A reciclagem dos investimentos

Coluna Econômica

No final dos anos 90, o Banco Central planejou, na surdina, a recompra de títulos da dívida brasileira. O mega-investidor Jorge Paulo Lehmann se antecipou e adquiriu títulos não apenas da dívida brasileira como russa. Um movimento de recompra de títulos brasileiros influenciaria o mercado de dívidas soberanas.

De repente eclodiu a crise russa, algo que não estava no horizonte de previsões do BC brasileiro nem de Lehmann. Os títulos despencaram de valor. O Garantia – banco de Lehmann – sofreu enorme prejuízo.

Aquele momento marcou uma mudança no modelo financista brasileiro. Mais acurado dos empresários do período, Lehmann se desfez de sua participação no banco e caiu de cabeça em investimentos na economia real.

Em poucos anos, transformou a Ambev na maior cervejaria do mundo.

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Digo isso a propósito de artigo recente que li em O Globo, do economista Paulo Guedes. Ele era sócio do Banco Pactual, que tentava seguir os caminhos do Garantia. Na época, escrevi sobre essa postura de Lehmann, que sinalizava uma mudança fundamental no modelo financista brasileiro.

À custa de informação privilegiada e da maneira como se relacionavam com o Banco Central, acumularam enormes fortunas. Teriam papel central na reestruturação da economia brasileira apenas quando os juros da renda fixa fossem menores ou quando o risco se tornasse excessivo.

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Na época conversei longamente com Guedes, economista muito preparado e papo bastante agradável. Sua opinião era a de que Lehmann perderia dinheiro, visto ser impossível os ativos reais acompanharem os rendimentos das taxas de juros.

A grande diferença entre economistas, analistas e grandes empreendedores é que estes têm a intuição, o faro para perceber antes dos outros a mudança dos ventos.

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De lá para cá houve enormes mudanças no mercado mundial. O excesso de liquidez levou à redução dos juros e à consequente valorização extraordinário de ativos reais.

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No seu artigo em O Globo Paulo Guedes analisa a transição atual dos ativos financeiros para a economia real. Com mais de dez anos de atraso sobre Lehmann.

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Mesmo assim, o grande movimento ainda não ocorreu em sua plenitude, abortado sucessivamente por elevações de juros pelo Banco Central.

Hoje em dia há uma enorme massa financeira em fundos de investimentos, fundos off-shore, em ativos brasileiros no exterior. Paralelamente, o mercado conseguiu desenvolveu uma boa tecnologia de análise de investimentos, de montagem de planos de negócio.

Mas ainda falta o estalo capaz de deflagrar essa grande revolução de investimento, que irrigará novos setores, garantirá recursos para a infra-estrutura.

Para que esse processo comece, há alguns pontos a serem superados. Primeiro, as eleições. Segundo, os desajustes no câmbio. Em um ponto qualquer do futuro, no segundo semestre ou, no máximo, no primeiro semestre do próximo ano, haverá um ajuste inevitável, devido aos déficits crescentes na conta corrente.

Passado o impacto inicial sobre preços, um presidente de BC corajoso que dê início à queda definitiva dos juros. 

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