A quarta guerra mundial já começou, mas não sabemos como será a quinta

O erro da maioria das pessoas é acreditar que a guerra começa com o primeiro tiro. De fato, todas as disputas e ações que antecederam este evento singular foram fundamentais para condicionar e possibilitar o início das hostilidades. Se a guerra é a continuação da política por outros meios (como disse Carl von Clausewitz) somos obrigados a admitir que a política é apenas guerra com outro formato.

A primeira guerra mundial começou como uma competição por colonias e mercados. E evoluiu para um rígido sistema de alianças militares que rachou a Europa e limitou as possibilidades de soluções negociadas dos conflitos. Quando foram acionadas, as engrenagens das máquinas de guerra assumiram o controle e destruíram o continente antes de serem desligadas.

A segunda guerra mundial começou por causa do acordo de paz extremamente punitivo imposto à Alemanha. E foi marcada pelo racismo e pelo ódio ao comunismo partilhado por nazistas, europeus e norte-americanos. A derrota do III Reich pelos aliados improváveis (EUA, Inglaterra e URSS) não foi capaz de desligar as máquinas de guerra. A crescente tensão entre os vitoriosos lançou as bases para a próxima guerra.

A terceira guerra mundial, que nós chamamos de Guerra Fria, dividiu e tencionou o planeta. Mas somente queimou as beiradas das áreas de influência dos EUA e URSS enquanto o terror da mutua destruição garantida provocava a estabilização da paz crescentemente armada e da guerra não declarada entre as superpotências nucleares. A recuperação econômica da Europa e o distanciamento entre Moscou e Pequim foram reorganizando o tabuleiro mundial até o momento em que a URSS entrou em declínio e implodiu.

Um  curto período de paz povoado por guerras civis de baixa intensidade foi emoldurado pela narrativa do fim da história. A ideologia de Francis Fukuyama ganhou muitos adeptos e alavancou a crença norte-americana de que os EUA haviam vencido a Guerra Fria. Contudo, é cediço que a URSS entrou em colapso por causa de suas contradições internas. A decadência dos regimes comunistas foi acelerada por movimentos populacionais estimulados pela Alemanha Ocidental, facilitados pela Hungria e não reprimidos por Mikhail Gorbachev.

Europa e América Latina seguiram apresentando resultados medíocres e pífios no período em que a Rússia amargava um declínio econômico acentuado. A China foi o único país que cresceu aceleradamente durante o Fim da História, mas Pequim tomou o cuidado de não desafiar abertamente a narrativa predominante nos EUA. Uma nova ordem mundial estava surgindo, mas havia um evidente divórcio entre os fatos e as narrativas que justificavam e estimulavam o unilateralismo irritante e irresponsável de Washington. Foi então que Bush Jr. chegou ao poder e rapidamente destruiu o prestígio, a economia e o unilateralismo norte-americano ao conquistar o Iraque usando como pretexto os atentados ao WTC.

A crise financeira de 2008, que segue produzindo novas crises porque o neoliberalismo financeiro não foi seriamente desafiado nos EUA, Europa e Japão, acelerou a construção de uma nova ordem mundial. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul não foram significativamente afetados pela crise de 2008 e formalizaram um novo bloco econômico. O BRICS foi sendo fortalecido e já criou um Banco. A Rússia aboliu os vistos para os cidadãos dos países membros e a medida certamente irá acelerar o turismo e as ligações econômicas privadas dentro da nova área econômica.

A preservação do neoliberalismo tem alimentado conflitos crescentes dentro dos países europeus e entre os membros da União Europeia. A obsolescência do Euro é evidente e a fragmentação da Europa uma possibilidade. A França começou a reforçar suas ligações com a Rússia, mas recuou um pouco ao deixar de entregar o navio de guerra encomendado por Moscou que foi construído num estaleiro francês. A Alemanha oscila entre aderir ao BRICS e preservar sua parceria hegemônica com os EUA que remonta ao fim da II Guerra Mundial.

É neste contexto que está começando a quarta guerra mundial. O novo conflito é marcado por uma reorganização global não controlada por Washington que vai acelerando o fim do triunfalismo unilateral norte-americano. As primeiras fraturas da ordem preexistente podem ser vistas na Ucrania e na Síria. Rússia, China e a maior parte da Europa estão criando um continente massivo que vai expandir e consolidar seus interesses na África e na América Latina. A construção do Canal da Nicarágua, a expansão da marinha chinesa e o eficaz combate ao terrorismo no Oriente Médio pela Rússia (com ajuda da França, da Alemanha e da China) estão isolando os EUA, tencionando suas parcerias e expondo as contradições da OTAN.

Atordoado pelos desafios externos crescentes e paralisado em virtude da destrutiva oposição interna, Barack Obama é incapaz de recuperar através da diplomacia a hegemonia perdida pelos EUA. E para piorar as coisas não são poucos ou impotentes os norte-americanos que ainda acreditam no Fim da História e na inevitabilidade da predominância total e global de Washington. O terror do isolamento progressivo aliado à impossibilidade de vingança posterior contra um mundo que, do seu ponto de vista, se desorganiza de maneira ilegítima obrigará a elite dos EUA a enfrentar um dilema fatal: morte lenta garantida do “American way of empire” pelo fortalecimento crescente dos adversários ou aborto violento de uma nova ordem mundial que não lhe interessa.

Albert Einsten disse que não sabia como seria a terceira guerra mundial. Nós não sabemos como será a quinta. Uma coisa, porém, pode ser dita: o novo mundo não será admirável. Será uma cópia piorada do que o precedeu. O mundo em que crescemos e vivemos, contudo, nunca foi um paraíso. E de fato ele tem se tornado um inferno para a maioria dos seres humanos em razão do neoliberalismo que concentrou todo o poder político e econômico nas mãos das elites financeiras dos EUA e da Europa.

 

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