Agronegócio inicia discussões para COP 15

Setor agropecuário aposta no encontro da Conferência das Partes (COP 15), da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, em dezembro na Dinamarca (Copenhague), para angariar recursos de incentivo à proteção florestal e ações retardadoras de gases de efeito estufa (GEE).

Esse foi um dos temas de destaque no 8º Congresso Brasileiro de Agribusiness – a crise e a sustentabilidade no agronegócio, realizado entre 10 e 11 de agosto em São Paulo. “Várias cadeias estão montando temas para serem oferecidos ao governo [representante do país na mesa de negociações da COP]. Queremos fazer propostas concretas para conseguir financiamentos diretos, via fundos de investimentos nacionais e internacionais”, declarou o presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), Carlo Lovatelli.

O objetivo é incentivar, no Brasil, outras formas de vender carbono além da estabelecida pela resolução do Protocolo de Quioto, da qual o país é signatário. “Os Estados Unidos têm um mercado não-Quioto muito forte com papéis na Bolsa de Chicago. A UniA União Européia também criou um mercado não-Quioto e trabalha com os dois sistemas, um critério próprio e outro em conformidade com o Protocolo”, explicou o diretor da Abag, Ingo Plöger.

Estima-se que o Brasil tenha um potencial de mercado de quase US$ 2 bilhões para créditos de carbono – levando em consideração as reservas florestais e as atividades que emitem menos GEE, como a utilização do etanol para combustível. Plöger argumenta que a proposta internacional considera a validade de créditos a partir do reflorestamento, sendo que não foi discutida a obtenção desses recursos a partir da redução das queimadas, a exemplo do que vem ocorrendo na produção canavieira.

Se os Estados Unidos foram capazes de criar um mercado de compensação próprio, totalmente avesso a Quioto, não seria impossível repetir a proposta aplicada aos moldes do Brasil. “Poderíamos iniciar com papéis na Bolsa de São Paulo, via BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]. Os setores privado, agrícola e industrial têm interesse. E os recursos iniciais para a criação de papéis poderiam ser obtidos a partir da dedução de 1% ou 2% do Imposto de Renda, por exemplo”, sugere.

O ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e atual vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Luis Carlos Pinto, acredita que a COP 15 deverá rediscutir a proposta de incluir a redução das queimadas para o ganho de créditos de carbono, e que é possível ao país receber recursos pela conservação de parte do seu ecossistema. Enquanto uma árvore continuar valendo mais deitada do que em pé, será mais difícil difundir a necessidade de conservação na sociedade. Além disso, o aumento da produção de alimentos deverá ocorrer, sobretudo, a partir de ganhos tecnológicos que possibilitem plantar e colher mais em uma mesma área.

Produtividade


A revolução verde – aplicação de tecnologias no uso do solo, melhorias genéticas e aumento intensivo de insumos – iniciada em meados do século 20, refutou a premissa da teoria malthusiana de que a produção de alimentos não teria condições de acompanhar o crescimento populacional.

Atualmente, muitos países têm condições de alimentar todos seus habitantes e exportar o excedente produzido. Em contrapartida, motivos sócio-econômicos e, sobretudo, ambientais, tornam a problemática da fome longe de ser superada. Estima-se que hoje existam 850 milhões de pessoas famintas, mas esse número pode chegar a 950 milhões, em 2025, como prevê o Banco Mundial – até lá, serão 8 bilhões de seres humanos vivendo no planeta, sendo 80% deles nas nações em desenvolvimento.

A procura de soluções que viabilizem a produção, o transporte e a produtividade de alimentos se torna mais preocupante se levarmos em consideração os últimos dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicando que em 2050 apenas 40% da área disponibilizada em 1950 para a agricultura estará em condições de uso.

Para Lovatelli, o Brasil terá importância decisiva na ampliação de oferta de alimentos para o mundo. O país dispõe hoje de 56 milhões de hectares com plantio de grãos, uma área que poderá ser dobrada a partir da liberação de terras utilizadas hoje pela pecuária. Estima-se que se a relação entre animal e espaço for de 1,4 cabeças por hectare, e não de 1 cabeça por hectare como ocorreu atualmente – cerca de 60 milhões de hectares seriam disponibilizados para a produção agrícola.

O aproveitamento do território já desmatado para as atividades agropecuárias também será fundamental nas ações de combate ao aquecimento global. No ranking das nações que mais emitem gases de efeito-estufa (GEE), o Brasil é o 15º colocado – o desflorestamento responde por 70% das emissões do país.

Lovatelli ressaltou que o Brasil tem condições de liderar uma produção responsável ambientalmente, mas é preciso superar problemas de relacionamento entre todas as atividades que compõem o setor primário e o poder público. O porta voz da Abag resumiu os entraves em quatro pontos: logística, crédito, seguro rural e zoneamento-econômico fundiário. A solução dos impasses na produção, segundo ele, deverá garantir o retorno de recursos para o setor, incluindo aqueles voltados para os estudos da sustentabilidade.

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Leia mais sobre COP 15 na matéria: Brasil e Reino Unido falam sobre clima

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