Afinal Pessoa não enjoa e leva-nos a outros autores

 

Foi uma tarde inteira à conversa sobre Fernando Pessoa. Adriana Calcanhotto, Jerónimo Pizarro, Afonso Reis Cabral e o público que encheu a Livraria Cultura em São Paulo tornaram Pessoa quase brasileiro.

A cantora e escritora brasileira [Adriana Calcanhoto] contou que um dia o poeta brasileiro Manuel Bandeira (1886-1968), numa conversa com a académica Cleonice Berardinelli, especialista em literatura portuguesa, disse “uma coisa muito bonita sobre os heterónimos”: que “via claramente o Fernando Pessoa querendo sair de si mesmo”.  

 

por Isabel Coutinho – Público

Há dias em que Jerónimo Pizarro, o académico especialista na obra de Fernando Pessoa, sente que foi de Álvaro de Campos que grande parte da poesia contemporânea, portuguesa e brasileira, surgiu.

Álvaro de Campos talvez seja o heterónimo em que há mais de Pessoa dentro de todos os que Fernando criou, e foi importantíssimo para uma série de poetas, nomeadamente para os que passaram pelo surrealismo tardio português, como Mário Cesariny e Alexandre O’Neill. “Nesta linha está também a poesia concreta brasileira e o tropicalismo”, explica o coordenador da colecção da Tinta da China dedicada ao poeta na sessão Fernando Pessoa: a língua é onde não estou, domingo à tarde, no terceiro andar da Livraria Cultura Shopping Iguatemi, em São Paulo.

O investigador colombiano conversou com Adriana Calcanhotto (que em 2014, foi a ‘directora por um dia’ no aniversário do PÚBLICO). A cantora e escritora brasileira contou que um dia o poeta brasileiro Manuel Bandeira (1886-1968), numa conversa com a académica Cleonice Berardinelli, especialista em literatura portuguesa, disse “uma coisa muito bonita sobre os heterónimos”: que “via claramente o Fernando Pessoa querendo sair de si mesmo”.  

Isso levou Adriana a lembrar uma história polémica, “que há uma corrente que defende que o autor de Mensagem tinha um pénis muito pequeno [terá sido António Botto a dizê-lo], parecia mais um clítoris e que isso o incomodava” (a história está contada em Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho). “Então se considerarmos isso, um homem com um pau muito pequeno é um homem querendo sair de si mesmo. Podemos considerar ou não essa tese, mas quando a gente considera me parece que faz muito sentido”, afirmou Calcanhotto. “Adoro essas histórias. Por exemplo, que Mário de Sá-Carneiro seria transgénero. E se você ler a obra dele considerando que era transgénero, fica tudo mais… Mas não vamos para Sá-Carneiro [um dos fetiches literários da cantora], se não vamos nos perder!”

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A propósito de tudo isto, que pode ser perfeitamente possível, Jerónimo Pizarro anunciou que está a ser preparada uma obra sobre o homoerotismo em Fernando Pessoa. E que, em breve, será lançada na sua colecção na Tinta da China um livro do historiador José Barreto sobre Pessoa e as mulheres, uma “relação nada simples”.

Há muitas ideias sobre se Pessoa foi ou não foi homossexual. Teve fases em que poderá ter sido. Outras não. “Que teve um relacionamento muito especial com Mário de Sá-Carneiro, é claríssimo. Que a sexualidade está no centro da obra pessoana, é uma questão evidente. Mas há muito ainda para se saber sobre a sua sexualidade complicada, que está relacionada com a heteronímia e da qual não deveríamos fugir tanto”, diz o titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia. “Sinto que temos uma imagem muito ‘branca’ de Fernando Pessoa em termos da sua sexualidade [através das cartas a Ofélia, por exemplo]. A sexualidade era o que mais escondia Fernando Pessoa, que já escondia grande parte da sua personalidade.”
 
Contra Mussolini

Na colecção que Jerónimo Pizarro dirige saiu recentemente um livro que reúne os escritos de Pessoa sobre o fascismo, organizado por José Barreto. Por isso, o colombiano lembrou, na conversa, que entre os pelo menos 136 autores fictícios de Fernando Pessoa existe um criado de propósito para atacar o ditador Mussolini: Giovanni B. Angioletti, de quem existem dois textos – uma entrevista fictícia e uma carta – publicados no diário lisboetaSol, em Novembro de 1926.

Este é um dos autores fictícios de que Pizarro gosta mais. Foi uma descoberta conjunta do historiador José Barreto e sua – Giovanni B. Angioletti, uma figura que existiu realmente e pertenceu aos Camisas Negras italianos e foi apoiante de Mussolini, mas de cujo nome Pessoa se apropriou. “Pessoa obriga-nos constantemente a passar da ficção à realidade”, afirma Pizarro, e, por isso, com a ajuda do biógrafo italiano de Angioletti, os dois investigadores conseguiram perceber que o italiano nunca esteve em Lisboa e que dificilmente escreveria algo a dizer mal de Mussolini.

Fernando Pessoa armou tudo: para fugir à censura, utilizou o nome de uma pessoa que realmente existia para conseguir publicar no jornal um ataque ao fascismo italiano. “Era dificílimo perceber que Angioletti era um dos autores fictícios de Pessoa, a descoberta só aconteceu em 2012/13. Tínhamos no espólio de Pessoa os rascunhos do que tinha sido escrito para o diário lisboeta por Angioletti, e era uma grande incongruência ter na letra do Pessoa um artigo dele.” Por isso foram investigar.

Adriana Calcanhotto aproveitou para perguntar como é que tinham sido eles a fazer esta descoberta no espólio, visto que muitos outros investigadores já por lá tinham passado e não se tinham apercebido. “Quando falo do espólio, estou a falar metaforicamente, porque, hoje, estar dentro do espólio é ter-se uma cópia digitalizada. O espólio de Fernando Pessoa não está escondido. Mas se estivesse, então estava no lugar mais visível do mundo: na Biblioteca Nacional de Portugal. E se as coisas não foram descobertas, é muitas vezes porque estão em cima da mesa. O que está no lugar mais visível é muitas vezes o que não conseguimos ver”, respondeu Pizarro.
 
Pessoa até fartar
Foi através de um disco de Maria Bethânia em que declamava Pessoa que Adriana Calcanhotto tomou contacto com a obra. Já Jerónimo Pizarro leu Pessoa por via de um livreiro na Colômbia, que lhe sugeriu que comprasse oLivro do Desassossego. Mas a decisão de que aquele seria o autor da sua vida aconteceu depois de ter lido todos os livros de Pessoa que tinha conseguido encontrar.

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Um dia chegou a Lisboa, entrou no arquivo do espólio de Pessoa na Biblioteca Nacional e sentiu que era ignorante. “O espólio era muito mais vasto do que a sensação que temos todos, e que eu tinha, de que tanto Pessoa já enjoa, a ideia de que em Portugal Pessoa está presente de mais e temos muitos autores fartos dele. Eu próprio, há dias em que acordo cansado e tento fugir a Pessoa”, confessou Pizarro, que tem uma necessidade íntima de sentir que este grande escritor tem de servir para se entrar no seu mundo, mas também para se sair dele e ser-se levado a novos autores. “Fernando Pessoa, neste momento, já tem de servir para não me afundar no arquivo, mas para sair do arquivo e me levar a outros autores. E muitos desses autores estão no Brasil”, disse.

Sem escapatória
Foi isso que aconteceu no domingo, em São Paulo, aos leitores que enchiam a sessão mais concorrida até agora do evento organizado pelo PÚBLICO e pela Livraria Cultura em parceria com o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua em Brasília, e que decorre até 15 de Abril com a participação de escritores dos dois países. Na primeira fila, estava sentado o escritor português E. M. de Melo e Castro, que vive em São Paulo e não quis fazer declarações para um jornal português, a sua filha, a cantora Eugénia Melo e Castro, e a académica especialista em Eça de Queirós, Elza Miné.

Pouco depois daquela conversa, foi a vez de Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Leya 2014, participar no evento num diálogo com Gustavo Ranieri, editor da Revista Cultura. Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, o escritor português lembrou que nas aulas da faculdade teve um boom de  Fernando Pessoa, por quem se sentia fascinado, e que também sentiu necessidade de se afastar. Hoje é principalmente leitor de clássicos.

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No seu romance, Reis Cabral conta a história de dois irmãos, um deles professor universitário, divorciado e misantropo, e o outro, Miguel, que nasceu com Síndrome de Down.

Da plateia, com sotaque português, veio uma confissão de um leitor que disse ainda não ter tido coragem para ler o romance porque, além de ser da mesma idade do escritor, tinha também um irmão mais jovem com uma doença rara. No entanto, queria saber se não tinha sido difícil o processo criativo numa situação de tanta proximidade, já que o escritor português tem um irmão com a doença. “Teria de haver momentos de grande tensão”. Este era um tema sobre o qual teria necessariamente de escrever, quer fosse aos 20 ou aos 90 anos. “Esta história era demasiado forte para eu não a contar.”

Agora, Afonso Reis Cabral está já a pensar em escrever um novo livro. Mesmo que O Meu Irmão não tivesse sido publicado, nem tivesse recebido o Prémio Leya, o escritor acredita que estaria sempre a enfrentar um dilema. “Este livro tem um fundo autobiográfico e não sei bem que outros livros não o terão. Mas como é que, agora, vou pegar noutro fundo autobiográfico? Não tenho grande experiência de vida. Como vou chegar a isso? São questões em que penso, que de certa forma condicionam a escrita, mas a escrita tem de vencer isso”.

 

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3 comentários

  1. Dramin?

    Pessoa nunca enjoa, mas incomoda. Na semana passada, eu e meus alunos do curso de Letras líamos a “Chuva oblíqua” e uma aluna me fez um dos maiores elogios da vida: “Odeio esta aula!” Por quê? “Ela me faz pensar!”

  2. Pena que foi na livraria

    Pena que foi na livraria cultura mais elitista da cidade, coisa para quem tem muito dinheiro. Esta faltando cultura para quem mais precisa. Os artistas deveriam se negar fazer qualquer coisa nestes espaços privados que não tem facil acesso a população. Shopping é lugar de consumo não de idéias. Cultura que nasce morta.

  3. Pena que foi na livraria

    Pena que foi na livraria cultura mais elitista da cidade, coisa para quem tem muito dinheiro. Esta faltando cultura para quem mais precisa. Os artistas deveriam se negar fazer qualquer coisa nestes espaços privados que não tem facil acesso a população. Shopping é lugar de consumo não de idéias. Cultura que nasce morta.

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