Armas são a cloroquina da segurança pública, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Armas são a cloroquina da segurança pública

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Desde o começo da pandemia, o presidente Bolsonaro optou pelo negacionismo, pelo deboche, pela indiferença e pelo desprezo. Enquanto diversos países – inclusive em condições semelhantes às nossas – se preparavam e traçavam estratégicas de enfretamento, ele desmentiu protocolos de segurança, recusou ofertas de vacinas dos laboratórios, sabotou iniciativas e negou a gravidade dos fatos. Inclusive logrou censurar alguns epidemiologistas públicos e peritos em saúde, em geral. Ministros da saúde que ensaiaram fazer algo, foram sumariamente demitidos. Em seu lugar, o presidente quer paus mandados. Se hoje ele finge usar máscaras ou apoiar a vacinação, é porque sentiu o impacto do retorno de Lula ao cenário político, o que pode atrapalhar seus planos de reeleição.

Durante toda a pandemia da Covid, Bolsonaro insistiu (e ainda insiste) numa farsa: num suposto tratamento precoce à base de cloroquina e outras drogas, totalmente ineficiente, obscuro e prescrito apenas por médicos cujas inclinações ideológicas sobrepõem-se às científicas. Não obstante as evidências contrárias, o presidente insiste no engodo, cujos resultados objetivos foram mortes dos pacientes “tratados”, complicações clínicas pelo uso indevido de tais medicamentos e desperdício de verba pública de 90 milhões de reais.

A ministra do Supremo Rosa Weber suspendeu, na última hora, grande parte dos quatro decretos que, em 13/04/2021, entrariam em vigor e facilitariam ainda mais o acesso a armas de fogo no país. Decretos que inviabilizariam a fiscalização e rastreamento das armas pelo Exército, facilitariam a obtenção de laudos psicológicos, viabilizariam o porte de armas, permitiriam a compra de grandes quantidades de armas e munições por categorias específicas (caçadores, atiradores e colecionadores – CACs) e autorizariam inclusive que menores de 14 anos tivessem acesso a elas, para fins desportivos. 

Na prática, os decretos retirariam do Estado o monopólio das armas e permitiriam que civis adquirissem arsenais privados e montassem seus exércitos particulares, isto é, milícias. Um retrocesso civilizatório imenso, pois somente o desarmamento e o uso exclusivo das armas pelo Estado podem garantir um mínimo de estabilidade e ordem ao convívio social. Sem a concentração das armas nas mãos das forças de segurança, o Brasil pode transformar-se num grande faroeste. 

As ameaças à vida e à democracia são claras. Além da óbvia correlação entre aumento do número de mortos em função da maior circulação de armas, os apoiadores do presidente, pouco afeitos a instituições republicanas, podem se converter, junto de policiais igualmente politizados, em grupo paramilitar a serviço de aventuras golpistas e autoritárias do presidente.

O que a cloroquina e as armas têm em comum? Qual a semelhança entre comprimidos de cloroquina e balas de revólver?

Por meio das armas e da cloroquina, Bolsonaro quer desresponsabilizar-se de questões que lhe cabem, mas das quais se esquiva, recorrendo, assim, a soluções simplistas, mas que satisfazem sua plateia. Na saúde, é muito mais fácil deixar que morram do que liderar uma atuação coordenada com estados e municípios para assistir a população e assegurar isolamento social, já que, por culpa sua, a oportunidade de vacinação em massa está perdida. Na segurança, é mais simples eximir o Estado do conflito social e deixar que civis armados duelem à vontade. O próprio “excludente de ilicitude” é o licenciamento da política de extermínio e a homologação das milícias. Abuso impune é o sonho dos genocidas. E testemunho da incapacidade do Estado de gerir a segurança pública.

Armas e cloroquina justificam a inação e a inapetência presidenciais. São o disfarce para sua inércia. Politicamente, não fazer nada é, sim, fazer algo. A inação é uma forma de agir e tem consequências. Populista que é, Bolsonaro prefere divertir sua plateia a agir, de fato. Finge trabalhar, enquanto abastece seus apoiadores com populismos rasteiros que, embora possam lhes custar a vida, os mantêm engajados.

Armas e cloroquina são empregadas no mesmo objetivo político: executar a política de morte. Cloroquina para deixar morrer e armas para matar são a mesma coisa. Facilita-se o acesso a revólveres e a escopetas, não a vacinas. Em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: a morte. A próxima epidemia será a da violência armada.

Remédios sem eficácia e munição são as soluções que ele inventou para problemas que não quer nem sabe enfrentar, e que só agravam o mau que prometem combater. Armas são a cloroquina da segurança pública.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora