Abuso: Polícia usa foto de 10 anos atrás para acusar homem negro de assassinato

Indícios frágeis e contraditórios levam para a cadeia corretor que, na hora do crime, estava a 20km do local dos fatos

do Brasil de Fato 

Abuso: Polícia usa foto de 10 anos atrás para acusar homem negro de assassinato

por Igor Carvalho, do Brasil de Fato | São Paulo (SP)

O corretor de imóveis Guilherme Teixeira Mendonça de Matos, um homem negro, foi detido na última quinta-feira (17), acusado pelo assassinato do policial civil aposentado José Dirceu Gordilho, ocorrido 11 dias antes (6 de outubro), e teve prisão preventiva decretada pela Justiça. Desde então, sua família peregrina por diversos órgãos oficiais da estrutura da Segurança Pública paulistana buscando informações sobre o caso e afirmando a inocência do jovem, que segue preso.

De acordo com a investigação policial, dois homens em um Gol branco se aproximaram da residência de Gordilho quando ele se preparava para estacionar seu veículo na garagem de sua residência e o assassinaram a tiros na frente da esposa, Cleide Escrepante Gordilho, que abria o portão.

Os assassinos abandonaram e incendiaram o Gol a alguns quilômetros da residência de Gordilho. O veículo pertencia a Guilherme Matos até 2014, quando ele vendeu para um comprador do município de Ourinhos, a 370 km da capital paulista.

Desde então, outras três pessoas foram proprietárias do automóvel, que atualmente pertence a um munícipe também de Ourinhos, mas que não foi escutado pela Polícia Civil no inquérito do caso. A investigação policial não responde como o carro saiu do interior de São Paulo e chegou até a capital.

No inquérito, um cabo e um soldado da Polícia Militar afirmam que abordaram o Gol branco utilizado no assassinato de Gordilho nos dias 13 e 25 de setembro, durante operações de rotina. De acordo com os agentes, em depoimento prestado no dia 6 de outubro, Guilherme Matos era o condutor que estava ao volante no momento das duas abordagens.

Brasil de Fato solicitou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informações sobre essas abordagens e indagou sobre a possível existência de documentos que comprovem as operações. O órgão se recusou a responder os questionamentos.

Benedito Mariano, ouvidor da Polícia Militar do Estado de São Paulo, afirma não estar convicto sobre a alegação dos agentes. “Eu tenho dúvidas de que efetivamente houve abordagem do Guilherme com um carro que ele não usa há cinco anos. Pode ter abordagem simples, que faça registro, e outras não. Precisa ser averiguado se era o Guilherme nessa abordagem. Eu tenho dúvidas. E o questionamento da família é pertinente”, afirmou.

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Para Rodrigo Mendonça, irmão de Guilherme Matos, a investigação não é precisa. “É tudo muito mal explicado. Pedimos os documentos dessas abordagens para a polícia, mas não nos mostraram. Não sei se existem. A polícia precisa esclarecer como esses policiais possuem uma memória tão maravilhosa”, afirma.

Na empresa em que Matos é funcionário, em Taboão da Serra, região metropolitana, a escala de trabalho mostra que nos dois dias, 13 e 25 de setembro, o corretor estava de plantão na vila Guilherme.

Reconhecimento por foto

Cleide Escrepante Gordilho, esposa da vítima, reconheceu Matos como assassino de seu companheiro após a equipe da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) lhe mostrar a foto da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) do corretor.

Antes de ter acesso a imagem da CNH de Matos, em seu depoimento, Cleide Gordilho descreve com impressionante precisão o suspeito do assassinato do marido, que teria visto por pouco tempo. “Se trata de um indivíduo moreno, com rosto fino, compleição física magra, olhos castanho-escuros, sobrancelhas pretas, aparentando ter cerca de vinte e cinco anos de idade”, aponta.

A foto da CNH de Matos é de 2009 e hoje ele usa óculos, item que não aparece na foto de dez anos atrás nme na descrição que a mulher faz. “Hoje, meu irmão é completamente diferente, possuiu outras características”, explica Rodrigo Mendonça.

O reconhecimento feito apenas com a foto da CNH, de acordo com o tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo Adilson Paes de Souza, é “totalmente ilegal”.

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“O Código de Processo Penal estabelece regras para o reconhecimento de pessoas. Elas devem ser colocadas numa sala com outras pessoas e características iguais para que sejam reconhecidos. É óbvio que o reconhecimento foi dirigido. Você mostra uma foto e pergunta se é o assassino. Não pode, não existe isso.”

Ainda de acordo com Souza, há indícios de que agentes tenham cometido crime na condução da investigação. “Se a prisão é embasada nesse reconhecimento, é nula e deve ser reconhecida. Vou dizer mais, o delegado cometeu abuso de autoridade.”

Mariano concorda. “É irregular o que foi feito. Um reconhecimento de suspeito não pode ser feito dessa forma. É mais uma fragilidade desse processo, essa foto é de dez anos atrás, ninguém permanece igual depois de uma década”, argumenta o Ouvidor da PM.

Taboão da Serra x Cidade Dutra

No dia 6 de outubro, às 7h05, momento em que Gordilho era assassinado em sua residência, Matos estava na casa de sua namorada, em Taboão da Serra, com os dois filhos do primeiro casamento, afirma seu irmão, Rodrigo Mendonça.

Às 7h02, utilizando seu perfil pessoal no Facebook, Matos postou um texto defendendo o voto na eleição dos conselhos tutelares, que aconteceria naquele dia. “Votação dos conselhos tutelares hoje, votem mas levem em consideração que o livro que rege os conselhos tutelares é o ECA e não a bíblia, pelamor, não votem nesses imbecis que só querem um trabalho e difundir seus ideais retrógrados na cabeça de crianças e sabe Olorum mais o quê, votem em pessoas reais com compromisso real em melhorar a vida de crianças.”

“Ele tinha acordado cedo e ia votar na eleição dos conselheiros tutelares. Colocou a Peppa Pig (desenho infantil) para os filhos no celular”, afirma o irmão. “Não tinha a menor hipótese de meu irmão estar em Cidade Dutra, local que nunca pisamos na vida, inclusive”. A distância entre um local e outro é de cerca de 20 km.

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“É um abuso”

Para Mariano, Matos precisa ser solto imediatamente. “Pela minha experiência, ele deve ter a liberdade ainda nesta semana. São provas frágeis para mantê-lo preso. Sobretudo com as afirmações da família que tem condições de provar que ele não estava em São Paulo no dia que aconteceu o assassinato do policial”, encerra o ouvidor da PM.

Diante da “fragilidade das provas”, Paes considera a hipótese de que Matos tenha sido vítima de uma armadilha. “Ou algum policial tem alguma coisa contra esse sujeito que está preso e quer fazer com que uma camiseta P sirva nele que é G, ou a polícia, na ânsia de dar resposta, cometeu um equívoco. É um abuso.”

“Minha família jamais será a mesma, estamos traumatizados. Minha mãe foi encaminhada para o médico, está com o rosto muito inchado. Tanto a namorada, quanto a ex-mulher estão muito abalados”, lamenta Rodrigo Mendonça, que lançou uma campanha do irmão. 

Outro lado

Brasil de Fato enviou perguntas à SSP-SP referentes ao caso. O órgão enviou uma nota sem respondê-las. Confira o teor do documento:

“Todas as circunstâncias relativas ao caso são investigadas por meio de inquérito policial instaurado no DHPP. O pedido de prisão temporária do referido suspeito foi decretado pela Justiça, de acordo com o conjunto probatório e as oitivas colhidas até o momento. As investigações, bem como o trabalho de análise de novas informações e provas estão em curso para a elucidação dos fatos e prisão dos autores”

Edição: João Paulo Soares

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