A visão de mestre Wanderley sobre o novo e as manifestações de junho

Há muito tempo tenho Wanderley Guilherme dos Santos como minha referência maior nas ciências políticas brasileiras. 

É referência por dois motivos.

Primeiro, pela inigualável capacidade de entender a história de acordo com as forças sociais e políticas que a compõem e/ou interferem na democracia representativa. 

Segundo, pelo não-dogmatismo. Quando surge um fenômeno novo, Wanderley não se prende ao dogmatismo nem às suas próprias primeiras conclusões. É capaz de analisar, re-analisar e tornar a analisar, acompanhando os fenômenos e conformando suas análises ao que observa.

Nas manifestações de junho, ousei divergir do mestre.

Tomou posições radicais contra os movimentos, considerando-os de um niilismo inconsequente (http://tinyurl.com/jwdwxeu). “Sob cartolinas e vocalizações caricaturais não se abrigam senão balbucios, gagueira argumentativa e proclamações irracionais”. Ironizou os “semi-cultos” que pretendem enxergar um novo Ágora ateniense. E garantia que “das ideias, táticas e projetos que difundem não surgirá uma, uma só, instituição política decente, democrática ou justa”. Nada substituiria a democracia representativa e suas instituições.

Sua influência intelectual contaminou um exército de seguidores, que se tornou mais radical que o mestre, interpretando os movimentos como manobras da direita visando retirar dos sindicatos e movimentos sociais a primazia das ruas e tratando os que ousassem discordar como traidores da causa. Em casa mesmo senti o impacto dos ecos da crítica de Wanderley.

Respondi com o artigo “Ao mestre Wanderley Guilherme dos Santos” (http://migre.me/huEUN)).

Nele, procurei apontar o que via como o divisor de águas explicitado pelo movimento e a importância da manifestação difusa de insatisfação como sinal de esgotamento dos canais convencionais, com o advento das redes sociais.

Não considerava as manifestaçÕes nem manipulação política nem mera questão pontual, mas o sinal de um novo quadro sócio-político em formação, devido aos seguintes fatores em mudança:

1. A mídia como elemento de pressão sobre as políticas públicas.

Na democracia representativa, os meios de comunicação se constituem no instrumento mais eficiente de influenciar políticas econômicas. (…) O simples fato do modelo convencional ter implodindo muda o cenário de políticas públicas – gostando-se ou não do novo modelo.

2. As instituições capilares como meio de arregimentação política

Os principais agentes da política brasileira são os partidos tradicionais, sindicatos, igrejas e interesses difusos influenciados pela mídia. Todos com capilaridade garantindo massa crítica de votos. Com as redes sociais, muda o modelo. (…)

3. O novo Ágora

Wanderley não gostou da comparação das redes sociais com o Ágora grego. Mostrou que o Ágora grego legislava sobre pontos muitos específicos das cidades gregas e obedecia a regras claras de participação. Não foi essa a intenção ao comparar as redes sociais com o Ágora, mas o fato de toda discussão pública se dar dentro de uma mesma plataforma tecnológica. (…)  Um comentário bem posto de um blog é capaz de derrubar a matéria do maior jornal brasileiro pelo simples efeito viral. Há implicações radicais sobre o jogo de pressões democrático.

4. A rapidez do ativismo digital e o ritmo da democracia.

Democracias embutem processos inevitavelmente lentos, seja de incorporação de novos atores ou aceitação de novos conceitos. O ativismo digital trouxe um componente de urgência incompatível com os ritos democráticos tradicionais. Não se trata de gostar ou não: são dados da realidade. O desafio consistirá em aceitar a nova realidade e debruçar-se sobre as formas capazes de dar organicidade e disciplina a essas demandas.

Das ruas não brotarão os novos conceitos, dizia Wanderley. Ao que eu rebatia: “De Wanderley, certamente que sim, assim que aceitar o ativismo online como um dado da realidade, irreversível, e o caos atual como a desordem que precede a nova ordem, uma realidade que surgiu com o advento das novas tecnologias e com as quais se terá que conviver, disciplinar e institucionalizar. E esse processo civilizatório será pavimentado pelo conhecimento, sabedoria e engenho dos verdadeiramente cultos, como Wanderley”.

O cenário atual, por Wanderley

Em artigo de duas páginas na Carta Capital desta semana, com sua competência habitual  Wanderley monta o quebra-cabeças político atual, onde se encaixa cada ator e passa a incluir nas análises os manifestantes de junho como o fato novo. Não os aceita ainda como manifestações de um novo modelo. Mas é questão de tempo para que, com sua invejável capacidade analítica e abertura para o novo, passe a incorpora-las de forma orgânica em suas análises. 

O raciocínio desenvolvido no artigo leva a isso:

1. O ponto central da análise foi a ida do PT para o que ele define como “centro estendido”, empurrando a oposição para a vizinhança da extrema direita e para o naufrágio conduzido pelo almirante José Serra. 

2. Espremido por esse centro estendido do PT, restou à oposição apenas “a encenada indignação moral e acenos genéricos de eficiência”, além de um “reacionarismo religioso e na livre defesa de um mercadismo de fachada”.

3. O centro estendido teve um custo para o PT. Não só atrapalhou o que Wanderley denomina de “campo progressista” como qualquer opinião divergente, autônoma, em relação à cadeia de comando dos líderes do centro-baleia é atacada como reacionária. (Prezado Wanderley, se soubesse o que levei na cabeça de sua discípula por ousar afirmar que havia fato novo nas manifestações de junho…) Com essa interdição – constata Wanderley – há poucas probabilidades das deficiências do governo serem apontadas pelos aliados. “O governo opera com déficit de crítica consistente”. E avanços sociais acabam dependendo de manifestações de inconformismo, desconectadas da oposição.

E como ficam as instituições tradicionais da democracia representativa, aquelas que as manifestações de junho consideraram incapazes de abrigar as novas demandas?

Segundo Wanderley, o sindicalismo copia estereótipos do que ele chama de “pauta direitista genérica”: ensino público de qualidade, saúde pública, transporte, moradia, segurança. Pautas inclusivas, como elegibilidade para analfabetos ou participação de trabalhadores na administração das grandes empresas, “nem pensar”. Para ele, os sindicatos não se recuperaram do choque de terem perdido as ruas, em junho de 2013.

Além disso, o governo montou uma coalizão que tornou irrelevante o apoio do centro-esquerda. O rumo do governo é vigiado pelo núcleo duro da centro-direita.

E aí se chega ao momento atual do governo. “Sob inegáveis vitórias econômicas”, o governo escondeu a pauta da modernização do pluralismo social brasileiro, por imposição da direita do centro. “A Presidência tornou-se forte parlamentarmente ao preço de se enfraquecer perante a sociedade em mudança”.

Onde está o novo

Wanderley enxerga o novo em um conjunto de atores recentes, “menos abrangentes que as classes, corporações profissionais e cristalizados grupos de interesse, que proliferam como “pequenas coletividades de exígua tolerância e com exigentes critérios de pertencimento”.

Wanderley denomina esses movimentos de “micróbios”, pelo pequeno tamanho e por não terem um denominador comum. Isso. Entram nesse universo desde partidos nanicos como PSTU e PSOL, grupos nanicos reivindicando direitos, ou só comemorando a própria existência, avessos a partidos, sindicatos e corporações de ofício. Isso!

Incorpora os conceitos sobre a fragmentação do poder desenvolvidos por Moyses Nain, que chama a esses grupos de “micropoderes”. A posição de Nain é que a proliferação desses grupos não cria uma nova hegemonia mas dilui as formas tradicionais de poder, criando problemas institucionais.

Wanderley ainda os trata como erupções de curto prazo de curta duração. E julga que influirão nas eleições, que “também são fenômenos de curto prazo”. Por isso mesmo: “Os democratas deveriam voltar às ruas para conquistá-las”. Viva!

A explosão dos “micróbios” ou “micropoderes” provocou uma diluição na estrutura de poder, no arcabouço institucional das democracias representativas. Ou se criam novos modelos, capazes de canalizar essa explosão de demandas, dotando o país de uma nova institucionalidade, ou se viverá sob a ótica da instabilidade política permanente.

Em breve, o mestre ampliará sua visão do fenômeno. Quando isso ocorrer, ajudará a iluminar as discussões sobre o novo.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora