As consequências da visita de Che Guevara na Argentina e no Brasil em 1961, por Jota A. Botelho

    Ele veio falar sobre desenvolvimento econômico e social, comentar sobre a paz ou o conflito que teve com os Estados Unidos.

    As consequências da visita de Che Guevara na Argentina e no Brasil em 1961

    por Jota A. Botelho

    Quando Kennedy estava na presidência nos Estados Unidos foi proposto ao continente latino-americano uma Aliança para o Progresso na tentativa de impedir a expansão “no seu” território da revolução socialista cubana. Esse panorama abriu as portas para a histórica conferência econômica e política do Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES), realizada em Punta del Este, no Uruguai, entre os dias 5 e 17 de agosto de 1961, onde os representantes dos Estados Americanos debateram o destino do desenvolvimento econômico e a livre autodeterminação dos povos da América Latina. 

    As consequências das intervenções de Che Guevara no Uruguai, bem como de sua visita à Argentina marcarão o destino imediato do Brasil, Argentina e Cuba. Os Estados Unidos, com sua política de ferro, onde o Departamento de Estado e a direita anticomunista, que nunca respeitaram a livre autodeterminação dos povos, colocarão o mundo à beira da 3ª Guerra Mundial.

    Durante a presença de Che Guevara no Uruguai, como na sua última vez em que esteve  na Argentina,  e também sua passagem pelo Brasil,  talvez possamos entender por que a figura do comandante era, é e será uma das referências políticas mais relevantes da Revolução Cubana e de todas  tentativas revolucionárias na América Latina daquela época.

    Che chegou ao Rio da Prata naquele frio agosto de 1961 como Ministro da Indústria de Cuba. Em abril daquele ano, a revolução cubana havia esmagado a invasão norte-americana na Praia Girón (invasão da Baia dos Porcos), e a guerra fria já estava em pleno andamento desde 1946, que logo atingiria o seu auge na região.

    Ernesto Guevara chegou à frente de uma delegação de 44 pessoas. Desceu no aeroporto de Montevidéu com sua boina clássica, capa de chuva com cinto grosso, uniforme verde-oliva e botas, carregando na mão esquerda um portfólio preto de natureza executiva.

    Ele veio falar sobre desenvolvimento econômico e social, comentar sobre a paz ou o conflito que teve com os Estados Unidos. Che fez um discurso avassalador sobre a Aliança para o Progresso que deixava Cuba de fora do projeto, denominando-a de uma “latrinocracia”.

    Por outro lado, o comandante Guevara não contou a ninguém que um dia antes, em 4 de agosto, em Havana, Fidel Castro havia assinado um acordo “estritamente secreto” com a URSS “sobre o fornecimento a Cuba de materiais especiais”. O termo “materiais especiais” era um eufemismo. Na verdade, se tratava dos mísseis atômicos que seriam instalados na ilha e que fariam das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas uma das mais poderosas da América Latina, razão pela qual levantava suspeitas dos EUA sobre a nova posição de Cuba no cenário latino-americano.

    Enquanto as discussões aconteciam em Punta del Este, nos salões do cassino de San Rafael, nos corredores adjacentes ou nos hotéis das delegações, alguns personagens tentaram aproximar suas posições e evitar aprofundar o conflito entre Havana e Washington, e entre Cuba e vários países da América Latina. Eles suspeitavam que Cuba estivesse se encaminhando para o Pacto de Varsóvia, mas ninguém, com certeza, poderia assegurá-lo.

    Dada a proximidade de Buenos Aires com Punta del Este e Montevidéu, o presidente Frondizi analisou a possibilidade de manter uma reunião secreta com Che Guevara a pedido de KennedyGuevara ouviu atentamente a solicitação do presidente argentino, não comentou as questões subjacentes, e suas linhas da exposição eram duas: as verdadeiras intenções de Frondizi e sua real capacidade de manobra nacional e internacional.

    Che viajou para a Argentina em um avião particular no dia 18 de agosto, que aterrissaria no aeroporto Don Torcuato, e de lá se dirigiu diretamente para a residência presidencial de Olivos, onde Frondizi já o esperava. Um dos principais assuntos tratados da pauta de conversações foram a não inserção no Pacto de Varsóvia e a melhoria das relações com os EUA para evitar a hegemonia da URSS na região.

    Em suas lembranças daqueles dias, o jornalista Eliseo Álvarezem seu livro O homem que enganou Kennedy, com um olhar sobre algumas passagens novas, conta que Rogelio Frigerio e Oscar Camilión (representantes no governo Frondizi) saíram para caminhar para aliviar as tensões. A certa altura, o lúcido Camilión disse-lhe:

    Rogelio, acho que estamos sofrendo de síndrome da mosca.

    De que fala?

    É uma enfermidade que assombra os poderosos e os faz acreditar que têm mais poder do que o real. É essa síndrome que temos de protagonismo permanente, de mediação ou de tentar fazê-lo em todos os conflitos. Não estamos em condições de nos metermos entre os Estados Unidos e Cuba.

    Frigerio olhou intrigado para ele.

    Somos um país soberano. Temos que fazer coisas que mostrem que a soberania nacional não pode estar atada às opiniões das potências. Humildemente opino que o encontro com Guevara foi um erro. Perdemos totalmente a confiança dos poucos militares que ainda nos apoiam.

    Em 29 de março de 1962 Arturo Frondizi foi destituído do governo pelas Forças Armadas e confinado na ilha Martín García.

    O encontro de Frondizi com Che Guevara

    A Presidência de Arturo Frondizi (1958-1962)

    DESPERONIZAR O PAÍS, por José Pablo Feinmann

    Para entender o processo politico argentino desde a queda de Perón até o Governo Frondizi, quando houve o embrião da doutrina de Segurança Nacional, com o plano CONINTES.

    Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES), realizada em Punta del Este, no Uruguai, entre os dias 5 e 17 de agosto de 1961- I

    Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES), realizada em Punta del Este, no Uruguai, entre os dias 5 e 17 de agosto de 1961- II

    A Entrevista de Che Guevara ao Canal 7 da Argentina, no Uruguai

    A Despedida de Che no Uruguai

    “Não podemos lutar contra inimigos separados uns dos outros. Somente há um inimigo comum neste momento, que é o que reúne todas as inimizades que podem cair sobre o nosso povo. É o que significa opressão de qualquer tipo, é o que significa assassinato, opressão politica, opressão econômica, distorções de nossos desenvolvimentos, o que significa incultura. Tudo isso significa imperialismo. Então não podemos lutar desunidos, um por aqui e outro por lá”. Isso disse Che no discurso de despedida do Uruguai, na Universidade de Montevidéu. Momentos depois de terminado o discurso, um sicário disparou contra Guevara, mas acabou matando um docente da universidade.

    CHE GUEVARA NO BRASIL

    Após a conferência do CIES em Punta del Este, no Uruguai, Che viaja para o Brasil no dia 19 de agosto de 1961 e reúne-se em Brasília com o presidente Jânio Quadros. O presidente Quadros já havia se encontrado com Che em Cuba e no Egito. Quadros estimava Che Guevara, admirava a Revolução Cubana e apoiava Cuba. Em cerimônia pública em Brasília, o presidente Quadros condecorou Che com a prestigiosa Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (a mais alta condecoração brasileira atribuída a cidadãos estrangeiros). Seis dias depois, no dia 25 da agosto de 1961, Jânio Quadro renuncia. Brizola imediatamente inicia a Campanha da Legalidade para garantir a posse do vice-presidente João Goulart.

    Brizola se encontrara com Guevara durante o CIES no Uruguai, indo a convite do próprio Jânio, quando Brizola o acompanhou no encontro que Quadros teve com Frondizi em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina e Uruguai.

    A Renúncia de Jânio Quadros

    TRECHO DO FILME “Brizola: tempos de luta”, de Tabajara Ruas

    Na Conferência de Punta Del Leste, realizada no Uruguai, Che Guevara estava presente e se encontrou com Leonel Brizola. Trecho do documentário “Brizola: Tempos de luta” (2007), de Tabajara Ruas.

    Assista abaixo o documentário Matar al Che, com direção de Valeria Roig e Rolo Aspeitia, baseado no livro Detengan al Chede Eduardo Barcelona, que segundo o embaixador Albino Gómez, o diplomata assessor de Frondizi, chegaram a planejar assassinar Che Guevara quando de sua visita à Argentina, contando com o apoio do brigadeiro Jorge Rojas Silveyra, Secretário da Aeronáutica, o mesmo que derrubou Perón em 1955. Antes assista a entrevista do autor do livro, Eduardo Barcelona.

    Doc. Matar al Che (clique aqui: https://www.pagina12.com.ar/68039-matar-al-che )

    Fontes adaptadas:

    1-https://www.eldia.com/nota/2016-8-18-el-che-y-frondizi-la-letra-chica-de-una-cita-historica
    2-https://www.infobae.com/sociedad/2019/08/18/los-entretelones-de-la-reunion-reservada-entre-el-che-guevara-y-arturo-frondizi-que-irrito-a-los-militares-y-facilito-el-golpe/
    3-https://museuvirtualcheguevara.blogspot.com/2012/09/che-e-condecorado-em-brasilia-brasil.html
    4- https://www.unica-cartelera.com.ar/cines/441-la-mascara

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