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As bases da nova direita, por Antônio Flávio Pierucci

Publicado pela revista Novos Estudos em 1987, As bases da nova direita do professor Antônio Flávio Pierucci é um texto que captou muito bem, a meu ver, um comportamento que talvez pela primeira vez na história eleitoral do país tenha tomado dimensão tão expressiva.

A seguir, um trecho do texto (grifos meus).

Seus medos, seu dedo

 

Seu tique mais evidente é sentirem-se ameaçados pelos outros. Pelos delinqüentes e criminosos, pelas crianças abandonadas, pelos migrantes mais recentes, em especial os nordestinos (às vezes, dependendo do bairro, por certos imigrados asiáticos também recentes, como é o caso dos coreanos), pelas mulheres liberadas, pelos homossexuais (particularmente os travestis), pela droga, pela indústria da pornografia mas também pela permissividade “geral”, pelos jovens, cujo comportamento e estilo de pôr-se não estão suficientemente contidos nas convenções nem são conformes com o seu lugar na hierarquia das idades, pela legião de subproletários e mendigos que, tal como a revolução socialista no imaginário de tempos idos, enfrenta-se a eles em cada esquina da metrópole, e assim vai.

 

Eles têm medo. Abandonados e desorientados em meio a uma crise complexa, geral, persistente, que além de econômica e política é cultural, eles se crispam sobre o que resta de sua identidade em perdição, e tudo se passa como

se tivessem decidido jogar todos os trunfos na autodefesa. “Legítima defesa” é, assim, um termo-chave em seu vocabulário. Esta autodefesa, que é prima facie a proteção de suas vidas, de suas casas e bens, da vida e da
honra de seus filhos (suas filhas!), sua família, é também a defesa de seus valores enquanto defesa de si. (Mas isto é ser de direita?)
 
Eles não apenas votaram nas candidaturas mais à direita nas duas últimas eleições políticas realizadas no município de São Paulo; eles trabalharam por essas candidaturas. São ativistas da direita; não necessariamente
militantes partidários, mas ativistas voluntários de pelo menos uma das campanhas, a de Jânio Quadros em 1985 e a de Paulo Maluf em 1986. A maioria deles o foi das duas. Não se trata, portanto, de simples eleitores, nem chegam a ser militantes partidários propriamente ditos. O nome ativistas sazonais, ou ativistas de campanha, denota com mais precisão o grau de envolvimento político-eleitoral dos entrevistados, assim como seu nível de informação política e de estruturação ideológica.
 
 

 

 

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7 COMMENTS

  1. Também acho esse texto um

    Também acho esse texto um clássico. Não é à toa que esse ativismo se manteve persistente, desde o início da redemocratização, contra os “direitos humanos”. Bastou uma maior sucessão de governos trabalhistas para o ódio crescer.

  2. TRÊS DIREITAS E TRÊS ESQUERDAS

    O autor parece olhar num espelho para definir como Nova Direita apenas uma somatória de situações antagônicas das que o próprio Autor parece entender que sejam hoje de uma Nova Esquerda, mas apenas no sentido comportamental e “politicamente correto”. Fica parecendo que é da nova direita quem resiste a uma invasão de modismos e permissividades vindas do mundo global, que privilegiam e exacerbam a economia de consumo, a atomização dos consumidores, a individualização extrema dos seres humanos, destruindo o sentimento nacional em nações autônomas e corroendo os costumes e composição da família tradicional, base de uma nação.

    Existem a meu ver – no mínimo – três dimensões neste espectro: a) aquela que divide a esquerda ou direita comportamental (cultural), mas que discute soberanamente a nossa convivência social e apresenta maior ou menor tolerância com as diversas minorias que a modernidade de hoje faz nascer no Brasil; b) aquela dimensão que divide entre esquerda ou direita a visão política e econômica entre desenvolvimento nacional ou o neoliberalismo global; e c) aquela que opta pelos mais pobres e pela inclusão social, como prioridade das ações públicas

     Ou seja, temos uma esquerda nacional que luta com todas as frentes em favor do desenvolvimento do povo, com justiça social, mas com visão de nação autônoma e, pelo outro lado, alguns defendem apenas um sentimento difuso de uma suposta esquerda global, e que acham estar colaborando com determinados princípios e valores, apenas que, junto com isso, às vezes não percebem que estão abrindo mão da soberania nacional, da Amazônia e até das chaves do Banco Central, para os abutres do mundo. Alguns ingenuamente, outros por convicção política.

    Os tucanos falam em desenvolvimento, mas entregando a chave do cofre para um cidadão norte-americano. Falam em modernidade, mas associam-se aos pastores e outros candidatos autoritários mais retrógrados. Falam em manter foco nos avanços sociais, apenas que de forma esperta, mantendo planos que eles mesmos renegaram anos atrás. Ou seja, exatamente tudo o que uma boa direita parece hoje representar.

    O Eduardo Jorge acha-se “zen” e esquerdista, mas é apenas uma marionete de partido global “verde” de origem européia. Pois bem, a marionete foi mandada para apoiar Aécio Neves e ponto.

    A Marina, em minha opinião por causa de cega raiva contra Dilma e o PT, mostra a maior confusão nestes aspectos, pois perdeu a bússola da sua origem de esquerda, ao ponto que – pela sua religião e alianças – mostrou-se quase que de extrema direita e, ainda mais, é aquela que mais propus entreguismo econômico ao mundo global (apoios de banqueiros e independência do BC). Não poderia estar em outro palanque que não fosse Aécio Neves

    A Luciana Genro e o PSol parecem entender melhor esta variedade de esquerda (comportamental, social e econômica) e, embora com maior ênfase na esquerda comportamental e social, dando espaço à invasão cultural global, fecha por outro lado as portas perante a globalização econômica e financeira, apenas que da boca para fora, sem coerência na hora em que tem que apoiar o PT para isso. O PSol parece ser o que o PT gostaria de ser amanhã, apenas que o PT luta bravamente para isso, enquanto o PSol brinca de fazer política.

    O PT, embora pareça ser mais divagar no aspecto comportamental (até porque existem muitas correntes dentro do partido e esses assuntos devem ser debatidos no seio da sociedade), ele caminha com a responsabilidade de melhorar a vida de milhões de brasileiros, porém, sendo atacado brutalmente pelas forças globais no aspecto econômico e financeiro.

    O assunto seria menos confuso se soubéssemos separar os aspectos políticos que lidam com a nossa supervivência como nação autônoma e guardar as nossas diferenças para discuti-las quando estejamos embaixo de um teto soberano, sem gente excluída ou passando fome.

    Existe hora para defender a nação, para desenvolver a sua economia, para melhorar a vida das pessoas mais pobres e, naturalmente, para discutir os direitos de minorias LGBT, por exemplo. Mas, existe uma ordem lógica para priorizar as bandeiras que serão colocadas na frente. Os LGBTS, PSol e outros me desculpem, mas esta não é hora de discutir homofobia, mas sim de defender o Brasil.

    • Concordo com essa avaliação

      Concordo com essa avaliação de que há uma esquerda mais nacionalizante e outra mais internacionalizante, o mesmo valendo para a direita. E que ambos os lados também apresentam dicotomias relativas a valores culturais e comportamentais.

  3. Não considero a situação tão

    Não considero a situação tão simples. A opção por militância de fortalecimento das lideranças de direita, são no meu limitado entendimento, resultante da analfabetismo político muito bem explorado pela direita consciente, esta organizada nos meios de comunicação e no judiciário, que não estão sujeitos ao processo democrático, sendo herdeiros da estrutura autoritária da ditadura militar. A criminalização da politica sempre aconteceu no país, durante a após o fim da ditadura militar, num processo de desconstrução da cidadania politica que atingiu várias gerações, fortalecendo o fenomeno de analfetismo político na sociedade brasileira. Num ambiente deste, a própria direita tem dificuldade de fortalecer lideranças pelo centro e,  nas eleições seu discurso não supera a duvidosa e limitada  bandeira da corrupção. No resumo, a limitação de suas bandeiras alternativas para os problemas da inclusão socioeconômica,  tem encurraldo a direita para os limites do preconceito e violência política.       

  4. Nessas horas sempre se deve

    Nessas horas sempre se deve aprender com o “mago” Joseph Goebbels: a propaganda política deve sempre explorar os preconceitos latentes nas pessoas para fazer triunfar um ponto de vista político. Os imbecis afetados nem vão se dar conta disso, que são usados. Foi isso que a direita nativa fez. Durante 12 anos explorou ad infinitum os preconceitos do cidadão médio (ou medíocre?) contra pobre, preto, puta, Pt, nordestino, etc. Hoje assistimos seus pavorosos resultados: um candidato sem ideias, sem conteúdo, sem nada, a não ser o preconceito anti-petista, pode governar o Brasil.

  5. Nova Direita?

    Bom artigo para lembrar que a direita pró-fascista sempre existiu no país mascarada com um verniz pró-socialista pois alguns partidos que disputam eleições tem esta palabra em suas siglas (os fascistas italianos também fizeram isso no passado). Nesta eleição finalmente as máscaras cairam e os bons moços mostraram sua face sombria e agressiva com lideranças ativas em todas as áreas importantes do país, Imprensa, Política, Justiça, Medicina, universidades e igrejas em geral. A novidade é que parte dos honestos jornalistas e intelectuais que acreditavam não existir por aqui direita organizada finalmente acordaram e a viram agora em ação aberta e descarada.

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