Agricultura pode dobrar área sem desflorestar

Brasil pode dobrar área agrícola sem derrubar uma única árvore. O país conta com aproximadamente 200 milhões de hectares de pastagens e 70 milhões de hectares utilizados na produção agrária. Mas, pesquisa realizada pela WWF-Brasil, a pedido da Allianz Seguros, revela que 30% do espaço aberto pela pecuária, ou 70 milhões de hectares, podem ser convertidos em áreas para produção de grãos e cana de açúcar, sem prejuízo da criação de gado ou necessidade de desmatar florestas.

Segundo relatório da ONG, se o processo atual de produção de grãos e de matérias-primas para biocombustíveis continuar, nos próximos 10 anos essas atividades irão se expandir alcançando mais 10 milhões de hectares, sobretudo, no bioma Cerrado.

As áreas da atividade pecuarista, que podem ser cedidas à agricultura, são pastagens já degradadas. E segundo o pesquisador da Embrapa Sudeste, Alberto Bernardi, a recuperação do solo é economicamente inviável aos criadores. Entretanto, a partir do plantio e rotação de culturas de milho, soja, sorgo e feijão, é possível manter a composição química do terreno.

O sistema mais indicado para incentivar a produtividade agropecuária no país é o de Integração-Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). A partir dele, é possível plantar capim e receber o gado nos meses em que não é época de plantio de soja ou milho. Entretanto, o tempo de maturação entre uma atividade e outra é diferente. O coordenador da Comissão de Sustentabilidade Socioambiental, da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja), Ricardo Arioli, explica que o desenvolvimento da soja ocorre em 120 dias, mas, na última safra, o estado conseguiu a maturação em 100 dias. Em contrapartida, o tempo médio entre nascimento e idade de abate do gado é de 48 meses, segundo o diretor executivo da Associação dos Proprietários Rurais do Mato Grosso (APR-MT), Paulo Resende.

O animal pode ser confinado e abatido com idade entre 30 e 36 meses, dependendo da disponibilidade de alimento, tecnologias genéticas e técnicas de engorda, que envolvem ainda melhor variedade de pasto, ou seja, aquele que cresce em menor tempo.

O confinamento dos rebanhos também é estudado para melhorar o aproveitamento de área no campo. A proporção brasileira de animal por área é de uma cabeça por hectare. Resende explica que essa ocupação está diretamente relacionada à disponibilidade de pasto necessária para alimentar, sobretudo, gado leiteiro e cria. “É possível quadriplicar o número de animais por hectare, até mesmo elevar por dez. Se você tem mil hectares, mais condições técnicas para engodar seu boi, poderá criar mil cabeças em 400 hectares e ceder 600 hectares para agricultura, aumentando a capacidade de suporte por área”, explica.

Incentivos/BNDES

O porta-voz da APR-MT ressalta que a melhora na produtividade por espaço da pecuária necessitará de incentivos do governo. “Sabemos que os recursos existem, mas o acesso não é fácil porque os juros são altos e o prazo para devolução não condiz com a realidade do criador de gado”, completa.

O Plano Agrícola Pecuário, PAP 2009/2010, oferece apoio financeiro por meio do Programa de Incentivo à Produção Sustentável do Agronegócio (Produsa). O plano oferece linhas de crédito para investimentos em sistemas agropecuários que respeitem a legislação ambiental, assim como a ILPF e a produção de alimentos orgânicos. Sendo que, nas duas últimas safras a tomada de crédito do programa triplicou.

No período 2008/2009 a carteira, administrada pelo BNDES, disponibilizou R$ 1 bilhão, tendo emprestado R$ 45 milhões. Esta semana, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), divulgou que de R$ 1,5 bilhão, oferecido para a safra atual (2009/2010), foram financiados R$ 164 milhões.

Paulo Resende destaca que dez anos deve ser o tempo médio para devolução de empréstimos realizados ao pecuarista, uma vez que o retorno financeiro da atividade é superior a do agricultor – 48 meses contra 120 dias. E que as condições oferecidas nos financiamentos não são facilitadas ao pequeno e médio produtor.

O porta-voz da Aprosoja, Ricardo Arioli, completa que o setor ainda se recupera da crise sofrida pela queda do dólar, forte estiagem e juros altos, enfrentados em 2005, portanto muitos produtores não estão em condições de acessar créditos. A Comissão de Sustentabilidade da associação, juntamente com outras entidades do setor, estudam pedir a redução de impostos ao governo, como forma de incentivar a sustentabilidade do plantio e da criação de gado.

Impasse da Integração

A realização da ILPF entre agricultores é muito mais fácil do que entre pecuaristas. O pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Alberto Bernardi, explica que se o criador de gado quiser utilizar parte de seu terreno para produzir grãos, necessitará investir em equipamentos de plantio e colheita, além da compra de mudas e grãos competitivos. Em contrapartida, o agricultor que quiser usar parte de seu espaço para criação de boi, poderá aproveitar o período entre safras. Na época do plantio de milho, por exemplo, planta-se capim junto do grão. Após a maturação das duas culturas, colhe-se o milho deixando o capim que será aproveitado pelo gado no inverno, quando não é período de cultivo dessa variedade.

“A agricultura exige um know how muito grande e para quem sempre trabalhou com gado é preciso investimentos consideráveis para agregar mais essa atividade”, diz Arioli. Uma opção para o pecuarista é arrendar parte da sua terra ao produtor de grãos que, por sua vez, devolveria o espaço com pastagem pronta no inverno.

Quando perguntado sobre a capacidade que o Brasil tem de estender a produção agrária sobre espaços da pecuária, apontada pela WWF-Brasil, de 70 milhões de hectares, o porta voz da Aprosoja responde que não é possível que o país tenha tanta área para aproveitar. “Aqui no Mato Grosso, por exemplo, temos 25 milhões de hectares utilizados pela pecuária e 8 milhões de hectares para a agricultura. Muitos espaços da atividade pecuária estão em solo arenoso, com pouca capacidade de retenção de água ou em altitudes não muito adequadas para produção de grãos”, contrapõe.

As associações matogrossenses prometem realizar um levantamento próprio para descobrir o total de áreas desmatadas onde o agronegócio poderá crescer nos próximos anos.

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