos diante de um trágico círculo vicioso e o “mercado” ainda não se deu conta. Escravizado a uma crença que já está fora do tempo e do lugar (a de que o Estado está “quebrado”), o congresso aprovou uma proposta de auxílio emergencial para 2021 que perfaz ridículos 20% do que foi o auxílio de 2020. Nesse contexto, é óbvio, as pessoas mais carentes seguirão desobedecendo o isolamento porque elas simplesmente não têm escolha: precisam sair às ruas e arrumar algum dinheiro para sobreviver. Ademais, como o ritmo da vacinação segue muito lento e vigora a descoordenação total entre as autoridades, se nada de radicalmente diferente for feito imediatamente, ou a pandemia tende a se agravar ainda mais por aqui (e talvez também no mundo, com o desenvolvimento de novas cepas mais resistentes à imunização), ou, na melhor das hipóteses, ela levará ainda um bom tempo para retroceder de forma a permitir o início de uma volta à normalidade.

Olhada no contexto global, nossa situação é inacreditável. Enquanto em outros países assistimos ao reforço dos programas de transferência de renda e investimentos no combate à pandemia em meio à redução do número de mortes, por aqui o que ocorre é a redução do auxílio emergencial e o estrangulamento do orçamento da saúde em meio à aceleração das mortes e ao desenvolvimento de novas cepas!!! Será que aqui, o “deus mercado” ficou cego a ponto de não ver essa obviedade? Como pode, então, esse deus acreditar num cenário panglossiano segundo o qual, depois da inevitável queda do primeiro semestre, virá uma recuperação em igual intensidade na segunda metade do ano? O que faz o mercado acreditar que daqui há apenas 3 meses, com um pacote emergencial que, insisto, é 1/5 do anterior, estaremos numa recuperação em “V”? Hoje (01/04) temos tão somente 8% da população brasileira vacinada, número bem abaixo do que os especialistas consideram aceitável para começar a dispensar medidas rigorosas de isolamento social. Será que o deus mercado anda delirando e, embalado num auto engano, passou a crer que a guerra já está acabando ou está bem encaminhada?    

Diferentemente do sonho ingênuo dos economistas do mainstream, do deus mercado, dos ainda crentes na fada da confiança e daqueles com visão fiscalista de curtíssimo prazo, uma recuperação efetiva da economia não se iniciará sem a ampliação das medidas emergenciais e não poderá ser puxada apenas pela melhora da economia global. A esse respeito vale lembrar que o peso das nossas exportações no PIB é baixo (cerca de 15%) e que uma eventual revalorização da taxa de câmbio não deve trazer um ganho significativo para o salário real (dos privilegiados que continuam ganhando salário, claro) num ambiente de desemprego, subutilização da mão de obra e endividamento muito elevados. É preciso dizer e repetir: não haverá nenhuma melhoria digna de nota sem a adoção de medidas mais ousadas que viabilizem, entre outras coisas, um novo e amplo pacote de investimentos em saúde, infraestrutura, energias renováveis, nas cidades, etc.

Uma economia como a brasileira, que acumula graves problemas estruturais há cerca de quatro décadas, uma economia cuja indústria vem perdendo vigor, integração e capacidade de inovação desde os anos 80, uma economia que se apoia cada vez mais num setor de serviços e num agronegócio que geram baixíssimos efeitos multiplicadores, enfim, uma economia que, lembrando Celso Furtado, mesmo quando se desenvolvia antes, só o fazia reproduzindo o subdesenvolvimento, bem, essa economia não vai voltar a crescer de forma sustentada e tampouco reduzir desigualdades só porque acabou a pandemia e houve uma distribuição de renda emergencial em um ano.

Não nos esqueçamos também que os anos que se seguiram à grande recessão de 2015/16 mostraram a mais lenta recuperação que se teve notícia na história do Brasil. Não esqueçamos, ademais, que recentemente vieram reformas que, à guisa de melhorar o quadro fiscal e o ambiente macroeconômico, acentuaram a perversidade da nossa situação social. A proteção social aos milhões de vulneráveis diminuiu nos últimos anos e o mercado de trabalho está muito mais precarizado do que já era, o que, além de configurar uma injustiça terrível, dificulta ainda mais uma recuperação posterior da demanda agregada. Para piorar, no início de 2021, até por força da nova recessão de 2020, as famílias estão mais endividadas e, de modo quase inacreditável, os juros voltaram a subir para conter uma inflação que não é puxada pela demanda!

A imposição desde 2015/16 da agenda atual de reformas sob o pretexto da volta da confiança é mais do que uma ilusão; trata-se de um verdadeiro tiro no pé das intenções produtivistas em prol do reforço do rentismo! As privatizações, vale ressaltar, não significarão investimentos novos, mas apenas transferência de lucrativos ativos existentes das mãos do Estado para investidores privados – ou até quem sabe, para uma estatal de outro país. É preciso um grau de estadofilia e uma miopia muito avançados para crer que basta uma troca de mãos para os ativos começarem a gerar lucros excepcionais e desencadearem investimentos poderosos que trarão o círculo virtuoso da expansão da renda e do emprego. Entre outras omissões, essa ingênua suposição esquece que a própria agenda de reformas enfraquece a demanda agregada ao longo do tempo e que os adquirentes privados dos ativos estatais comprometerão seu caixa e/ou se endividarão exatamente para adquirir os ativos disponíveis.

Quanto ao equilíbrio fiscal, este só virá quando a economia voltar a crescer e/ou quando houver uma reforma tributária abrangente e apoiada em inequívoca progressividade, o que, convenhamos, não é o tipo de reforma que o governo atual deseja. O deus mercado, o governo e o mainstream brasileiro se recusam a ver, mas a História brasileira e mundial já mostrou várias vezes que é praticamente impossível fazer um amplo ajuste fiscal durante recessões ou períodos de baixíssimo crescimento porque, nesses contextos, a arrecadação sempre decepciona e a pressão por mais gastos sempre aumenta. Cortar e cortar gastos no meio da guerra só vai sacrificar, como sempre, o investimento público, o gasto social, a saúde, a educação, e a pesquisa, limitando ainda mais as perspectivas de crescimento futuro e justiça social. Na crise o gasto privado é sempre pró-cíclico. Cabe ao Estado o papel de reverter o ciclo pois a economia não se auto regenera. É preciso mais ousadia, como demonstram, aliás, as autoridades norte-americanas no pacote de US$ 2 trilhões para infraestrutura recentemente lançado.

A confiança que realmente importa será a confiança de que a pandemia está sendo verdadeiramente vencida, que a demanda vai voltar apoiada na alta do investimento, do emprego e da renda. Para isso ocorrer é preciso abandonar a receita simplória “privatize, corte gastos, melhore o ambiente de negócios e reduza a inflação, que o restante é consequência”. É urgente ter um amplo projeto de desenvolvimento. Lamentavelmente, o mainstream amaldiçoou o gasto público, a possibilidade do Estado coordenar uma estratégia de desenvolvimento e prendeu a economia nos grilhões do teto dos gastos. Estamos presos à narrativa do ajuste fiscal imediato, da “fada da confiança” e dos mercados auto reguláveis. No mundo essas ideias apodrecem a cada dia e já se antevê importantes novidades. Aqui a autocrítica é escassa, os interesses plutocráticos estão muito bem estabelecidos e a sabedoria convencional (embora cada dia menos sábia) ainda resiste. Mas há de chegar o tempo de despertar.

Sobre o Autor: Professor e pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura (NEC) da FACAMP.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora