As dúvidas sobre a nova polarização China-EUA, por Luis Nassif

Governo Bolsonaro fez concessões sem contrapartida que não eram esperadas nem pelo mais otimista membro da diplomacia americana. Na outra ponta, uma agressividade gratuita contra a China

Nas últimas semanas, acirraram-se as estocadas entre Estados Unidos/Donald Trump e China. Há uma imensa disputa diplomática. Do lado da China, praticando o soft power, levando equipamentos e assistência de saúde aos países afetados pelo Covid-19. Do lado dos Estados Unidos, uma campanha incessante atribuindo à China a responsabilidade maior pela pandemia.

Para o cientista social e professor da Universidade de Harvard Hussein Kalout – com quem conversei ontem – há aspectos atuais que tornam a China um adversário-parceiro dos Estados Unidos.

Desde o século 19, não houve muitos períodos com a predominância de uma potência mundial apenas. No pós-guerra havia a polarização Estados Unidos-Rússia. Com o fim da União Soviética, seguiu-se um período de predomínio absoluto dos Estados Unidos. Agora, volta a polarização com a ascensão da China.

No período anterior – EUA-URSS – não havia integração entre as economias. Com a China, o jogo é outro, diz Kalout. O país é responsável por pelo menos US$ 500 bilhões de resultados de empresas americanas. Os chineses são grandes investidores nos Estados Unidos, além da propriedade da maior parte da dívida pública norte-americana. Por outro lado, os EUA são essenciais para as exportações chinesas e para a produção terceirizada.

Por tudo isso, Kalout estima que, passada a era Donald Trump, os macro-interesses econômicos amenizariam a nova guerra fria.

Na outra ponta, o professor Elias Jabbour – do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro -, especialista em China, e comentarista da TV GGN, sustenta que, depois da pandemia e da epidemia Trump, o novo plano quinquenal chinês colocará como objetivo maior a segurança interna do país.

O plano começa a ser discutido esta semana, e se funda em dois princípios. O primeiro, o deslocamento do dinamismo da economia para o mercado interno, de 500 milhões de pessoas. O segundo, de acelerar o processo que vem de 2005, do desenvolvimento tecnológico autônomo chinês.

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Para Jabbour, os macro-interesses econômicos não serão suficientes para garantir a paz duradoura entre os dois países. Para ele, faz parte da lógica imperial o acirramento da agressividade da potência dominante, quando começa a perder terreno.

Qualquer que seja o desfecho, a política externa brasileira tem percorrido o pior caminho possível, diz Kalout. Em alguns momentos da história – como no governo Dutra e Castello Branco – houve alinhamento automático com os Estados Unidos. Mas em nenhum momento da história diplomática brasileira ocorreu um processo de submissão como a atual. Não se trata nem de submissão aos EUA, mas ao próprio Trump, anota Kalout.

Nessa submissão, o governo Bolsonaro fez concessões sem contrapartida que não eram esperadas nem pelo mais otimista membro da diplomacia americana. Na outra ponta, uma agressividade gratuita contra a China, arriscando o afastamento do mais relevante parceiro comercial brasileiro e sustentáculo maior do agronegócio.

 

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5 comentários

  1. O sujeito que ocupa a presidência da república esperou o cabelo amarelo dos falcões do norte por mais de uma hora para dizer I love you. Precisa dizer mais alguma coisa ?

  2. “..aspectos atuais que tornam a China um adversário-parceiro dos Estados Unidos.”
    Pois é, não há muita duvida que grande nao derruba grande, e só imbecis se posicionam entre ambos.

  3. Mais idiotas do que o presidente foram os empresários do agro negócio que tiveram mercados abertos nos governos petistas mas acharam mais conveniente se associar ao seu semelhante em burrice e grosseria em troca de roubo de terras indígenas e desmatamento da Amazônia.

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