A propaganda disfarçada de artigo científico

Por Lisandra Guedes

Hoje em dia eu fico com dúvida de propaganda: política, de alimentos, de drogas e de remédios, sob a forma de artigos simpáticos e com pouco critério, pouco olhar crítico.

Da Folha.com

Artigo científico faz propaganda de droga

A indústria farmacêutica está novamente no centro de um escândalo. Documentos confidenciais da gigante Wyeth –hoje incorporada à Pfizer– mostram que a companhia sistematicamente plantava artigos favoráveis a seus medicamentos em periódicos científicos.

O caso mais emblemático é o do remédio Prempro, usado para reposição hormonal em mulheres na menopausa. Nos EUA, o produto gerou uma ação pública, movida por 14 mil pessoas, que acusam a droga de aumentar o risco de câncer de mama.

ParaPara garantir opiniões positivas sobre a substância, a Wyeth pagava para empresas especializadas produzirem textos que ressaltassem suas qualidades –algumas não comprovadas– e escondessem efeitos colaterais, como casos de câncer.

O material pronto era oferecido a pesquisadores “de verdade”, que assinavam como autores do trabalho.

Essas “pesquisas” eram submetidas a diversos periódicos científicos, que publicavam o material como se fosse independente. Alguns acabaram em veículos renomados, como a “Archives of Internal Medicine”.

A mecânica completa do esquema é apresentada pela médica americana Adriane Fugh-Bergman, da Universidade Georgetown, na revista “PLoS Medicine”. Fugh-Bergman se debruçou sobre 1.500 documentos confidencias da Wyeth –liberados sob ordem judicial para a revista.

A papelada contém rascunhos de artigos, troca de e-mails e até a contabilidade do esquema. Em um dos e-mails, uma funcionária da DesignWrite –principal empresa contratada pela Wyeth– descreve o trabalho a um pesquisador.

“A beleza deste processo é que nós nos tornamos o seu pós-doutorando! Nós fornecemos um rascunho geral, ao qual você sugere mudanças e revisa. Nós então desenvolvemos um rascunho com os contornos gerais. Você tem todo o controle editorial sobre o trabalho, mas nós lhe forneceremos materiais para crítica e revisão.”

Segundo Fugh-Bergman, a realidade era bem diferente: eles só podiam fazer mudanças simples e que não descaracterizassem as mensagens de marketing pretendidas pela farmacêutica.

IMORAL, E DAÍ?

Usar “escritores fantasmas” não é ilegal, embora seja considerado antiético.

As empresas aproveitam uma brecha na regulamentação nos EUA. A FDA (agência responsável pela liberação de remédios) não considera artigos científicos como marketing. Ou seja: o que acontece nesse espaço não faz parte da sua área de atuação.

De acordo com o artigo, não existem evidências de que os autores foram pagos para assinar os trabalhos.

OUTRO LADO

A Pfizer, que comprou a Wyeth em janeiro de 2009, desqualificou as críticas de Adriane Fugh-Berman. “O artigo ignora completamente –e convenientemente– o fato de que os manuscritos publicados estão sujeitos a uma rigorosa revisão por pares feita por especialistas externos (…) e que a sua integridade e rigor científico já foram reconhecidos em vários julgamentos”, disse a empresa em nota.

A Pfizer afirmou que tem uma rígida “política de transparência” científica. De acordo com a empresa, as pesquisas em que a companhia está envolvida sempre mencionam todas as contribuições e coautorias presentes no processo.

A farmacêutica afirmou que empresas especializadas em escrever textos médicos “apenas auxiliam os autores a fazerem os rascunhos” e os cientistas têm “total controle sobre os trabalhos”.

Luis Nassif

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