As decisões para o Itamaraty

Coluna Econômica

A estratégia de Lula consistiu em criar contrapontos permanentes em seu governo, de maneira a montar um leque amplo de apoios e reduzir pontos de tensão.

Na frente externa, por exemplo, através do chanceler Celso Amorim, de Samuel Pinheiro Guimaraes (e do assessor especial Marco Aurélio Garcia) o Itamaraty mantinha uma atitude de independência em relação aos Estados Unidos. O contraponto era exercido pelo Ministro da Defesa Nelson Jobim.

O mesmo ocorreu na frente interna, entre o espaço aberto aos movimentos populares e eventuais resistências nas Forças Armadas. Numa ponta Paulo Vanucchi, dos direitos humanos; na outra, o próprio Jobim, verbalizando reclamações das Forças contra o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) mas, assim procedendo, esvaziando qualquer manifestação de insubordinação.

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OnteOntem, o jornal “Folha de S. Paulo” anunciou a intenção do governo Dilma Rousseff de indicar Antonio Patriota, ex-embaixador brasileiro nos EUA, como Ministro das Relações Exteriores.

Pode ser um mero balão de ensaio, prática abundante em períodos de definição ministerial. Se confirmada, a decisão poderá comprometer o protagonismo internacional brasileiro.

Dada a exuberância de Amorim, o substituto teria enormes dificuldades em manter o protagonismo atual da diplomacia brasileira. Mas a Patriota, pelas informações, faltam alguns atributos indispensáveis.

É visto como um diplomata eficiente, mas não um “policy maker”, um homem capaz de definir políticas institucionais. E os desafios são amplos e diversificados.

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Internacionalmente, manter a liderança brasileira sobre emergentes nos fóruns internacionais. É um espaço conquistado em parte graças à melhoria da percepção sobre o Brasil e à exuberância de Lula e Amorim. Mas principalmente devido à capacidade de Amorim de formular uma estratégia de protagonismo para cada situação vivida – da Rodada Uruguai, na OMC (Organização Mundial do Comércio) às reuniões do G20.

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Além disso, preservar o espaço conquistado na América Latina, tendo que conviver com vizinhos espaçosos, como Hugo Chaves, Cristina Kirchner.

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Até pode ser que Patriota seja o mais capacitado, na hipótese difícil de substituir Amorim. Mas é evidente o esforço articulado de alguns setores anti-Amorim para emplacar Patriota.

Ontem, o jornal “Folha de São Paulo” anunciou a indicação de Patriota. Era balão de ensaio. À tarde, O Globo anunciou que Patriota havia sido “aplaudido pelo Ministério das Relações Exteriores”. Na verdade, o aplaudo foi de um diplomata aposentado, Jerônimo Moscardo.

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Outro desafio relevante do próximo governo será a definição das armas para combater as expectativas do mercado – de que a inflação está em alta. A maior parte da alta é de preços de alimentos, influenciados pelas cotações internacionais – portanto, sem nenhuma relação com suposto aumento da demanda, que é onde alta de juros pode influenciar.

Dependendo da resposta do Banco Central, poderá se conferir o estilo de Dilma na política econômica. 

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